10 ótimos álbuns de fevereiro de 2012

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Depois do post dos 10 ótimos álbuns lançados em janeiro, trago aqui minha listinha comentada de fevereiro. E, antes disso, gostaria de fazer algumas considerações. Esta não é uma lista de colocações, melhores álbuns ou algo assim; são apenas álbuns lançados nesse período que eu ouvi, gostei e achei relevante e interessante compartilhar. Não tenho preconceito com gênero algum e tento dar valor a tudo, seja o rock, o jazz, a música eletrônica ou o hip-hop.

Muitos acham estranho ou reclamam o uso de “tags” para classificar as músicas. Acham uma completa viadagem ficar falando de gêneros como “post-isso” ou “alternative aquilo”. De fato, é um pouco estranho você tanger e tentar dar forma para aquilo que não vê, mas quando se cria intimidade com esses gêneros tão estranhos, isso facilita e torna tudo mais prático.

Sem mais, segue o apanhado de álbuns.

CéUCaravana Sereia Bloom

Maria do Céu Whitaker Poças, ou apenas CéU, surgiu de forma repentina na música brasileira em 2005 e desde então vem acumulando sucesso tanto no Brasil quanto no exterior, incluindo até indicações ao Grammy. Ouso dizer que Caravana Sereia Bloom, seu terceiro álbum, é o melhor disco da cantora até então. Faço apostas de que repercutirá na MPB como o álbum do Criolo repercutiu em 2011. Caravana Sereia Bloom é todo permeado por um jazz gostoso e cheio de glamour, influências claras da nossa MPB. Este é o diferencial da CéU, uma cantora moderna que, em vez de estagnar e ocupar apenas mais um espaço dentre as grande parte das chatonas cantoras já consagradas do gênero, incorpora influências de tudo aquilo que a agrada.

Caravana Sereia Bloom chega a ser poético em alguns momentos dentre todo esse liquidificador de misturas que ele apresenta. CéU consegue demonstrar genialidade, seja em "Fffree" e seus curtos 66 segundos de duração, seja cantando em inglês no seu cover rocksteady de "You Won’t Regret It". Seja no approach pop de "Amor de Antigos", no dub de "Vagarosa" ou no flerte com o blues em "Retrovisor", Maria surpreende ao criar e reproduzir tudo isso com grande perfeição. Vale a pena escutar este que já é, sem dúvida, um dos melhores álbuns da música nacional em 2012.

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Van HalenThe Different Kind of Truth

Anunciado ainda em 2011, The Different Kind of Truth provavelmente fora um dos álbuns mais esperados neste início de 2012. Uma banda lendária que há 14 anos não lançava nada inédito, e que há 28 anos não lançava nada com Dave Lee Roth, o vocalista original, para muito o responsável pela melhor fase da banda. Com essa ansiedade, vem o temor da decepção: não se sabe o que esperar de uma banda com um legado tão importante e há tanto tempo parada. Mas felizmente Van Halen não desapontou. Apesar do primeiro single liberado, "Tattoo", ter sido desanimador com uma faixa diferente do usual Van Halen, o resto do álbum aparece coeso, com os ícones do hard rock remetendo bem à sua fase de ouro tão adorada, mas com espaço para algumas inovações, sem exageros. The Different Kind of Truth deve agradar a todos aqueles nostálgicos fãs de rock que ainda possuem adoração pelo passado, assim como aqueles que querem um álbum para ouvir de maneira descomprometida por aí.

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Pepe DeluxéQueen of the Wave

"Mindblowing" é a palavra que pode definir o quarto álbum do Pepe Deluxé, o insano duo finlandês que desde os anos 90 criam músicas complexas, difíceis de definir, mas ao mesmo tempo assaz aprazíveis. É uma musicalidade de fácil digestão, mas ainda assim conseguem explodir nossa mente. Começaram na onda forte do big beat e do trip hop que tanto fazia sucesso naquele tempo, e com o passar do tempo foram cada vez mais incorporando influências diversas em sua sonoridade. Assim, formaram algo completamente único. Provavelmente, Queen of the Wave se tornará a magnum opus dos finlandeses.

Queen of the Wave é um álbum conceitual, algo próximo de uma ópera rock maluca, uma história mágica que pode ser acompanhada pelas letras contidas em seu livreto. Já adianto que cada música difere completamente uma da outra, mas ainda assim conseguem manter a proposta coesa. Desta forma, é um convite para uma viagem ao mundo criado por Pepe Deluxe, das quebradas barulhentas do breakcore ao surf rock, da música barroca ao folk, com violinos e corais permeando levadas eletrônicas, do sensual trip hop às lisergias do psicodelismo. Queen of the Wave merece ser ouvido por toda a sua coragem e ousadia inovadora. Ouça de mente aberta. A experiência vale apena.

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BurialKindred

Burial é o alterego do aclamado produtor musical londrino William Beave, cujo álbum de estreia homônimo integra os quatro pilares do hoje tão popular dubstep, ao lado dos outros produtores ingleses Skream, MRK1 e Kode 9. Pra quem vem acompanhando o sucesso absurdo do Skrillex e todos aqueles que tentam pegar carona na onda do americano, já aviso que o dubstep praticado aqui se difere e muito do electro-house carregado de wobble bass pesado que os demais praticam. Calcado no ambient, a aparente maior preocupação do Burial é com a parte atmosférica de suas músicas. Elas têm um espectro melancólico e deep, batidas de 2-step, synths obscuros e samples vocais. Este é o trabalho mais intenso e progressivo do produtor, que apesar de apenas três músicas, possui mais de 30 minutos de duração. Simplesmente hipnótico.

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SektemtumAut Caesar Aut Nihil

Provavelmente o álbum mais pesado de toda essa edição. Sektemtum é uma banda francesa novíssima, e há apenas uma semana lançou seu primeiro álbum. Pouquíssima informação sobre o grupo se encontra pela internet, mas podemos afirmar que ela advém da cena black metal francesa, uma das mais prolíficas. Apesar disso, Sektemtum não remete muito a bandas mais tradicionais do gênero, e percebemos referência de outras três grandes bandas consagradas que fogem do mais purista: a Celeste, o Anaal Nathrakh e Kvelertak. Deve agradar os ouvidos acostumados ao metal extremo. Mas o que eu realmente recomendo é o ótimo clipe de Aut Caesar Aut Nihil, um curta muito bem dirigido e com uma fotografia excelente, protagonizado por gostosas se drogando, trepando, cometendo crimes e tudo mais que deixaria Tarantino orgulhoso.

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Sleigh BellsReign of Terror

É, eu sei, um tanto estranho uma banda com nome quase natalino ter um título de álbum tão agressivo quanto este. Pois bem, essa dualidade entre o “bonitinho” e o “agressivo” é o que dá o tom do Sleigh Bells. A começar pelo fato de o duo ser formado por Alexis Krauss, uma garota cujas únicas aparições midiáticas anteriores eram em comerciais da Nickelodeon; e Derek Miller, responsável pelas guitarras do Poison the Well, banda de post-hardcore das mais pesadas. Apesar da junção de ambos ser um tanto quanto estranha, funciona. A mistura resulta em um som pop radiofônico, permeado por guitarras distorcidas, bumbos duplos combinados a efeitos eletrônicos. Há melodias de guitarras bem criativas e sintetizador que remete aos anos 80 de forma bem barulhenta. Tudo isso forma uma atmosfera bem melódica e intensa que, no fim, destaca o duo nessa cena tão genérica e saturada que é o indie.

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Leonard CohenOld Ideas

Este é um chorinho de janeiro. Na verdade, o álbum foi lançado no dia 31 e não deu tempo de incluir na edição passada, mas não tinha como deixar passar batido aqui. Cohen integra o mais alto escalão do mundo da arte, começou sua carreira como músico tardiamente, com mais de 30 anos, durante a década de 60. Mas até então já havia feito seu nome como escritor e poeta. Mais de oito anos depois de Dead Heather, Leonard lança Old Ideas, o ápice de quatro anos na estrada depois de mais de 15 anos parado. Cohen havia declarado aposentadoria; contudo, quase faliu e a necessidade de fazer dinheiro falou mais alto. Assim, com mais de 70 anos, caiu na estrada mais uma vez e, em 2009, teve lucro superior a US$ 10 milhões, uma das turnês mais lucrativas do ano. Não é vergonha dizer que o álbum tenha vindo da procura dele por dinheiro, ainda mais quando isso remete a uma obra tão profunda e inspirada.

Old Ideas é um despejo de mágoas, uma obra soturna e encantadora em que Cohen entoa com sua voz rouca, sussurrada e cansada, letras fúnebres e desesperançosas. Mas ainda assim magistralmente belas, acompanhadas por violinos melancólicos, órgãos, uma vibe meio marginal bluesy, e percurssões jazzísticas. É incrível como mesmo em avançada idade, mesmo que de forma tristonha, o músico consegue criar composições absurdamente inspiradas.

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SoenCognitive

Soen serve para matar a vontade daqueles que anseiam há mais de sei anos por algum trabalho novo do Tool. Tool fora uma das bandas de metal americanas mais bem sucedidas nos anos 90, junto a seu prog metal estranhíssimo, experimental, mas ainda assim um tanto cativante e único. Não à toa, arrebataram uma legião de fãs (e ainda o fazem). Soen foi formado por duas figurinhas tarimbadas e ovacionadas em meio à cena progressiva: Martin Lopez, o excelente ex-baterista do Opeth que mistura percussão de metal e jazz como ninguém, e Steve DiGiorgio, antigo baixista do mítico Death. Unindo forças a essa dupla temos Joel Ekëlof, um dos principais responsáveis por essa semelhança com o Tool graças a seus vocais absurdamente parecidos com os de Maynard Keenan. Cognitive possui todas as nuances do rock progressivo, desde a arte gráfica ao titulo do álbum envolto em letras complexas e viajantes. Fora toda a parte rítmica, é claro.

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AirLe Voyage Dans La Lune

Este não é um álbum comum. Na verdade, é a trilha sonora de um filme lançado há exatos 110 anos, Le Voyage Dans La Lune (Viagem à Lua), de 1902. É um filme fundamental para a história do cinema (a primeira obra fantasiosa exposta ao mundo em vídeo). Para celebrar seus 110 anos, colorizaram algumas cenas do filme à mão e convidaram o Air para o honroso trabalho de criar a trilha sonora. Apesar da duração do álbum ter o dobro da duração do filme, a trilha sonora encaixa bem com as cenas e o tom fantástico que elas carregam. Não é um álbum para escutar todo o tempo, mas fica bonito quando acompanhado do filme ou ocasionalmente, como música ambiente. Isso o Air já está acostumado a fazer tão bem.

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te' – 音の中の『痙攣的』な美は、観念を超え肉体に訪れる野生の戦慄。

Muitos associam o rock japonês logo de cara com pessoas estranha, usando roupas espalhafatosas, maquiagens carregadíssimas e perucas. Pensam que são bandas de clones de Elke Maravilha ou de alguma drag queen tocando música de anime. Mas a realidade é que os japoneses vão muito além dessas bandas que utilizam o visual kei.

Te’ (ou té) integra um estilo muito rico no Japão que mistura o post-rock com o math-rock. O post-rock é famoso pelas sua sonoridade atmosférica, podendo tanto pender para o tranquilo ambient quanto para faixas mais intensas e aceleradas; o math-rock mistura guitarras dissonantes com bateria polirrítmica, bem quebrada. Essa mistura casa com um som intenso e enérgico acima de tudo. Uma excelente recomendação para os fãs de música instrumental.

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E vocês? Que discos lançados em fevereiro vocês ouviram e curtiram?


publicado em 09 de Março de 2012, 22:20
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Gustavo Bertassoli

Estudante de Direito meio errado, não sabe dizer se é viciado, aficcionado ou apenas apaixonado por música, mas tenta manter isso num nível saudável (apesar de falhar constantemente). Cresceu junto com a internet, porém, não sabe se evoluiu tanto quanto ela. Não gosta de café, o que não lhe permite ter uma biografia pseudo-cult no Twitter.

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