A mulher que come homens

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A novela Viver a Vida chegou ao fim sem desenvolver um de seus personagens mais instigantes: Alice, interpretada por Maria Luísa Mendonça. Claramente inspirada em Samantha, personagem de Kim Cattrall na série Sex and The City, Alice é a mulher loira, experiente, aparentemente bem resolvida, que come. Sim, ela come os homens.

Fissurada em sexo, aventuras e no desbravamentos da genitália masculina, Alice tem comportamento de homem em corpo de mulher, igualzinho ao de Samantha de Sex and The City. É a mulher-comedora. Não importa muito se o parceiro é casado, solteiro, ou se tem noiva ou namorada: "É só sexo", explica. Pode até haver uma ou duas repetições. Nada muito fixo. Tem alergia a compromisso. Não quer filhos. Quer aproveitar a vida ao máximo, e isso significa fazer muito sexo com muitos homens diferentes. A libido é alta e constante por décadas, suficiente para passar por cima até da menopausa.

A velhice dessas mulheres ainda não foi muito explorada pela teledramaturgia. Talvez o livro A Casa dos Budas Ditosos, de João Ubaldo Ribeiro, seja a ficção mais próxima – a protagonista sexagenária encerra a vida exatamente como a viveu: pagando por garotos de programa para dar-lhe prazer.

"Se não dá conta, leia meus livros e aprenda algo antes"

Sem dúvidas, passar a vida sem os dilemas femininos é uma construção pós-queima dos sutiãs. Olhando de fora, parecia mais fácil para a mulher assumir papéis sociais iguais aos dos homens do que encarar a vocação biológica ou, segundo os estóicos gregos, natural da fêmea: ser mãe, esposa, acolhedora, em busca de um macho para fecundar seu óvulo e proteger sua cria.

O arquétipo da mulher-comedora (elas são mesmo desencanadas?)

É claro que o movimento feminista não trata de igualar a mulher ao homem, mas sim viabilizar-lhe escolhas. O que ocorre é que, hoje, o sofrimento da mulher conta outra história.

Falaram que ela podia ter carreira bem sucedida, voz ativa no lar, decidir os rumos da sua vida e aproveitá-la sexualmente. Racionalmente, tudo isso é possível, mas seu corpo ainda dá alertas para ir além e dar um jeito de ser mãe, esposa, acolhedora, saindo em busca de um macho para fecundar seu precioso óvulo e proteger sua cria.

Deu no que deu: vira e mexe, bares e boates estão cheios de mulheres se esforçando para serem Samanthas ou Alices. Bonitas, elas passam uma imagem de serem fortes, desencanadas, do tipo "vou pra cama, você me faz gozar (gozo fácil, ok?) e vou embora numa boa, sem a menor questão de ficar com seu número de telefone".

Por trás da maioria dessas mulheres, existe realmente a mulher em si. Diferente do arquétipo construído em cima das conquistas femininas, a mulher está longe de ser ou querer ser essa criatura desencanada vista na TV e na publicidade. O motivo para não sê-lo é muito anterior à cultura: faz parte da própria formação da psique feminina.

Ah, essas novelas da Globo... Quando é que vão parar com a bronha?

A formação do corpo sexual da mulher

Segundo Sigmund Freud (Totem e Tabu, 1913) e Anthony Giddens (A Transformação da Sexualidade, 2004), a formação do corpo sexual da mulher e do homem ocorre de formas diferentes.

O homem tem o pênis. Quando criança, descobre que tem um falo e, na primeira vez que vê sua mãe ou uma menina pelada, sofre um choque: parece que o outro ser está aleijado, capado, podendo ser, muitas vezes, até mesmo subjugado pelo menino. A concentração da cisma masculina no falo tende a ficar ainda maior. Órgão sexual exógeno, passa a ser tocado e, ainda criança, o homem percebe que o falo é a sua grande fonte de prazer. Sua psique passa a querer explorar aquilo que a mulher não tem e, na grande fantasia masculina, dar a ela seu pênis é poder ser o super-homem que aplicará prazer àquele ser inferior.

Com a mulher, ocorre de forma diferente. A menina, na infância, também entende que não tem algo que o homem tem. E, como seu órgão sexual é interno e seu clitóris ainda está menos desenvolvido, constrói sua sexualidade de outra forma. Enquanto o homem mantém a concentração no falo e cresce achando que o pênis é a grande fonte de prazer, a mulher forma zonas erógenas diluídas por todo o corpo, como por exemplo nos seios, nas virilhas ou no pescoço. Simplesmente porque, na infância, sublimou a canalização da libido para o falo que não possuía.

Giddens nos lembra que a sensação de poder que o falo provoca no homem deixa suas fantasias sexuais muito simplistas. Repare em quadrinhos eróticos e nas pornografias direcionadas ao público masculino: sempre retratam a mulher pirando no pênis, delirando pela genitália do parceiro. Junte isso à construção do arquétipo da mulher comedora e – pronto! – está inventada a mentira sexual pós-moderna.

Pode chegar a ser frustrante para o homem entender que sua parceira está mais preocupada com o jeito que ele a toca e a faz ter um orgasmo do que com seu pênis em si. Não que o pênis não seja uma fonte de prazer. Mas, definitiva e geralmente, para a mulher, ele não pode ser a única se ela quiser ter um orgasmo. É por isso que elas gostam tanto das tais preliminares.

Homem com homem, mulher com mulher

Avançando no tempo, talvez Freud não tivesse tido como comprovar o que, certamente, Giddens e todos nós já presenciamos. Se você tem casais de amigos gays ou lésbicas, repare em duas coisas.

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Nos gays, na tensão sexual constante que existe entre os dois, manifestada em brincadeiras de dar soquinhos, de falar besteira e de, inclusive, comentar sobre o pênis de outros homens. Eles estão sendo o que sempre foram: homens, com psique tipicamente masculina, de seres sexualmente vorazes. Nos casais de mulheres, a situação também remete à infância: repare no carinho que uma tem pela outra, na duração das relações (que tendem a ser mais longas) e no cuidado que existe entre as duas. Elas estão sendo 100% o que nasceram para ser: mulheres.

A moral da história é que até existe sim essa mulher tipo homem, que está mais focada no prazer concentrado no clitóris do que nas preliminares, que valoriza mais o trabalho, a vida social e a rotatividade de homens em sua cama do que o envolvimento afetivo, e que quer ampliar ao máximo a lista de caras com quem já esteve.

Ela pode sim estar por trás daquela loira linda que está aos berros na pista, bebendo, sacudindo o cabelo, rindo alto e despreocupada com o futuro a médio prazo. Ou pode ser somente uma ferramenta dela para atrair os homens, que vão pensar "Essa aí é desencanada" para, depois, ela dar o bote com seu objetivo natural e final.

Paquera no aeroporto

Depois dessa breve desmitificação do arquétipo da mulher-comedora, em minha última viagem ao Rio, encontro um camarada celebridade em Congonhas. Dentro do ônibus que leva passageiros para a aeronave na pista, eu avisava um outro amigo por telefone que tive de correr para o embarcar. Enquanto isso, o outro trocava ideia com uma mulher loira e linda.

Descemos. A loira deu tchau para ele porque embarcaria pela parte de trás do avião. Nós subíamos lentamente a escada da frente. Ele, digitando no celular, vira pra mim e fala: "Putz, a mulher chegou em mim, me passou o telefone... Estou aqui anotando e agora não lembro o nome dela... Como é que eu vou ligar?! Fail!".


publicado em 25 de Maio de 2010, 09:00
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Leonardo Moura

Leonardo Moura é o carioca mais paulistano que existe. Formado em jornalismo e administração, trabalha há mais de 10 anos em mídia eletrônica segmentada. É autor do livro "Como Escrever na Rede - Manual de Conteúdo e Redação para Internet" e do blog "O Mundo em 2 Dias".

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