Algumas reações imediatas após um final de namoro

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De repente do riso fez-se o pranto, silencioso e branco como a bruma, e como numa poesia bacana do Vinícius vocês não estão mais juntos.

Aquele relacionamento que você não imaginava como poderia acabar acabou – o que talvez queira dizer que a sua imaginação não é tão boa assim – e aquele amor que ia durar pra sempre chegou até o final. E claro, coisa engraçada, o final de “pra sempre” caiu logo numa quarta-feira acabando com qualquer chance de que você assistisse direito o futebol na TV.

Você está então recém-solteiro e quase sempre num lugar relativamente escuro da sua vida pessoal, seja qual for a razão ou contexto em que o relacionamento acabou – se ela terminou contigo pra ficar com outro cara esse lugar escuro pode ser uma leve depressão, enquanto que se você terminou com ela porque foi adotado pelo Hugh Hefner e agora mora na Mansão Playboy, esse lugar escuro é provavelmente uma boate onde você está bebendo tequila no umbigo de uma modelo costa-riquenha.

Homens adoram lugares escuros (a ambiguidade é por sua conta).

Da forma que for, existe sempre uma série tradicional de processos pelos quais você vai passar com o final do relacionamento, tenha ele terminado ou começado da forma que for, e que você deve conhecer para poder se localizar e não ficar surpreso com nada do que vai acontecer. Vamos aos cinco mais clássicos entre eles.

O dia que parece ter 36 horas

Como qualquer pessoa sabe, relacionamentos exigem tempo. Existem os programas em conjunto, existem as visitas aos pais e as viagens de final de semana, existe o teatro, existem os dias em que você fica por conta dela, os dias em que ela fica por conta de você e por aí vai, em toda aquela coisa part-time lover and full time friend que a Ellen Page e o Michael Cera tocaram no violão até que... bem, até que acaba. E aí as coisas podem ficar um pouco esquisitas.

Afinal, o seu tempo livre diário subitamente aumentou um bocado, como se seu dia tivesse do nada ganho mais horas, e como você não se lembra de ter combinado nenhum redução de jornada com o seu chefe e aquela visita rápida ao site da NASA confirmou que a rotação da Terra continua igual, esse evento só pode ter alguma relação direta com o final do seu namoro e o tempo que você deixou de passar com ela, que agora está sobrando no seu relógio e no seu cronograma mental.

O artesanato como opção pra ocupar as horas ociosas.

Não ter mais que se encontrar antes de ir ao cinema, buscar alguém em casa, almoçar com a família dela no domingo, fazer programas de casal na quinta à noite, atender telefonemas de madrugada porque ela teve um pesadelo esquisito, sair pra comprar coisas com o cunhado, levar a priminha pra ver Toy Story 3 e ter que fingir que não chorou no final (“Ah, foi só um... cisco... que caiu no meu olho quando Andy foi entregar os brinquedos...”), são alterações no seu calendário que adicionam horas que você nem notava que gastava – exceto no caso dos almoços, no qual você contava cada segundo – e que te dão a clara sensação de que agora existem horas sobrando com as quais você não sabe exatamente o que fazer.

O que, é claro, seria dramático, se a gente não conseguisse rapidamente suprir isso com atividades lúdicas como o pôquer, o futebol de meio de semana, mais cervejas com os amigos e a ressaca de domingo de manhã, enquanto assiste o campeonato italiano na televisão.

A necessidade de comer todo mundo

E você durante alguns anos foi um cara monogâmico, correto e fiel. Aquela colega de trabalho se insinuava e você desencorajava de forma educada e sutil qualquer aproximação, aquela ex te ligava em tom de flashback e você dizia que agora estava comprometido, aquela garota na festa mexia contigo e você apenas sorria e acenava, como um pingüim de Madagascar, tudo porque gostava da sua namorada, se sentia feliz com ela, e não queria colocar tudo a perder.

Mas aí ela sai de cena e o senhor, que era pacato como um coelho felpudo num quintal de casa do subúrbio, subitamente se torna uma versão mais alucinada do diabo da tasmânia no cio. Colegas, amigas, vizinhas, desconhecidas, ascensoristas, entregadoras, garçonetes, avós de amigos, ninguém está a salvo. O que, bem, é relativamente natural. Fora a parte das avós, que é meio estranha, mas não vamos te criticar, relaxa.

"Se eu não voltar em três dias espere mais três, por favor."

Primeiro porque organicamente a transição de “Faço sexo várias vezes por semana sem problemas” para “Faço sexo quando tenho alguma oportunidade” pode ser meio traumática – quando você namorava vocês faziam sexo na pia, agora você está solteiro e a pia serve pra... bem... pra essas coisas de pia – e você vai querer lutar pra manter o padrão anteriormente estabelecido de atividade sexual, uma causa que pode ser mais ou menos complicada, dependendo da habilidade de cada um nesse mundo além da cúpula do trovão que é a vida de solteiro.

E depois porque quando você ficar solteiro você vai querer saber o que poderia ter rolado em cada uma das oportunidades que não aproveitou, assim como vai querer aproveitar todo o tipo de oportunidade que puder, já que vai estar um tanto quando deslumbrado com a idéia de poder sair com qualquer garota que der na telha – e que topar, não vamos coagir ninguém, amigos – sem estar fazendo algo de errado, merecendo algum tipo de reprovação moral ou tendo que dizer que seu nome é Nelson, você está na cidade só a passeio e trabalha como corretor de imóveis em Manaus, mas não tem sotaque porque seus pais são cariocas. Não que eu vá mencionar nomes de amigos aqui, claro.

A vontade de voltar

Uma outra constante no período imediato ao final de namoro é que sempre vai passar pela sua cabeça pedir pra voltar. Quer o final tenha sido causado pelo desgaste natural de qualquer relação e vocês tenham terminado de forma amigável, quer ele tenha sido causado pelo péssimo hábito dela de participar de orgias com times inteiros de flag football sem te avisar e vocês tenham terminado com dois amigos seus te segurando pra você não fazer com que ela engolisse aquela aliança de noivado, vai ter sempre um lado da sua cabeça que vai ficar repetindo, de forma constante e insistente, um “Ei, você não acha que deveria voltar? Pode ser bacana, cara!”.

Claro, não é o lado mais esperto da sua mente e muito provavelmente é a mesma parte do seu cérebro que te orienta a fazer coisas como andar de bicicleta gritando “Sem as mããããoooos!” ou colocar tequila na boca e atear fogo, mas bem, ele está lá, e ele está falando contigo.

Isso porque nessa fase inicial sempre que você se sentir sozinho, tiver um dia ruim, torcer a perna e ficar engessado em casa, sair com casais de amigos ou apenas beber demais e tiver um celular a mão, simplesmente vão sumir da sua cabeça todas aquelas 678 razões que vocês tiveram pra terminar, voltando à sua mente apenas coisas como o jeito como ela sorria, a forma como ela se espreguiçava de manhã ou aquela coisa com a pernas que ela fazia e nenhuma outra garota parece conseguir fazer – e olha que você já tentou explicar com um desenho.

E você não sabe de onde tiraram que ela era tão má e controladora assim...

Mas isso, é claro, passa. Porque se vocês terminaram existe alguma razão e se você ligar, mandar uma mensagem ou realmente tomar a decisão voltar, é muito provável que rapidamente acabe se lembrando dessa razão, quase sempre quando menos espera, e se vendo de novo dentro de algo do qual você lutou pra sair – ainda que, ok, aquele lance das pernas realmente seja impressionante e tenha deixado saudades. Ou seja, nessas horas apenas respire fundo, segure sua onda e ligue pra outra garota ou apenas vá pra frente do Xbox e mate zumbis até a vontade passar.

A busca pelo tempo perdido

Assim como acontece na sua vida sexual, com a necessidade de compensar um período de monogamia com um período de promiscuidade freestyle unlimited estilo Pride 22 valendo atacar enquanto o juiz está distraído, na sua vida pessoal você também vai se sentir estimulado a suprir com um certo grau de exagero qualquer ausência social que você tenha tido durante o período em que namorava e muito possivelmente vai ser só nesse momento que você vai entender o efeito que o seu relacionamento teve no resto da sua vida pessoal.

Isso porque se você nunca deixou de estar próximo dos seus amigos e conseguiu conciliar de forma saudável namorada e rapaziada, você vai ser muito provavelmente recebido de braços abertos com a amizade e as cervejas que sempre são reservadas a todos os guerreiros que lutaram o bom combate, além de uma ou duas frases do tipo “Ah, mas você arruma outra mais gostosa” e “Nunca gostamos dela mesmo, na boa”.

Ao passo que se você tiver se distanciado ou perdido contato com os seus amigos, os seus telefonemas chamando pra beber aquele chopp maroto ou saber se ainda tem vaga naquela pelada de sábado no Boqueirão vão ser atendidos com um misto de descaso e sarcasmo que vai lembrar muito o Ricky Gervais apresentando o Globo de Ouro e tende a não te deixar tão feliz.

“Calma, é só uma festinha leve com uns amigos, pra compensar o tempo perdido, sabe?”

Ou seja, quando você estiver recém-solteiro e na sua cabeça todos os dias da semana forem dias de bar – exceto a quinta, que é dia de boate de strip – é bom se certificar de ainda ter seus amigos por perto, porque essa coisa de ver as garotas no pole dance sozinho pode acabar ficando meio deprimente depois de um certo tempo. Não que eu saiba do que eu estou falando, claro.

A desconfiança

Como todas aquelas sábias avós diziam, enquanto faziam bolinhos de chuva e reclamavam dessas atrizes da televisão que usam roupas curtas demais, “Gato escaldado tem medo de água fria”. E ainda que isso não se aplique literalmente na nossa vida com muita freqüência – eu mesmo nunca tentei escaldar um gato e depois enfiar ele num balde gelado pra ver o grau de ansiedade gerado no animal – ela várias vezes descreve um pouco o grau de desconfiança que surge na vida de um cara após um final de relacionamento.

Afinal, você teve um relacionamento sério, estável e, mesmo fazendo seu máximo de esforço ele, por razões que não convém listar – não quero ver ninguém chorando aqui – acabou não dando certo. Isso torna, é claro, perfeitamente compreensível que você não esteja exatamente ansioso para entrar em outro relacionamento já na semana seguinte, antes mesmo que a sua ex busque as coisas dela na sua casa e seus amigos tenham tempo de trocar aquelas fotos envolvendo vocês que ainda ficaram no Facebook.

Afinal, todo mundo precisa de um tempo pra processar os fatos, entender direito o que aconteceu e lembrar quem comprou aquele vinil do Bob Dylan que os dois juram que já tinham no começo do namoro.

Funciona para o George Clooney. Pode não funcionar pra você.

Mas ao mesmo tempo que é saudável tentar não se envolver de novo logo depois de um término – o famoso “relacionamento rebote” – também não costuma fazer muito bem deixar que esse período de resguardo emocional se prolongue demais e continuar usando um relacionamento que não deu certo como desculpa pra não se envolver, gerando situações como aquela em que a garota pergunta porque você não quer namorar e você fala um “Ah, estou vindo de um relacionamento longo e complicado”, sendo que você está solteiro desde 2005.


publicado em 03 de Fevereiro de 2011, 12:00
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João Baldi Jr.

João Baldi Jr. é jornalista. Turn ons: quadrinhos, ficção científica, humor de borda e pão de fôrma com requeijão. Escreve no (www.justwrapped.me/) e discute diariamente os grandes temas - pagode, flamengo, geopolítica contemporânea e modernidade líquida. No Twitter, é o (@joaoluisjr)

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