Carros antigos, meu Puma GTS 1978 e os Antigomobilistas

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Desde criança fui apaixonado por automóveis. Quando adolescente já comecei a reunir economias para comprar meu primeiro carro aos 18 anos (comprei aos 17 dividindo a conta com um irmão de 15).

Após muito tempo dirigindo, o meu prazer em estar atrás do volante só aumentava. Como quase todos os meninos que crescem sempre admirei os velozes esportivos concebidos para engolir curvas desde o rascunho de projeto.

Além do mais, acredito que há mais de duas décadas não se comercializa um puro-sangue no Brasil por menos de duas centenas de milhares de reais. Os atuais “esportivos” nacionais recebem bancos e cintos de segurança coloridos, painel diferenciado e pintura extravagante. “Bólidos contemporâneos”!

Invejo a geração de nossos pais que, de camarote, assistiam às montadoras nacionais degladiando-se pelas vendas ao consumidor dos mesmos esportivos que corriam nas pistas: Opala SS, Maverick GT, Puma GTB, Dodge Charger R/T, dentre tantos outros. Recentemente, em uma crise impulsiva decidi não mais adiar meu sonho: comprei uma Puma GTS 1978 conversível.

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Você se apaixona sem perceber

O início da empreitada nada mais era do que o desejo de satisfazer mais um capricho de um menino grande. Mal sabia eu, que esse era um caminho sem volta.

30 anos e muita restauração à frente

Como era de se esperar de um carro com praticamente 30 anos de idade, o meu não chegou nas melhores condições de preservação. Isso não seria um problema já que meu carro de fim de semana não era nada além de um simples capricho.

Entretanto, já me preparando para traçar a estratégia da reforma que deveria durar dois, três anos, ou tanto tempo quanto fosse necessário, resolvi sair à caça do orçamento de todas as peças e serviços que iria precisar. Aí é que começou o problema.

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A fera: o Puma GTS 1978 em toda sua glória

Encontrar documentação e informações diversas sobre um automóvel fora-de-série com 30 anos de idade, descontinuado há 27 e cuja fábrica encerrou suas atividades há 15, tornou-se uma peregrinação em tanto.

Após algum tempo de pesquisas, finalmente aprendi que o conhecimento sobre essas esquecidas raridades mais está na cabeça de seus entusiastas do que em qualquer outro lugar. Comecei a freqüentar encontros de apreciadores e colecionadores de automóveis antigos, os antigomobilistas.

Antigomobilistas?

Aprendi muita coisa em pouco tempo. Descobri, por exemplo, que o preço dos automóveis antigos não respeita tabela FIPE alguma, é totalmente subjetivo. O antigomobilismo é um mercado muito grande que movimenta dinheiro não só com a venda e restauração de antigos, mas também com a comercialização de peças e serviços.

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Jeep 1942 Recuperado por Herr von Tullius, antigomobilista da Regional de Volta Redonda. Foto de Hudson Biazuti.

Conheci proprietários com 3 ou 4 antigos com mais de 20 anos de idade, outros com mais de 30 carros! Pouco a pouco, comecei a me envolver e participar de encontros mensais, semanais, em outras cidades, com gente nova, com gente de idade e até com mulheres!

Ao longo do tempo comecei a descobrir vários esportivos nacionais fantásticos tais como Willys Interlagos, Bianco S, Lorena GT e muitos outros. Cada vez que ia à um encontro notava aquele novo acessório do Simca da semana passada, o término da pintura daquele Miura que vi em uma das viagens do grupo, os novos bancos do SP2 daquele rapaz que comprara seu primeiro antigo no último encontro...

Contudo, o que realmente impressionava, era a felicidade dos proprietários que apresentavam a restauração de seus antigos finalizadas. Era fantástico ver com os meus próprios olhos muitos daqueles automóveis que por tanto tempo admirei nas fotos, livros e revistas brilhando como 0 Km e com um motor mais saudável que muito popular de hoje.

Eu também queria meu antigo assim

Com a indicação de um colecionador aqui, outro antigomobilista ali, acabei entrando na comunidade da restauração. Uso essa palavra para denotar a impressionante sensação de que todos nós nos conhecemos onde quer que estejamos no Brasil (Salve a Internet!). Encontrei uma peça aqui mesmo em Porto Alegre, outra em Campinas, várias em São Paulo e mais uma meia dúzia em Volta Redonda.

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Dá prazer só de olhar para o seu antigo

Levei o motor para um mecânico, minha suspensão para outro, os freios para um terceiro. Entendi como funcionam os pivôs do meu amortecedor, descobri que meus pesados freios a disco não são servo-assistidos e vi os giclês do meu carburador trabalhando.

Aos poucos fui conhecendo cada parafuso do meu antigo e em determinado momento já era capaz de ouvir o que meu carro me dizia com aquele barulho, aquela reação ao acelerador, aquela balançada da suspensão ou com o início do segundo estágio do carburador. Sim, meu carro antigo conversa comigo. Meu carro “moderno” não.

Na verdade, pessoas que nem conheço me abordam na na rua para falarem do meu carro. São os meninos que elogiaram no semáforo, foi o senhor no posto de combustível que mencionou ter tido um da mesma cor quando era jovem, ou a loira desconhecida que pediu uma carona na saída da festa! Tive que me desculpar com ela já que meu carro comporta apenas dois passageiros e o carona, minha namorada, estava por chegar.

Nem tudo são flores

Numa fatídica tarde de domingo aquela nova relação de amor sofreu seu primeiro abalo. Avenida larga, cheia de veículos apressados, sol à pino e carburador engasgando. “Estou perdendo pressão na linha de combustível”, pensava. O carro parou.

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Painel do Chevrolet Corvette. Não é qualquer um que entende.

Pela primeira vez, minha nova paixão me deixava na mão. A situação não poderia ser pior já que a pane aconteceu na pista central durante um momento de tráfego intenso. Isso nunca havia acontecido antes com meu outro carro de apenas alguns meses de vida, logo, fiquei muito tenso aguardando as buzinadas e as ofensas gratuitas dirigidas à senhora minha mãe.

Liguei o pisca alerta e, para minha total surpresa, os motoristas a minha direita pararam no meio do trânsito abrindo espaço para que eu pudesse cruzar a avenida. Os motoristas que vinham atrás, educadamente, desviavam daquele enfermo conversível pela pista da esquerda muitas vezes expressando um gesto compadecido de apoio diante daquela triste cena. Da calçada, dois pedestres surgiram me auxiliando a empurrar o carro para o acostamento. Fiquei emocionado.

A ferramenta que todo homem deve ter consigo

Abri a tampa do compartimento do motor e saquei do bolso a minha única esperança: um canivete suíço. Balancei o filtro de combustível antes da saída do carburador e vi que estava sem gasolina. Abri o carburador com a chave Philips embutida no canivete e utilizei a cabeça do abridor de latas como chave de fenda.

Motor funcionando, forcei o vácuo dentro da cuba com a mão o que gerou uma pressão grande nas mangueiras de combustível e zupt! Descolou dos meus venturis uma partícula do meu tanque de combustível de 30 anos de idade em processo de desintegração. Consertado.

Se você entende de mecânica deve estar pensando que era um problema muito simples. Contudo, há pouco tempo atrás se a injeção eletrônica do meu outro carro falhasse tudo o que eu faria seria ligar o pisca alerta, telefonar para o seguro, esperar o guincho transportar o carro para a concessionária e preencher o cheque na segunda-feira.

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O primeiro conserto na beira de estrada não se esquece

Eu estava me sentindo um super-herói! Percebi que eu já estava infectado pelo antigomobilismo quando após voltar da garagem minha namorada comentou que eu estava cheirando a gasolina. Eu sorri feliz.

Hoje, já não olho mais para meu carro novo, caríssimo, completo, com 7000 Km rodados e cheirinho de novo com os mesmos olhos. Penso nas peças que preciso comprar para a minha Puma, na data em que farei a pintura geral, no dia em que poderei guiá-la 2000 KMs até o encontro nacional do clube, tal como muitos membros fazem.

Aliás, já penso no dia em que o processo de restauração se encerrará, quando sairei na busca do próximo antigo que pretendo restaurar. Só agora, depois de tudo isso, sou capaz de entender o por quê dos antigomobilistas comparecerem religiosamente todo início de mês nos encontros de entusiastas.

Todos eles sempre chegam dirigindo com um enorme sorriso no rosto.


publicado em 26 de Novembro de 2007, 18:27
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Rodrigo Almeida

Engenheiro, apaixonado pela vida e por qualquer coisa com um motor potente, nostálgico entusiasta de muitas daquelas boas coisas que já não mais se fazem como antigamente.

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