Como preservar o meio-ambiente sem frescuras - Parte III: O Paradigma do Consumo

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3º MANDAMENTO: A filosofia dos três “Rs”

O terceiro artigo da série “Como preservar o meio ambiente sem frescuras” está sendo publicado numa data especial.

Hoje é um Blog Action Day, um dia em que todosos blogsdo mundoestão convidados a publicar um texto relativo a um assunto específico. A bola da vez é o meio ambiente.

Como hoje é um dia especial, nosso artigo também o será. O que havia sido planejado para fechar a série por ser um texto que trata de questões relativas à mudança de conceitos e hábitos, será apresentado hoje, afinal, é um dia único!

latinha
Você sabe o que fazer com isso?

O assunto está intimamente relacionado ao tema segregação do lixo, mas sob um olhar mais profundo, negando certos conceitos que temos como ideais e propondo metas a longo prazo. Diz respeito aos nossos padrões de consumo e aos nossos valores sociais, pois devemos começar a refletir sobre o desejo de incluir os excluídos no esquema de consumo como o consideramos ideal visando o nosso conforto.

Dizem por aí que se todo ser humano adulto e habilitado a dirigir tivesse um carro, estaríamos perdidos, pois o planeta não “suportaria” a quantidade de gases emitidas, a oferta de combustível jamais atingiria quantidades suficientes e as vias urbanas jamais suportariam o fluxo de veículos.

Philippe Pomier Layrargues, conclui em seu artigo O Cinismo da Reciclagem, que “numa sociedade materialista e devotada à cultura do consumismo, a frugalidade rima com sacrifício, privação, renúncia, já que a posse de bens materiais caracteriza a felicidade proporcionada pelo consumo”. São esse valores encravados no nosso estilo de vida, que devemos começar a questionar... “sem dor” ou grandes sacrifícios...apenas iniciar um pensamento...

Eu não costumo gostar muito de frases prontas, ditados populares, dogmas, etc. Mas tenho que concordar que as vezes certos “chavões” nos ajudam a lembrar das coisas. É o caso dos 3Rs: Reduzir, Reutilizar e Reciclar. Para quem trabalha na área ambiental a expressão 3Rs é sim um chavão, mas se você nunca ouviu falar deles, é com muito prazer que eu apresento a salvação (qualquer semelhança com discursos religiosos é mera coincidência)! Essa linha de pensamento é a nossa oportunidade de modificar nossos hábitos de consumo e nossa produção irracional e absurda de lixo.

Preste muita atenção nisso, pois no dia em que as coisas funcionarem assim, estaremos no caminho certo: Essa deve ser a meta e nessa ordem: Reduzir, Reutilizar e Reciclar . Isso mesmo, reciclar deveria ser a ÚLTIMA alternativa. Não fique decepcionado. Eu sei que criou-se um cenário ao redor da reciclagem que faz com que a tenhamos como a solução dos nossos problemas com relação aos resíduos, mas liberte-se dessa crença e vamos começar a pensar mais racionalmente.

Pensando RACIONALMENTE

“Racional”, significa usar da razão ou raciocinar, habilidade essa privilégio dos seres humanos (apesar de alguns ainda não a utilizarem). “Racionalizar” significa tornar racional (matemáticos: por favor sem piadas), ou tornar processos mais eficientes. Com relação aos resíduos domésticos, que são um grande “abacaxi” para qualquer administração pública, o que há de mais racional além de não produzí-los? Absolutamente NADA.

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Só separar o lixo não resolve

REDUZIR

No entanto é impossível não produzir nenhum tipo de lixo e dessa forma o que é possível é tentar produzí-lo nas mínimas quantidades possíveis, ou seja, REDUZIR a produção.

Existe um exemplo clássico para ilustrar esse primeiro e mais importante “R”. Você já reparou a quantidade de embalagem utilizada numa camisa social masculina? Vamos supor que você vai comprar uma camisa. Chegando na loja, você escolhe modelo, tamanho, estilo...enfim, escolhe o produto. A camisa que você está levando vem com uma lâmina de papelão para mantê-la alinhada enquanto dobrada, uma tira de plástico na gola e alfinetes por todos os lados para mantê-la quase em pé e pequenas peças plásticas nas mangas e ponta das golas.

Acabou? Não. Tudo isso é envolto num belo papel de seda. Todo o conjunto é envolto num plástico e tudo isso finalmente é colocado dentro de uma caixa. Acabou? Ainda não. Embrulha-se tudo com papel de presente, coloca-se um belo laço vermelho e tudo isso dentro de uma sacola plástica. Agora acabou.

Assim ocorre com diversos tipos de produtos, nos quais a quantidade de embalagens é assustadora e gera uma quantidade de lixo realmente desnecessária.

REUTILIZAR

Quando não dá pra reduzir, na ordem da racionalidade das coisas devemos tentar REUTILIZAR. Seja o copo de requeijão ou a embalagem retornável de refrigerante, ambientalmente reutilizar é muito melhor do que reciclar.

O exemplo clássico é o extermínio das embalagens retornáveis.

O que acontece na verdade é que é muito mais prático e barato para as empresas utilizarem as embalagens descartáveis em detrimento das retornáveis e o marketing acaba vendendo essas coisas para as pessoas como “modernidades”. Dessa forma, garrafas de vidro ou de plástico retornáveis tornam-se aos nossos olhos sinônimos de tecnologias ultrapassadas e nos vemos seduzidos a adquirir sempre embalagens descartáveis, que na verdade muitas vezes nem cabem direito nas nossas geladeiras, são desajeitadas e muito espaçosas.

Em compensação, “alguém” deixou de gastar com o transporte e a limpeza das embalagens caso fossem retornáveis e o lucro “dele” aumenta consideravelmente. Bom pra esse “alguém”, pois o mico do lixo quem pagará são os consumidores, ou seja, nós, os cidadãos comuns...a não ser que você seja o tal “alguém”. Meu pai sempre disse uma frase que sintetiza essa situação: “Capitaliza-se o bônus e socializa-se o ônus”, ou seja, criam-se meios para pouquíssimos lucrarem muito mais, mas o preço ambiental ou social disso é enorme e quem paga esse preço somos todos nós.

Pense a respeito. Veja se consegue se sentir confortável sabendo que a grana que você paga como contribuinte está sendo gasta em demasia na limpeza pública e na gestão do lixo que é produzido em excesso para poucos lucrarem mais... se conseguir, parabéns! Acho que acabamos de encontrar o papai noel.

RECICLAR

Finalmente o terceiro, último e mais polêmico “R”. Tocar nesses assuntos é quase como mexer em vespeiro, mas vamos lá, afinal via web não dá pra receber socos, pontapés, tomates, vaias e afins.

Deve-se tomar muito cuidado com o discurso atual sobre a reciclagem, pois ele não é real. Quando se trata de lixo, apresenta-se a reciclagem como a melhor maneira de “proteger a natureza”, entretanto essa não é a realidade.

Na verdade, reciclar atende outros interesses que vão muito além da conservação dos recursos ambientais. Trata-se mais de uma questão técnica e econômica do que uma questão socioambiental como defendem por aí. Reciclar costuma ser muito mais vantajoso para as indústrias do que reduzir ou reutilizar produtos.

Analisemos o caso das latinhas de alumínio como exemplo: Segundo a Associação Brasileira do Alumínio – ABAL, em 2006 o Brasil reciclou 94,4% das latas de alumínios produzidas, o que nos torna pela quinta vez consecutiva líder mundial nesse segmento. Isso é muito bonito, mas o discurso ambiental que se faz por trás é que é muito hipócrita. Na verdade, a razão para os índices altos é puramente econômica a favor da indústria do alumínio.

Reduz-se muito o custo das produtoras de latas, reciclá-las ao invés de produzí-las. Para reciclar uma latinha de alumínio, gasta-se apenas 5% da energia que se gastaria ao fabricar o alumínio primário a partir do minério de origem, a bauxita. 95% de economia energética parece ser bom para o bolso...

Talvez você esteja me achando um chato e se perguntando “qual o problema disso, uma vez que é bom para o meio ambiente e bom para o empreendedor?”. O problema é que provavelmente não reciclar as latas e partir para outros tipos de embalagens retornáveis é muito melhor ambientalmente e economicamente para a sociedade como um todo. Se a intenção em “preservar a natureza” é verdadeira por parte das indústrias, porque os índices incríveis de reciclagem não se repetem para o caso do papel e papelão ou para o PET?

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Engraçado, o papel não faz tanto sucesso quando o assunto é reciclagem...

No caso dos papéis, segundo o CEMPRE reciclou-se em 2005 apenas 46,9% da produção. Porque isso acontece se a reciclagem desse material é muito mais fácil e barata? Será que a tal “consciência ecológica” é maior para a preservação da bauxita do que a das árvores? No caso do PET, reciclou-se pífios 47%. Os outros 53% estão lotando os aterros sanitários, poluindo os cursos d'água ou entupindo as galerias de águas pluviais. Quem paga o concerto disso somos nós e não os produtores das embalagens.

E então? O que fazer?

Percebe-se nessas questões que existem interesses difusos em relação à reciclagem, pois passam longe das melhores intensões ao meio ambiente. Devemos prestar muita atenção no que nos é passado pela propaganda ou pelos discursos que dignificam a reciclagem, pois estes podem criar um efeito ilusório, tranqüilizante na consciência dos indivíduos, que podem passar a consumir mais produtos, sobretudo descartáveis, sem constrangimento algum, pois agora são recicláveis e, portanto, ecológicos.

Esse raciocínio não está correto, pois como eu disse certa vez em outro post, isso me parece muito com o mal do cristão pecador: depois vai se confessar e fica com a consciência tranquila. No fundo o que ele fez não mudou em nada, mas a ilusão do perdão faz bem para a pessoa, o que a faz pecar de novo...afinal é só pedir perdão mesmo...

Isso não significa que deve-se deixar de reciclar os materiais, mas sim que deve-se utilizar da reciclagem somente quando não é possível REDUZIR ou REUTILIZAR os resíduos. A energia gasta na reciclagem de materiais precisa mesmo ser gasta? Será que utilizando embalagens retornáveis o ganho ambiental e conseqüentemente econômico à sociedade a longo prazo não será bem maior?

A reciclagem é uma ótima ferramenta, mas não pode ser a primeira alternativa e muito menos a única. Na verdade, digamos que nossos critérios estão “descalibrados”. Devemos ter em mente que muitas vezes a moda e a propaganda provocam uma deformação das funções primárias dos produtos e fazem com que consumamos sem raciocinar.

Nesse contexto, um grande exemplo disso são os celulares. Um telefone celular não é somente um telefone celular. É um símbolo de status e de satisfação pessoal, pois muitas vezes troca-se de aparelho apenas para satisfazer a necessidade de consumir o novo, o “mais moderno”. O receio de ficar ultrapassado faz com que o indivíduo consuma as novidades de forma compulsiva e espontânea sem raciocinar sobre a sua real necessidade.

Depende unicamente de nós as mudanças culturais, basta começarmos a incorporar ao nosso dia-a-dia essa filosofia dos 3Rs. Apenas sair da inércia que as incríveis técnicas de marketing proporcionam e iniciar um pensamento bem racionalizado sobre os produtos que nos rodeiam e dos quais necessitamos.

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A gente preserva. As gerações futuras agradecem.

Coisas pequenas podem iniciar as mudanças: ao comprar algo, recusar sacolas plásticas quando não há necessidade, não imprimir documentos desnecessários, preferir embalagens retornáveis ao invés das descartáveis, usar copos ou canecas no escritório ao invés dos copinhos plásticos, utilizar suas próprias sacolas no supermercado, pensar duas vezes sobre a necessidade de substituição de produtos que estão lhe satisfazendo perfeitamente, etc.

O importante é sempre analisar se existe a possibilidade de nessa ordem, reduzir a geração de lixo, reutilizar o produto ou embalagem e por fim reciclar esse resíduo. Se você quer ir além (o que seria muito desejável), lhe digo que o verdadeiro cidadão não é aquele que apenas escolhe consumir produtos recicláveis ou se engajar em programas de reciclagem.

O verdadeiro cidadão é aquele que cobra do Poder Público, por meio da coletividade (leia-se: opinião pública), que aniquile de vez com essa cultura da obsolescência de produtos planejada e também a descartabilidade das coisas.

E aí? Vamos tentar mudar nossos conceitos? Essa frase pode parecer meio “brega” mas é real: NOSSOS FILHOS E NETOS AGRADECEM.

Até a próxima!

Pra quem perdeu o primeiro mandamento: Separe o Lixo
Pra quem perdeu o segundo mandamento: Utilize o álcool combustível

Thiago Oshiro Campi é Engenheiro Civil formado pela UNICAMP, atualmente a serviço do Governo do Estado de São Paulo, atuando na área ambiental. Além disso é guitarrista de carteirinha com Heavy Metal nas veias.


publicado em 15 de Outubro de 2007, 14:34
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Thiago Oshiro Campi

Thiago Oshiro Campi é Engenheiro Civil formado pela UNICAMP, atualmente a serviço do Governo do Estado de São Paulo, atuando na área ambiental. Além disso é guitarrista de carteirinha com Heavy Metal nas veias.

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