Como preservar o Meio Ambiente sem frescuras - Parte I: Separe o Lixo

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Há algumas semanas venho acompanhando diariamente o conteúdo publicado na PapodeHomem.

Desde a primeira leitura, a cada dia que passou fico mais envolvido com todos os assuntos abordados na revista. Então resolvi contribuir com o que posso para esse meio de informação e comunicação incrível que são os blogs.

Com muita satisfação, este é meu primeiro artigo para a PdH. Minha contribuição será relativa às questões ambientais... e aqui vem uma primeira ressalva: Se você espera ler palavras de ordem do tipo “salve as baleias, o mico-leão-dourado ou os gnus de Botsuana”, pode esquecer.

Claro que são questões importantes, entretanto, quando falamos em “Meio Ambiente” nos referimos a um assunto extremamente complexo e que envolve simplesmente toda a gama de profissionais existentes no planeta.

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Se você acha que meio ambiente é só a "natureza intocada", está muito mal-informado

Hoje apresentarei a vocês um artigo escrito sob o foco de um Engenheiro Civil, que atua na área ambiental, nascido e “vivido” numa grande metrópole. Um “urbanóide” por assim dizer. Essa é a primeira coisa que deve ser entendida: Quando falamos em meio ambiente estamos falando do ambiente em que vivemos e da nossa realidade, no meu caso, a metrópole.

Não faz sentido discutir sobre a floresta amazônica ou o arquipélago de Fernando de Noronha, pois antes de pensar em ajudar lá, a gente precisa se resolver na nossa própria casa, que por incrível que pareça, geralmente precisa de mais cuidados do que estes locais “abençoados” que ainda possuem um certo equilíbrio.

Pretendo esclarecer alguns conceitos e quem sabe quebrar certos dogmas relativos ao assunto em uma série de 10 artigos abordando o que eu e você podemos fazer pelo meio ambiente. Antes de iniciar essa série, vale a pena esclarecer mais duas coisas:

O que é um Engenheiro?

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Funcionou? O crédito é nosso

Em linhas gerais é um cara que “faz a coisa funcionar” (apesar de eu conhecer muitos que sempre enfiam os pés pelas mãos... ossos do ofício). Dessa forma, teoricamente (e modéstia a parte) é um cara extremamente prático e criativo, que se mune dos conhecimentos e descobertas das ciências básicas (física, química, biologia, matemática, etc.) para resolver problemas reais e elaborar projetos funcionais.

Daí que vem a velha rixa entre engenheiros e arquitetos ou outros profissionais das ciências humanas. O que na minha opinião é uma tremenda bobagem, uma vez que ser engenheiro não deveria significar ser ortodoxo ou “quadradão” e sim “fazer a coisa funcionar”, não importa o quão complexa ou “viajada” ela seja. Infelizmente muitos de nós, engenheiros, seguem essa linha nerd, mas cada vez mais as novas cabeças que vão se formando estão conseguindo trabalhar com a multidisciplinaridade nas questões ambientais. Em outras palavras, é preciso ter o tal jogo-de-cintura.

O que diabos é meio ambiente?

Uma professora que tive na faculdade dizia que “não devemos proteger o meio ambiente e sim o ambiente por inteiro”. Trocadilho no mínimo estúpido, afinal “meio” não é no sentido fracionário e sim no sentido de grupo ou esfera.

Na verdade, “meio ambiente” pode até ser uma redundância, afinal as palavras “meio” e “ambiente” são sinônimas nesse sentido. De qualquer forma, o termo é utilizado para simplificar as coisas, pois, organizacionalmente, existe o Meio Antrópico (relativo ao homem), o Meio Biótico (relativo aos outros seres vivos) e o Meio Físico (relativo às características físicas de um local), sendo que o Meio Ambiente engloba os três “meios” anteriores.

Esclarecidos os conceitos básicos, vamos dar início à série.

1º MANDAMENTO: SEPARE O LIXO

O simples ato de jogar fora alguma coisa não é tão banal. Tal ato acarreta uma série de consequências benéficas ou maléficas dependendo da atenção que damos quando “jogamos fora”. Quando deixamos nosso lixo na porta de casa, inconscientemente assumimos que ali é o fim de tudo. Como se o caminhão de coleta o levasse para um buraco negro na via láctea e o lixo simplesmente desaparecesse. Não é bem assim que funciona. Aliás, é bem diferente.

Cerca de 40% a 50% (em massa) do lixo doméstico produzido nas grandes cidades é constituído por materiais recicláveis. Claro que isso é uma simplificação grosseira, uma vez que a característica do lixo doméstico varia de cidade para cidade, faixa de renda e condição sócio-cultural. Mas de qualquer forma, essa aproximação pode ser feita.

A destinação final dos resíduos no Brasil não é das melhores. Na maioria dos casos a disposição é feita nos chamados lixões, que nada mais são do que grandes áreas onde se coloca o lixo e às vezes cobre-se com uma pequena camada de terra.

Lixões são verdadeiros “cânceres urbanos”, pois aos poucos vão degradando tudo ao seu redor. São cenários que atraem vetores de doenças (humanos, insetos, ratos e outros animais), poluem o ar, o solo, águas subterrâneas e superficiais, além do péssimo impacto visual, que invariavelmente desvalorizará terrenos e atrairá toda espécie de gente miserável que tentará sobreviver catando restos no meio do lixo. Atividade extremamente perigosa.

Lixão x Aterro Sanitário

A alternativa a isso comumente utilizada é a disposição em aterros sanitários. Geralmente as pessoas se referem a todos os locais onde se dispõe o lixo como “lixão”, mas há uma diferença gigantesca entre um lixão e um aterro sanitário.

Basicamente, um aterro sanitário é um empreendimento dotado de impermeabilização do solo, compactação dos resíduos dispostos, drenagem e tratamento dos efluentes e gases gerados, dispositivos de proteção ambiental que impossibilitem a contaminação da região e permitem o monitoramento ambiental, além de vigilância e cercamento.

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Isso é um lixão

Existem outras tecnologias para disposição de resíduos domésticos utilizadas na Europa, Ásia e América do Norte, entretanto de elevado custo e muitas vezes de difícil aplicação no Brasil devido às condições climáticas. Não quero discutir sobre esse assunto, pois é extremamente polêmico no meio. Fica para uma outra vez.

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Isso é um aterro sanitário

Vamos supor que todos os habitantes de uma cidade separassem o seu lixo reciclável do não-reciclável. Se o aterro sanitário dessa cidade foi projetado para durar 15 anos, se houvesse a separação e os resíduos recicláveis deixassem de ir para o aterro, a vida útil deste no mínimo dobraria para 30 anos, pois os resíduos recicláveis são, além de tudo, mais volumosos e de difícil compactação no aterro sanitário.

Quanto antes um aterro sanitário se esgotar, pior é para as prefeituras e para a sociedade em geral, pois o lixo tem de ser levado para aterros cada vez mais distantes e os custos com transporte oneram absurdamente o serviço de limpeza pública. É uma bola de neve. Se o custo com limpeza pública aumenta, de algum lugar o dinheiro será retirado para bancar esse prejuízo.

Não entrarei no mérito da arrecadação das prefeituras, pois não é o mote da nossa discussão, mas de algum lugar a verba será desviada para a limpeza pública, pois é uma questão prioritária de saneamento... de onde você prefere tirar a grana? Educação? Saúde?

E aí? Vamos separar o lixo?

Eu sugiro que o lixo seja separado em dois tipos: recicláveis e não-recicláveis. Esse papo de ter quatro ou cinco recipientes para separar o lixo em tipos de materiais é balela, pois além ser necessária uma cozinha enorme, na maioria das vezes seu trabalho será todo perdido, pois a coleta dos recicláveis é feita de uma só vez e o lixo acaba sendo todo misturado e separado posteriormente nas cooperativas de reciclagem.

Como saber se é reciclável ou não? Algumas embalagens possuem o selo indicativo de material reciclável, mas outras não. Pense da seguinte forma: tudo o que é seco provavelmente é reciclável e tudo que é úmido provavelmente é orgânico.

Separe o lixo dessa forma, em seco e úmido, assim você só precisará de dois recipientes na sua casa. Quando for separar embalagens de alimentos, cuide para que os restos não contaminem o restante do lixo reciclável, pois se isso acontecer, já era: o que era reciclável ficou contaminado e deixou de ser. Vale a pena passar uma água rápida para tirar os excessos de alimentos que ficam impregnados nessas embalagens.

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Símbolo de material reciclável

E agora? O que fazer com o lixo separado? Acesse o site da prefeitura da sua cidade e tente entrar em contato com a Secretaria de Limpeza Pública. Se não houver essa Secretaria, tente a de Urbanismo. Informe-se se existe a coleta seletiva na sua cidade e quais os locais, dias e horários que o caminhão passa.

Se não houver a coleta seletiva, pode ser que dê mais trabalho. Pesquise as escolas, shoppings e supermercados que recebem esses materiais, ou mesmo as cooperativas de reciclagem. No site do CEMPRE, há mais informações sobre essas cooperativas.

Para quem mora na cidade de São Paulo, sugiro que entrem em contato com as empresas LOGA, que é a responsável pela coleta de lixo nas zonas Oeste e Norte, ou com a ECOURBIS, que é responsável pela coleta nas zonas Leste e Sul. No site deles há informações sobre a coleta seletiva na cidade.

No próximo artigo tem mais, pessoal.

Thiago Oshiro Campi é Engenheiro Civil formado pela UNICAMP, atualmente a serviço do Governo do Estado de São Paulo, atuando na área ambiental. Além disso é guitarrista de carteirinha com Heavy Metal nas veias.


publicado em 06 de Setembro de 2007, 19:29
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Thiago Oshiro Campi

Thiago Oshiro Campi é Engenheiro Civil formado pela UNICAMP, atualmente a serviço do Governo do Estado de São Paulo, atuando na área ambiental. Além disso é guitarrista de carteirinha com Heavy Metal nas veias.

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