Drift: um novo jeito de fazer curvas

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A placa de 250 metros indica que a curva abre ali na frente, já posso ver. O prudente seria reduzir para a terceira marcha, beliscar o freio, colocar os pneus de fora em cima da zebra externa e fazer uma tangência bem aberta. Qualquer um faz isso, eu quero mais.

Placa de 200 metros, gás total, freio intocado, o medo aumenta mas o pé não hesita. Placa de 100 metros e a de 50 crescendo muito rápido. Acelerar até o limite do motor é fácil, a arte está em frear. Os melhores pilotos freiam no último momento possível e retomam a aceleração antes que todos os outros.

Frear na última placa exige vigor ao pressionar o pedal. Não queremos sair reto pela tangente ou entrar em uma velocidade que não mais nos permitirá realizar a tomada dessa curva. Pressiono o freio com vigor, sim, mas com muito cuidado para garantir que as pinças não se empolguem abraçando demais os discos. Não é hora para arrastar pneus e me colocar como passageiro aguardando para beijar aqueles pneus velhos ali na frente.

Link YouTube | Se o texto não ficar claro, dê play pra entender (selecione "360p" se estiver lento).

A dianteira mergulha no asfalto, pé esquerdo ao fundo da embreagem, redução de quarta para terceira e punta-taco perfeito com o calcanhar do pé. Foi uma beliscada leve no acelerador para manter o giro em 4000 rpm. Solto a embreagem rapidamente, garanto a redução precisa e sem trancos, esterço forte as rodas para dentro da curva muito antes do ponto ideal de tomada. A transferência de peso é bruta, a dianteira aponta para a entrada da curva e a traseira é arremessada para o outro lado. Pé embaixo, gás total!

Contra-esterço tudo apontando as rodas dianteiras para fora da curva e vou suavemente contornando a zebra, assim mesmo, andando de lado como em um balé automotivo. Os pneus gritam de emoção e a fumaça invade o habitáculo enquanto vou calmamente terminando minha manobra e colocando novamente a quarta marcha diante do retão que surge.

Você sabe o que é dorifuto?

Do japonês dorifuto, surgiu a palavra drift, técnica de direção que consiste em contornar curvas deslizando a traseira e controlando a trajetória apontando as rodas dianteiras para a direção aposta à curva. A derrapagem garante que o carro realize uma curva, literalmente de lado.

É lindo de ver, difícil de fazer e caro para aprender.

Link YouTube | Japonês fazendo punta-taco

Automóveis com tração traseira, em que a força motriz se concentra no eixo de trás, ou com menor peso na dianteira, sempre tenderam a escapar de traseira em curvas cuja velocidade de entrada foi exagerada. Todavia, corredores de rua no Japão descobriram que, com algumas modificações para equilibrar o peso de seus veículos e garantir um esterço ágil do volante, era possível rapidamente contra-esterçar e corrigir essas escapadas, tecnicamente conhecidas como sobre-esterço.

Treinando nas íngremes e perigosas descidas das montanhas japonesas, esses corredores de rua foram ao longo dos anos desenvolvendo uma nova modalidade do automobilismo, o Drift.

Drift como esporte

Andar de lado se tornou um esporte. Do Japão para o mundo surgiram campeonatos em que o piloto é avaliado conforme a velocidade das manobras e sua capacidade de deslizar agressivamente. Em outra modalidade ainda mais divertida, dois pilotos realizam um jogo de gato e rato em que o perseguidor precisa reproduzir com exatidão as manobras de seu adversário guiando seus automóveis tão próximos um do outro quanto possível. Novamente, bonito de assistir, difícil de fazer:

O principal campeonato japonês – e de maior prestígio no mundo – é o D1GP. Versões do D1GP foram exportadas para os quatro cantos do mundo, porém somente agora essa modalidade começa a deslanchar no Brasil.

Há pouco tempo os pilotos japoneses eram imbatíveis no dorifuto. Seu supremo campeão, aquele que nunca era derrotado, era chamado de Dorikin ou em inglês, Drift King. Entretanto, já existem pilotos ocidentais capazes de desafiar e vencer os japoneses. Um deles é o piloto sueco Samuel Hubinette, conhecido como Crazy Sweed e vencedor de duas edições do D1GP em terras nipônicas!

Link YouTube | Dois carros colados fazendo drift. Parece até fácil, né?

Tipos de Drift

Existem várias maneiras de provocar as empolgantes saídas de traseiras. Abaixo, detalharemos algumas delas.

1. Forçando na curva. O Drift mais comum consiste em tomar forte uma curva e entrar acelerando em uma velocidade excedente ao limite de tração de seus pneus traseiros. É importante relembrar que seu automóvel precisa obrigatoriamente possuir tendência ao sobre-esterço, caso contrário sairá de frente e seguirá pela tangência da curva em direção ao fim da pista.

2. No motor. Alguns automóveis podem ser provocados a desprender as rodas traseiras do chão, mesmo em linha reta. Entretanto, você precisa de torque e potência para impulsionar a carroceria. Com pé em baixo, basta realizar movimentos bruscos para direita e esquerda no intuito de desequilibrar a transferência lateral de peso do seu carro. Os árabes são famosos por praticar essa técnica em meio ao trânsito!

3. No freio de mão. Técnica mais usada pelos não iniciados, acionar o freio de mão que atua nas rodas traseiras é garantia de travamento e, consequentemente, de derrapagem. A traseira leve vai embora e, novamente, tudo o que precisamos fazer é contra-esterçar e regular o ângulo de derrapagem pelo pedal do acelerador. É verdade que automóveis com tração dianteira podem se comportar de forma semelhante fazendo uso dessa técnica, porém a prática recebe um nome distinto: Power Slide.

4. Desequilibrando o peso. Uma forma simples e eficaz de colocar as rodas traseiras para escorregar é desequilibrando a distribuição de peso de seu automóvel. Quando o carro entra tracionando em uma curva, basta encostar o freio ou até mesmo na embreagem para que ocorra uma transferência brusca de peso para a dianteira, aliviando assim a traseira. Após constatar que de fato houve uma queda da aderência nos pneus de trás, basta contra-esterçar a regular o ângulo de derrapagem pelo pedal do acelerador.

5. Feint. Técnica perigosa e somente recomendada pra praticantes experientes de drift. Consiste em apontar o carro para o início da curva realizando a tomada mais fechada possível ao invés de tangenciá-la. O movimento é brusco, então logo em seguida é necessário um contra-esterço igualmente agressivo para que seu automóvel se coloque em posição de drift. Se a descrição da manobra ficou clara, você já entendeu que caso não haja destracionamento das rodas traseiras, o excesso de aderência lhe impedirá de sequer iniciar a tomada da curva. Você irá sair da pista pela parte interna da curva antes de sequer chegar nela.

A combinação dessas diversas técnicas resultam em outras mais refinadas que são também diretamente influenciada pela forma que seu conjunto mecânico responde às provocações do piloto.

Link YouTube | Passo a passo para fazer drift (não entende inglês?).

Como preparar seu carro para o Drift

Praticar drift exige um investimento alto. Além de ser necessário um carro com tração traseira, o automóvel precisa ser leve para que a traseira desgarre do chão com maior facilidade. Uma série de modificações são necessárias para que se possa esterçar o volante com maior rapidez e para evitar que o diferencial do carro "corrija" a rotação das rodas, atrapalhando a manobra.

Além de tudo, quando a traseira de seu carro estiver indo embora, para trazê-la de volta você precisará de pé embaixo e muito torque. Sendo assim, considere também um motor com um trabalho de aspiração pesada ou minimamente um turbo-compressor.

A suspensão de um carro preparado para drift não se assemelha em absolutamente nada com a do carro que você guia na rua. Um automóvel de drift profissional possui baixíssima rolagem devido a alta carga de pressão nos amortecedores e rigidez das molas.

Os pneus, que obviamente duram muito pouco, também são especiais. É comum substituir pneus dianteiros por slicks sem sulcos, de alta aderência, enquanto os pneus traseiros são mais duros e suscetíveis a derrapagem.

Acertar o tipo de pneus a ser utilizado em um carro profissional de drift exige um especialista na modalidade. Volta a volta, o carro para e a temperatura dos pneus é medida. Conforme cada pneu vai sendo menos ou mais exigido, sua pressão é diminuída ou aumentada visando equilibrar aderência e desgaste. Quanto menos quente, menos o pneu sofreu, menos pressão recebe no intuito de aumentar a área de contato com o asfalto e, consequentemente, a aderência.

Se você se interessou pela modalidade, poderá acompanhar campeonatos de drifts em canais especializados ou na internet, já que ainda não possuímos muitos praticantes em terras tupiniquins. Entretanto, o esporte desembarcou no Brasil para ficar. Ainda não há campeonatos sendo organizados aqui, mas diversas empresas importam para exibição esportivos japoneses preparados para andarem de lado.

Recentemente, fiquei sabendo que finalmente descobriram o potencial de uma estrada catarinense que creio ser uma das mais prazerosas e divertidas do planeta. A Serra do Rio do Rastro e suas convidativas e sinuosas curvas darão espaço a um evento privado de Drift. Os que conhecem a famosa subida da montanha americana em Pikes Peak sabem que drift também é sinônimo de tempo de pista baixo.

Serra do Rio do Rastro, em Santa Catarina. Ah, se os japoneses descobrirem!

Eu torço para que os futuros drifters brasileiros mostrem ao mundo que nossa serra ali em Santa Catarina é capaz de desbancar em prestígio as melhores competições de drift em montanhas que temos conhecimento.


publicado em 01 de Dezembro de 2010, 10:51
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Rodrigo Almeida

Engenheiro, apaixonado pela vida e por qualquer coisa com um motor potente, nostálgico entusiasta de muitas daquelas boas coisas que já não mais se fazem como antigamente.

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