É possível se vestir bem e continuar hetero?

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“Essa pedra no sapato da moda masculina chama-se covardia. Com algumas exceções, a grande maioria do chamado sexo forte fica fragilizado se algum amigo ou amiga – porque elas também são terríveis – falar que a roupa que ele está usando é muito gay. Existe um medo mortal de boa parte dos homens héteros e homos de vestir algo que os identifiquem com os viados."



"Os homens custam em sair do armário e perceber que a roupa não define a sexualidade de ninguém, apenas marca se você tem personalidade diante da manada de cordeiros." –Vitor Angelo, em "O problema da moda masculina"

O medo supremo.

O buraco é mais embaixo...

O vestir tem duas funções: proteção e diferenciação. Inicialmente, nos vestíamos porque simplesmente não dava para andar pelado por aí. Foi necessário proteger o nosso corpo do vento, da água, dos insetos e do banco sujo do ônibus. A segunda função existe desde as mais remotas tribos indígenas, passando pelas cortes aristocráticas e presente até hoje nas ruas. Seja para dizer que você é o guerreiro da tribo, o rei daquele país, pagodeiro, banqueiro ou crente.

Todos estão dizendo alguma coisa

Fazer bom uso do artifício moda, para muitos, parece um muro intransponível, perigoso, que nunca deve ser desafiado, no melhor estilo de A Vila. Tudo porque nesse muro está o monstro detectado por Vitor Angelo: homem que se veste bem é taxado de gay.

Para o homem moderno, usar essa ferramenta é uma das formas de fazer seu statement, gerar presença e confiança. Algo que impulsiona uma grande roda que se retroalimenta, na sua equação mais básica:

Bem vestido => primeira boa impressão => auto-confiança => receptividade => confiança => poder

Ignorar essa ferramenta é como dizer: "Eu tenho um carro na garagem, com ele eu chego mais rápido em qualquer lugar, mas eu não dirijo, tenho medo".

O que quero dizer é que para estar bem vestido hoje você terá de perder o medo de usar novas estampas, acessórios, combinar e ousar em cores. Cultivar um olho crítico para quais peças está comprando, analisar o tecido, a costura e a modelagem.

Para facilitar, trouxe alguns bons exemplos.

Hetero, comedor e bem vestido

Dois americanos, machos, do bairro rapper mais famoso do mundo, o Bronx, começaram um site chamado Street Etiquette. Eles postam looks-conceito, ou seja, combinações mais elaboradas e ousadas. Um dos pontos fortes é a maneira como linkam essas combinações com histórias e referências antigas, algo que remete a tal fala feminina “Não se fazem mais homens como antigamente”. Das sugestões dadas você pode tirar pequenas referências ou ideias pra achar um diferencial só seu.

Assista a esse vídeo com os criadores. Quebra de estereótipos:

A black, straight male, with a fashion blog, from the Bronx. What?”
[Um homem negro, hetero, com blog sobre moda que veio do Bronx. Ahn?]

Link vídeo

Tá vendo algo não-hetero aqui?

O mundo depois do muro, um lugar mais interessante

Scott Schumam, macho também (e gato), desde pequeno sempre notou a moda. Coisa que chamou a atenção das meninas e o fez ganhar vários pontos enquanto estava no colegial. Ele tentou ser estilista antes, mas não vingou. Só foi ganhar fama quando resolveu sair pelas ruas e fotografar aquilo que as pessoas realmente vestiam, sem super produções editoriais. Esse trabalho virou o famoso blog The Sartorialist.

O cara dá um show em "moda hetero". Alguns achados do Scott pelas ruas do mundo:

Sério, acho que não conheço uma mulher que diga “Não daria pra nenhum desses três.”

Ai, esse charme dos homens mais velhos...

Teste rápido. Nas fotos do Scott aí em cima, quais os pontos comuns entre esses caras?

O primeiro ponto são as sobreposições. Uma jaqueta por cima de um moletom ou de um cardigan, além da camiseta. O segundo ponto é que são peças simples e básicas misturadas com peças de cortes elaborados. E o terceiro ponto é a sintonia das cores. Possibilidades úteis para você se guiar.

Primeiro passo, o mais difícil

Talvez as sugestões a seguir gerem questionamento, mas como dito, são apenas sugestões. Fato é que vestir-se bem requer treino do olhar e certa insistência. Considero estes pontos básicos para tal evolução e se vocês tiverem outras ideias, compartilhem!


  • Repare no estilo de caras que você admira, sejam eles celebridades, executivos ou aquele seu vizinho. Observe o que ele está vestindo exatamente, peça por peça, do colar até a meia. O que nesse conjunto de panos chama a sua atenção e lhe agrada?

  • Se achar tais referências de estilo em revistas ou internet, faça o mesmo exercício. Sugiro até que você guarde a imagem recortando ou em alguma pasta no seu computador.

  • Quando estiver de bobeira em casa, pegue essas referências e tente reproduzi-las com o seu armário. Vista as combinações, faça testes, veja o que funciona ou não em seu corpo e identidade. Nada garante que o que fica lindo no Brad Pitt funcione com você.

  • Depois dessa experiência com as combinações, você provavelmente vai descobrir aquela peça que faltava. Saia em busca dela.

Não se prenda à ilusão "bem vestido = roupas de marca". O que você realmente deve prestar atenção é:

Modelagem da peça (se ela foi bem cortada e costurada) + qualidade do tecido x preço

A moda e o mercado brasileiro

As marcas brasileiras já dão bons exemplos e caminhos. Vale a pena acompanhar as tendências de cada estação. Lembro que aquilo que vai à passarela é o supra-sumo da tendência; o que estará de fato nas vitrines e nos ármarios é bem mais diluído.

Desfile da marca brasileira V.Rom. Moletom, sarja, botas, couro e algumas estampas. Não é difícil!

Desfile da Ellus: “Olá, senhor lenhador!”

Desfile da Cavaleira. Sneakers insanos, jeans e uma estampa. Score!

Uma reclamação frequente é não ter saco para ir às compras e ficar experimentado as roupas, mais um hábito que deverá passar por mudanças. A grande vantagem aqui é esse avanço chamado internet: Osklen, Restir, Chico Rei, TNG, Hering, Renner, Moda 8, Farfetch, Surface to Air, Asos, Urban Outfitters, B.Luxo, Privalia, BrandsClub, Superexclusivo... Hoje marcas, multimarcas, outlets e brechós possuem lojas online. Ma-ma-ta pura.

Por fim, uma pequena história

Outro dia entrevistei Pascal Portanier, francês charmosíssimo, fodão do mercado de luxo e, sim, hetero também. Ele me contou como admira a relação de uma mulher com o salto alto. Além de alongar a silhueta e deixar as pernas mais compridas, chamativas, ele é capaz de passar um sinal muito mais poderoso. A partir do momento que uma mulher sobe no salto, ela está passando por cima de dor, desconforto e prejuízos diretos para a sua saúde com os objetivos de sedução e empoderamento.

O salto é o maior exemplo da dinâmica “sacrifício x ganho” presente no cotidiano de uma mulher. Dentro da relação livre do masculino com o armário não existe algo comparavél.

Por isso eu fico encantada com homens que se vestem bem, porque eles se deram ao trabalho de, ao sacrifício de parar para pensar na roupa e seus efeitos, assim como eu, para atingir tal patamar. Andar ao lado de um homem que está tão bem vestido quanto você dá gosto.

Só não vale demorar pra se arrumar mais do que sua garota!

Meninos, deixem mais sugestões dizendo o que gostariam de ver sobre moda e estilo. No próximo artigo, uma surpresa...


publicado em 11 de Março de 2011, 13:42
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Verônica Gunther

Sofre de Wanderlust agudo, e faz de tudo nessa vida pra continuar assim. Já trabalhou com moda, marketing, social media e agora acha que é redatora de UX (oi?). Viciada em psicologia da felicidade, fundou a Usina da Forma com uma galera e tem como propósito a felicidade em rede. Stalkeie por aqui.

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