Eric Cantona | Homens Que Você Deveria Conhecer #30

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Há alguns dias, no local mais clichê possível para uma discussão sobre futebol (daquelas em que encontramos soluções óbvias para o meio de campo da Seleção Brasileira, a economia da Argentina e a paz no Oriente Médio), um grande amigo fã de Lionel Messi e conhecedor da minha, digamos, inaptidão pelo futebol bailarino, provocou:

– Mas vem cá, Fagundes. E o Messi? Ele já é mais jogador que o Maradona?

Observem a essência do questionamento: “ele é mais jogador?”. Se a pergunta fosse quem é mais importante para o seu time, quem é mais decisivo ou quem tem a melhor média de gols, sem dúvida eu cravaria: Messi. Mas quando você precisa apontar alguém que será considerado mais jogador que os outros, é preciso ir além dos números e retrospecto. É preciso entender a importância dele para uma torcida.

O jogador mais do que os outros é aquele capaz de inspirar o conceito de futebol erguido pelo clube. Ou então, se as coisas não estão bem, introduzir uma nova escola de jogo. É aquele que representa um acréscimo não só durante os 90 minutos, mas para o futebol em si. Que vende, que orienta, que pauta, que inspira e que representa para o esporte e todos seus envolvidos.

Por isso eu respondi:

– Maradona. Além de tudo que vou escrever no segundo parágrafo do post de quinta, ele ainda era craque.

Entre os mortais, poucos se aproximaram de Maradona. Dessa genial relevância aliada a capacidade.

Eric Cantona foi – e ainda é – um deles.

Foto rara: o começo de Cantona no Auxerre

Da volância para o ataque no Auxerre

Eric Cantona ganhou o status de figura folclórica com o passar dos anos. Mas não como um Túlio, René Higuita ou Roger Milla. A personalidade forte, as frases de impacto e, especialmente, o temperamento transformaram o francês em um jogador caricato. Aliado a isso, claro, uma inigualável capacidade de crescimento em decisões e uma garra que destoava dos grupos de jogadores franceses.

Isso foi observado logo nos primeiros jogos pelo Auxerre, onde chegou com apenas 15 anos. O jogador demonstrava uma liderança típica de um atleta de meio de campo. Contudo, a técnica era muito atraente para o francês ficar tão distante do gol adversário. Foi esse o principal fator que fez com que Cantona ganhasse a posição de atacante.

Após uma temporada discreta no Auxerre, Cantona foi emprestado para Martigues, onde disputou a segunda divisão. De volta ao clube de origem, desencadeou as primeiras polêmicas. Agrediu o companheiro Bruno Martini e foi suspenso após expulsão por dura falta em Michel Der Zakarian. No mesmo ano, conquistou o sul-americano sub-21 com a Seleção Francesa.

Mesmo demonstrando problemas disciplinares, o Marseille contratou o jogador pagando um valor recorde na época: U$3 milhões. Com o status de estrela, Cantona não mudou. Só piorou. No início do ano seguinte à sua contratação, num amistoso contra o Torpedo Moscou, chutou a bola contra a torcida e arrancou sua camisa após ser substituído. Acabou sendo suspenso do clube durante um mês, sendo afastado também da Seleção Francesa após insultar o treinador em um programa de televisão.

O estilo marrento e a personalidade forte estavam presentes desde o início

Cantona conseguiu um feito único quando foi emprestado ao até então modesto Montpellier: teve o pedido de demissão requisitado pelos colegas de equipe. Isso aconteceu após o francês jogar um par de chuteiras no companheiro de time. Um dos pedidos, inclusive, partiu de Valderrama, popular jogador da Seleção Colombiana. A atitude não teve efeito. Cantona seguiu no time e foi importantíssimo para a conquista da Copa da Franca de 1989.

Com boas atuações, retornou ao Marseille. Acabou não se entendendo com o técnico. Foi negociado com o pequeno Nîmes, que pagou U$2,5 milhões. No Nîmes, adivinhe: voltou a ter problemas disciplinares. Numa partida na Liga Francesa em dezembro de 1991, Cantona, irritado com as decisões do árbitro, atirou a bola contra o mesmo. No julgamento sobre seu ato, o jogador xingou um dos os responsáveis pela punição.

Resultado: dois meses extras de gancho.

A atitude da Federação Francesa fez Cantona repensar a carreira. O jogador anunciou aposentadoria após a decisão do Supremo Tribunal Desportivo Frances. O ídolo nacional Michel Platini (que no ano seguinte levaria Cantona à Eurocopa 1992), juntamente com o então dirigente da Federação Francesa de Futebol, Gérard Houllier, o convenceram a mudar de ideia sobre a prematura desistência da carreira.

Valeu a pena. No ano seguinte Cantona assinou com o Leeds United, da Inglaterra. Lá, ao lado de Lee Champman, o atacante conquistou o último título nacional do clube e fez história ao dois hat-tricks contra Liverpool e Tottenham na primeira Premier League da história. As boas atuações abriram o olho do Manchester United.

E lá, enfim, Cantona se sentiu em casa.

A apresentação do jogador no gigante Manchester United

História no Manchester

Foi jogando no Manchester United que Cantona viveu os melhores anos de sua vida. O jogador foi responsável pelo ressurgimento do clube que dominou a Inglaterra na década de 70. Vestindo a mística camisa 7, foi duas vezes campeão nacional logo na sua chegada. As boas atuações o levaram ao posto de ídolo.

Porem, algumas coisas não mudam. Entre elas, o temperamento de Cantona. Os problemas disciplinares continuaram. E o jogador, para a felicidade dos sensacionalistas tabloides britânicos, caiu na graça dos torcedores. Virou um símbolo de revolta sem causa comum nos anos 90. Em 1994, após uma briga de bar, foi preso e algemado. Conseguiu se soltar e deferiu um soco no policial, resultando em vários processos que quase o tiraram da Premier League do anos seguinte.

Parecia ser o limite. Até que ocorreu a maior crise de sua carreira. Em 1995, durante uma partida contra o Crystal Palace, Cantona receber o cartão vermelho após uma falta violenta. Ao sair de campo, quando teve que passar próximo da torcida rival, o jogador foi xingado por diversos torcedores. Entre eles, Matthew Simmons, um hooligan que virou celebridade na Inglaterra. Cantona deferiu uma voadora e vários socos em Simmons, iniciando uma confusão entre jogadores e torcedores.

O saldo foi uma punição da FIFA de nove meses longe dos gramados.

A histórica voadora em Matthew Simmons. Clique na imagem para ver o vídeo

A decepção na Copa de 98

Ao contrário de todas as previsões, o Manchester renovou o contrato de Cantona mesmo com a punição. Porém, o jogador voltou a arrumar encrenca. Agrediu um repórter e perdeu sua vaga na Seleção Francesa, onde era titular e capitão antes da suspensão. O treinador Aimé Jacquet decidiu afastar o jogador e deixa-lo fora da Copa do Mundo de 1998 e da Eurocopa de 2000, onde a França de Zidane saiu com o título.

Foi o necessário para Cantona anunciar sua saída do futebol. Com 30 anos, o jogador que reergueu o Manchester United, que recriou a imagem do jogador de futebol com personalidade nos anos 90, que batia de frente com a FIFA e imprensa estava definindo sua aposentadoria.

O futebol percebeu que tratava-se de uma perda para a imagem do esporte. As marcas, principalmente. Foi o início de um trabalho conjunto de marketing que trouxe de volta a força da persuasão que Cantona tinha sobre os torcedores. Ou mais do que isso. Talvez a imagem do jogador problema, que não tinha um mundo perfeito, e refletia na realidade de todos os fãs do Manchester United.

Cantona se despede do futebol em 1998: ele quase enfrentou o Brasil na Copa

Garoto propaganda

Assim, Cantona virou, antes de tudo, garoto propaganda da Nike. Sabe-se lá se ironicamente, estrelou a campanha Joga Bonito. Era o apresentador de um programa fictício que chamava lances de dribles e pura plástica de Ronaldinho, Ronaldo e Drogba. Sucesso no mundo todo, foi sua primeira demonstração de volta ao show business depois de anos sem dar as caras na mídia.

Logo depois, em uma eleição realizada pelo Manchester United, foi escolhido o melhor jogador da história do clube, superando lendas como George Best e Bobby Charlton. A eleição trouxe a tona um Eric mais calmo, mais comedido, que sabia que sua imagem de durão podia ser trabalhada para o bem. E foi isso o que ele fez no filme Looking for Eric, de 2009.

No longa, Cantona interpreta ele mesmo. O filme fala sobre a fuga da aflição da vida moderna que o futebol e seus heróis proporcionam aos seus fãs. Cantona, na mente do personagem, o instrui por meio de treinamentos e orientações filosóficas a ter uma melhor visão e perspectiva de vida. E é um primor.

Link YouTube | Um dos raros filmes bons sobre futebol

O ex-jogador, hoje, é diretor de futebol do New York Cosmos. Trabalha como um manager, onde administra treinamentos de times de base e opina sobre ações de marketing.

Toda essa experiência adquirida e vangloriada nos 30 anos dedicado ao futebol. Cantona, mesmo tendo jogado pouco, marcou uma geração pelos seus atos. Na maioria, nada correto. Mas de uma identificação inigualável com o torcedor. Não existiu jogador mais real dos que Eric Cantona na década de 90.

É fácil explicar isso. Cantona, mesmo no auge, ídolo e famoso, demonstrava suas neuras. Era um homem vestindo a camisa do seu time. Um jogador que podia estar bem um dia, mas mal no outro. Não se tratava de carros importados ou mulheres. Mas de um estado de espírito. De quem, quando em fase ruim, não deixava de lutar para dar a volta por cima. Exatamente como é a rotina do torcedor comum.

Eric Cantona é um reflexo da vida.

E por isso ele é um jogador mais.


publicado em 26 de Abril de 2012, 00:15
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Fred Fagundes

Fred Fagundes é gremista, gaúcho e bagual reprodutor. Já foi office boy, operador de CPD e diagramador de jornal. Considera futebol cultura. É maragato, jornalista e dono das melhores vagas em estacionamentos. Autor do "Top10Basf". Twitter: @fagundes.

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