Fígado – Manual do proprietário

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Fim de férias, Dr. Health de volta à labuta: meus pacientes, minhas cirurgias, minha coluna aqui na PdH.

Em homenagem ao órgão que mais foi danificado em minha passagem pela última Oktoberfest, em Blumenau (SC), quero falar aos nossos leitores um pouco sobre esse nobre e importantíssimo órgão do corpo humano. Tão importante que sua ausência não pode ser suprida, dada a complexidade de suas funções.

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Reparem no fígado, indicado pelo lacinho vermelho | Crédito: Nay-K

Conheça seu fígado

O fígado é o maior e mais pesado órgão glandular do corpo humano.

Localiza-se abaixo das costelas, à direita. Recebe sangue de duas fontes: a artéria hepática e a veia porta, sendo que esta última traz o sangue advindo da absorção de substâncias pelo sistema digestório. Ou seja, tudo que é absorvido da nossa alimentação passa obrigatoriamente pelo fígado.

Vias biliares

O fígado produz a bile, uma substância amarelo-esverdeada, que tem a função de auxiliar na digestão de gorduras.

Junto à entrada da veia porta e da artéria hepática, está o ducto biliar comum. A bile é produzida no fígado e levada até o intestino (duodeno) através desse ducto, ou seja, corre em sentido oposto ao sangue. Esse ducto recebe uma conexão com o canal cístico, que vem da vesícula biliar. A única função da vesícula é armazenar bile excedente.

A bile é que dá a cor característica das nossas fezes. Em casos de “entupimento” dos ductos, a bile pode se acumular e dois sintomas podem ocorrer:

1. Icterícia: o entupimento causa aumento da concentração sanguínea da bilirrubina, o pigmento da bile, e o paciente começa a ficar literalmente amarelo. Imagine você com a área branca dos seus olhos, na cor amarela, igual uma gema de ovo. Mais ou menos isso.

2- Acolia fecal: como a bile não chega ao intestino, ocorre que as fezes saem pálidas. Praticamente brancas ou cinzentas.

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O seu deve estar mais ou menos por aí também... | Fonte: Wikipedia

As células do fígado e suas funções

A unidade celular do fígado chama-se hepatócito, e possui funções tão complexas que simplesmente uma pessoa não pode viver sem fígado.

Os hepatócitos são responsáveis por inúmeras funções de produção:

• Grande parte dos aminoácidos do organismo, matéria-prima das proteínas.

• Boa parte do metabolismo do glicogênio, tanto a sua síntese a partir da glicose, como a sua quebra na falta desta. Também atua na gliconeogênese, gerando glicose a partir de fontes alternativas como aminoácidos, glicerol e lactato (quando o organismo está necessitando glicose, o glicogênio já acabou, o fígado aproveita proteínas e gorduras para gerar combustível).

• Praticamente todo o metabolismo das proteínas do corpo, desde sua produção até sua degradação.

• Síntese de colesterol e triglicerídeos.

• Produção de diversos fatores da coagulação. Um dos sintomas de insuficiência hepática é a deficiência da coagulação, literalmente sangra até por pensamento.

• No feto de até 3 meses, o fígado é o principal produtor de glóbulos vermelhos. Após esse período, a medula óssea assume esse papel.

• Produção da já referida bile.

• Produção do IGF-1, um hormônio que apresenta papel importante no desenvolvimento infantil, e efeitos anabólicos no adulto.

• Produção da trombopoietina, que é um hormônio que regula a produção de plaquetas pela medula óssea. As plaquetas são vitais na coagulação do sangue, o que reforça ainda mais o papel do fígado nessa função.

figado

E também são responsáveis por funções de degradação:

• Degradação da insulina e outros hormônios.

• Degradação da hemoglobina, proteína que dá cor ao nosso sangue. Um dos produtos da degradação da hemoglobina é justamente a bilirrubina, que vai ser excretada na bile.

• Degradação ou modificação de substâncias tóxicas ou medicinais. Isto pode ocorrer de duas formas: (1) pela modificação da substância, o que pode gerar uma outra substância ainda mais tóxica ou simplesmente anular o efeito tóxico, dependendo de que substância se trata; ou então (2) pela associação de uma proteína que facilita a excreção da substância na bile (fezes) ou na urina. Aos interessados, o álcool entra aqui.

- Conversão da amônia em uréia. Na insuficiência hepática, o excesso de amônia, associado com outras substâncias tóxicas, causa encefalopatia: a pessoa fica confusa, tonta, com estado mental alterado.

Outras funções:

• Armazenamento de inúmeras substâncias, como glicose (na forma de glicogênio), ferro, cobre, vitaminas A, B12 e D.

• Funções imunológicas. O fígado contém um forte sistema de defesa contra antígenos advindos da digestão. Seria uma barreira inicial.

• Produção de albumina, uma proteína essencial do sangue. A albumina ajuda a “puxar” água para a corrente sanguínea. Na insuficiência hepática, a albumina é tão baixa que o líquido tende a sair da corrente sanguínea e infiltrar os tecidos, causando um inchaço generalizado conhecido como anasarca.

- Produção de angiotensinogênio, hormônio que auxilia a regulação da pressão arterial.

Capacidade de regeneração

O fígado é o único órgão interno capaz de se regenerar. Se uma pessoa perder até 75% de seu fígado, o restante é capaz de dar origem a um novo fígado completo, em até 8 anos.

Esta capacidade de regeneração apresenta alusão até na mitologia grega, na história de Prometeu. Prometeu foi punido pelos deuses por revelar o fogo aos mortais, sendo acorrentado a uma pedra. Todo dia, um abutre aparecia e comia um pedaço do seu fígado, que se regenerava durante a noite, e assim foi eternamente.

prometeu
Abutre: uma outra figura mitológica para representar a manguaça...

Álcool x Fígado

Inicialmente, a ingestão excessiva de álcool causa uma alteração transitória no fígado conhecida como esteatose. Que nada mais é que o acúmulo de gordura. Basta parar de beber que a coisa volta ao normal.

Em alguns casos, pode ocorrer uma hepatite alcoólica, que tem sintomas parecidos com uma hepatite aguda.

Quando a bebedeira continua por muito tempo (leia-se anos e quantidades grandes), o fígado sofre danos irreversíveis e fica com aspecto fibroso e cicatricial. A isso chamamos de cirrose hepática, que é frequentemente progressiva e vai causar algum grau de insuficiência hepática. A cirrose, em 10% dos casos, também leva ao câncer de fígado.

A cirrose alcoólica se desenvolve em 10 a 20% das pessoas que bebem “pesado” por uma década ou mais.

Dr. Health, por que quanto mais eu bebo mais resistente eu fico?

Simples, porque a degradação do álcool é uma espécie de “malhação” do fígado. Quando você ingere álcool (ou outra substância tóxica), o fígado aciona os seus mecanismos de degradação existentes e também produz mais elementos que vão atuar nessa degradação.

Se a bebedeira continua, o sistema usado pelo fígado passa a ter mais elementos no combate ao álcool, torna-se mais eficiente, e o álcool é degradado de forma mais rápida. Logo, você precisará de maiores quantidades de álcool para atingir o mesmo grau de bebedeira anterior.

Por isso pessoas que não estão acostumadas a beber muito ficam de porre logo. Já os bebuns de plantão, aguentam mais o tranco.

E os remédios para “proteger” o fígado?

São, a grosso modo, compostos de aminoácidos utilizados pelo fígado para sintetizar as proteínas que vão ajudar na degradação do álcool. Na minha opinião, besteira. Não protegem nada. Uma alimentação normal deixa o fígado plenamente capaz de se “auto-gerir”.

E a ressaca?

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"O Dia Seguinte", de Edvard Munch (famoso por seu "O Grito"). Porque Dr. Health é ciência com cultura.

Os produtos da degradação do álcool também são tóxicos, especialmente o primeiro deles, o acetaldeído. A bebedeira diminui a remoção/conversão do acetaldeído, que é 10 a 30 vezes mais tóxico que o álcool em si.

Um dos tratamentos já utilizados para o alcoolismo crônico é o uso de uma substância chamada disulfiram. Ele age justamente impedindo a degradação do acetaldeído, o que causa uma sensibilidade aguda ao álcool – isto é, uma tremenda e inesquecível ressaca toda vez que o indivíduo bebe.

A dor de cabeça que vem junto com a ressaca é causada, além de substâncias tóxicas, pela desidratação que a bebedeira gera. Há de se ingerir bastante água após o porre. Além disso, os metabólitos tóxicos do álcool também acabam inibindo a produção de glicose pelo fígado, causando seu déficit no organismo. Por isso aquela famosa “glicose na veia”, que com certeza todo leitor aqui conhece alguém que já passou por isso, quiçá o próprio.

Para finalizar, não se sabe precisamente se a mistura de bebidas fermentadas e destiladas realmente aumenta a ressaca. O que se sabe é que a presença de congêneres, que são substâncias produzidas durante a fermentação ou o processo de destilação, sobrecarrega o fígado e pode aumentar a ressaca. Os fermentados possuem mais congêneres que os destilados. Mas se você chegou ao ponto de misturar, provavelmente a ressaca viria do mesmo jeito.

Dr Health, em esteatose pós-Oktoberfest e levemente arrependido de ter escrito esse artigo. Agora terei de beber com culpa!


publicado em 22 de Outubro de 2009, 09:45
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Mauricio Garcia

Flamenguista ortodoxo, toca bateria e ama cerveja e mulher (nessa ordem). Nas horas vagas, é médico e o nosso grande Dr. Health.

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