Nua, eu abro a porta

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Ela gosta de ouvir anos 80. Músicas que nasceram junto com ela e a acolhem em momentos não tão bons. Prefere suas unhas pintadas de vermelho, lembrando a primeira vez em que as pintou dessa cor e sua mãe disse:

– Parece mão de puta.

Talvez isso, de certa forma, explique sua curiosidade, sua vontade de ser garota de programa por um dia. Talvez.

Seus leves TOCs são coisas de alguém que associa detalhes a algo que dará muito certo, tal qual superstições. Nunca prende o cabelo e sempre se deita ao lado direito do parceiro.

"Vou bater na sua porta de noite completamente nua."

Naquela sexta-feira, Alice saiu de seu trabalho às oito. Era uma noite quente de março e o calor aumentava no asfalto, onde Alice estava havia um bom tempo. Cheiro de escapamento se misturava ao seu perfume delicado. Era uma cidade podre com uma bela mulher. Uma luz neon explodia no seu rosto, mas não era por isso que o carinha no carro ao lado a encarava. Ela sentia os olhos famintos daquele homem. Apenas fingia retocar o batom esperando o fluxo rodar e cantarolava a música do rádio.

– Olho a cidade ao redor e nada me interessa. Eu finjo ter calma. A solidão me apressa...

Esqueceu a letra e, logo em seguida, retomou.

– Vou bater na sua porta de noite completamente nua.

"Completamente nua." Alice fingia prestar atenção nas sinaleiras, na marcha, nas curvas... seguia automaticamente seu rumo de casa e pensava naquilo. Na nudez. Em pele. No corpo livre. Sentiu algo pulsar lá embaixo. Naquele momento, nada mais enchia seus olhos e ninguém mais despertava sua vontade, não da mulher bater à porta, mas de abri-la estando nua.

Chegou em casa como todos os outros dias: sem flores, sem dores, sem amores. Cortou corações de frango – e seu dedo no caminho – e os levou ao fogo. Abriu uma cerveja. Colocou Nina Simone na vitrola.

– It's a new dawn, it's a new day, it's a new life for me. And I'm feeling good...

Link Soundcloud | "Feeling Good", por Nina Simone

Comeu os corações, bebeu a cerveja, e em momento nenhum livrou a mente de pensar nos homens com quem se relacionara. Pensou também na própria sexualidade. Percebeu que dos muitos machos com quem havia dormido, poucos a fizeram ter vontade de recebê-los em casa. Ainda mais recebê-los nua.

Poucos seriam dignos de vê-la abrir de porta sem roupas, aquele metro e setenta e nove de mulher e salto alto. Seus cabelos lisos tapariam um dos seios. O outro estaria à mostra, com seu mamilo pequenino, róseo e por toda vida enrijecido.

Calcinhas na gaveta

Alice teve três namoros sérios, mas assusta-se com o número de homens com quem já trepou. Mora sozinha e está bem assim, convivendo consigo mesma. Sabe receber pessoas como ninguém. Se for macho e despertar seu tesão, ela não faz muitos rodeios para o convite até sua cama.

Às vezes, saía à caça.

Numa fase de sua vida, Alice deixava suas calcinhas na gaveta e saía assim, apenas com um vestido no comprimento de um palmo depois da virilha. Se estava com vontade, com aquele desejo despudorado, pegava na mão do cara e a levava até sua boceta para que pudesse senti-la lisa, pulsando e intimando-o. Não lhe importava se alguém visse isso. Há coisas muito mais descaradas por aí e sem o mínimo charme.

Já aconteceu de sair com alguém sem a menor intenção de transar. Apenas para beijar, beber um pouco e jogar papo fora. Só que ao se despedir, ainda no carro, lembrava que estava sem calcinha. Em meio aos beijos, não hesitava e acabava dando.

As janelas estão todas abertas e Alice está nua.

Hoje em dia, prefere um convite menos audacioso. Quer algo verdadeiro. Alguém que mereça o seu abrir de porta sem roupas. Depois abraçá-lo com ardor, passando o seu calor pelo tecido da camisa, roçando seu pescoço no nariz dele como quem diz: “Esse sempre será o meu perfume”. O beijo na boca poderá esperar: será hora de torturar seu homem com palavras sujas.

Para Alice, nudez é a verdade mais crua.

Alice sorri macio com aquela boca que destaca o lábio inferior. Volta à realidade de Nina Simone e cerveja. Levanta-se do sofá – já nua e suando pelo calor da cidade infernal e dos pensamentos igualmente quentes. Ruma à cozinha e lava o prato e os talheres, preocupando-se em não descascar seu esmalte vermelho. As janelas estão todas abertas. Avista um vizinho a mirá-la. Ela não se incomoda.

Neste momento, a campainha toca.


publicado em 23 de Junho de 2011, 15:49
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Clarisse Colombo

Jornalista. Geralmente escreve por insights noturnos e jura que seus contos são totalmente fictícios.

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