O boquete que ninguém vê

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Por uma janela, é possível flagrar aqueles domiciliares ou até automobilísticos. Mas há outros boquetes que, de tão escancarados e explícitos, se tornam invisíveis.

Usar tal metáfora para olhar os relacionamentos pode parecer algo exagerado, forçado, descabido. Concordo. Seria curioso, porém, se justamente um do atos mais deliciosos escondesse alguma espécie de sabedoria, se acontecesse sob a mesma dinâmica que movimenta o casal em outros momentos.

Para o homem, talvez seja difícil admitir que, mesmo com um histórico impecável de ereção 100%, ele provavelmente brochou várias vezes diante de sua parceira. Ou ejaculou precocemente em alguma situação, fora da cama, como um menino ansioso ou irritado.

Para a mulher, diante do paralelo estranho entre chupar e todos os outros verbos da vida amorosa, o desafio está em não restringir o ato ao seu aspecto de entrega, em lembrar de seus movimentos, autônomos, livres – nada submissos – e confessar sua própria sensação de poder, de prazer.

Descabido ou não, é com essa cena do boquete que vamos olhar para as relações. Começo com o homem, depois falo da mulher, do casal meia-bomba e da dinâmica lúdica dos relacionamentos.

Por fim, claro, tem prêmio pra vocês, leitores PdH.

Bar de speed date: perfeito para observar quais tipos de boquetes acontecem publicamente por aí.

Imobilidade e vigor

"O pau é preciso, insistente (como um sedutor profissional), imóvel, impetuoso, paciente: quando quer algo, faz de tudo pra conseguir, continua, continua, continua, até chegar em seu objetivo. Seus donos poderiam ser assim, não?"
[Trecho de "Como trair sua mulher... com ela mesma"]

Dizem que o homem pensa muito com a cabeça de baixo. Discordo. Afirmações assim surgem de uma visão muito limitada do sexo e do próprio corpo. Debates com sexólogos, explicações médicas, descrições fisiológicas nos fizeram achar que um pau é apenas o pênis, esse aí da Wikipedia. Ora, o pau encabeça um projeto assombroso: penetra, insemina, inicia uma vida nova, praticamente do nada.

O mundo seria outro se os homens pensassem mais com esse órgão misterioso, se usassem mais essa energia capaz de criar vidas.

No homem, o que torna possível um boquete (já estamos falando além do sexo, ok?) são duas qualidades que se enriquecem mutuamente. Imobilidade e vigor, estabilidade e vivacidade, repouso e presença são alguns nomes para isso de ficar parado e vivo. Parado em torpor, apático, não serve. Vivo, mas com tique nervoso, mexendo os pés sem parar, roendo unha... também não serve.

O fluxo incessante – de sangue, no boquete; de respiração e energia, no resto da vida – nos estabiliza. É como se a imobilidade fosse sustentada por um movimento frenético, ou como se os movimentos tivessem um fundo imperturbável. De qualquer forma, essa dinâmica precisa estar presente quando uma mulher nos chupa ou quando ela nos conta que está indo embora com outro. Caso contrário, o corpo entra em colapso, seja por falta de energia vital ou por movimentos caóticos.

Brochada e ejaculação precoce, os dois extremos do sofrimento masculino. Na cama e na vida.

Se você não tem uma boa base, ela não consegue fazer muita coisa ao seu redor.

Dança e radiância

As qualidades de vigor e imobilidade também estão presentes na mulher; não são propriedade masculina. No entanto, na mulher às vezes elas assumem outras formas. A estabilidade se dá por uma espécie de dança, enquanto o vigor se mostra mais para além da pele, como um tipo especial de brilho. O homem fica parado, a mulher se move. Lembrando que, assim como não faz sentido falar que o homem está passivo, não tem por que enxergarmos submissão cega ou dependência na expressão feminina.

Boca, língua, dentes, mãos, peitos, unhas, cabelo, pés... Sugando, tocando, chupando, arranhando, mordiscando, lambendo, esfregando, batendo... As possibilidades de toque são quase infinitas, mas nada se compara às possibilidades do movimento feminino na vida amorosa: enfrentar, provocar, reclamar, gritar, chorar, sorrir de lado, brincar, amar, sofrer, bater, beliscar, imaginar, sonhar, questionar, desconfiar, planejar.

É claro que os homens fazem tudo igualzinho, porém as mulheres possuem uma capacidade especial para incorporar e expressar a vida. Não é por acaso que são elas as responsáveis por gerá-la – nós ficamos com a parte fácil.

No sexo, o prazer está mais evidente em cada curva, gemido e expressão. A mente está mais envolvida em alguma fantasia às vezes indizível, as expressões se alternam mais, o cheiro, os cílios... O toque e o significado do toque chegam juntos na pele feminina, inseparáveis.

Fora da cama, nenhum homem consegue superar suas mil outras microexpressões, jeitos infinitos de mexer no cabelo, de cruzar as pernas ou de dizer o quanto você é um imbecil.

A mulher, na cama e na vida, dança muito mais do que o homem. E brilha, irradia, revela, expressa muito mais prazer.

"Amor, eu já fiz umas 9 expressões aqui e você continua com a mesma cara."

O homem meia-bomba e a mulher meia-boca

"Ela é areia demais para meu caminhão". Se o homem não consegue aguentar meia hora de um boquete perfeito, não tem a menor chance com sua mulher na vida em geral, especialmente se ela for independente, solta, livre, inteligente. E não estamos falando em alguma forma de disputa, mas em receber o que o outro nos oferece, em ter espaço para que ele não ofereça menos, não seja menos do que pode e quer ser conosco.

Muitas vezes o homem que não aguenta acaba buscando uma mulher menos exigente, menos livre, menos solta. Por não saber lidar com tanta energia, prefere menos. Troca um boquete perfeito por um meia-boca. Mais seguro, mais garantido, mais confortável. Ele usa o controle para enfrentar sua ansiedade, sem saber que está reprimindo e cortando sua própria energia, ou melhor, a energia da relação como um todo, incluindo a potência feminina, o desejo, a boca, a língua de sua mulher.

Do mesmo modo, uma mulher sem tanto brilho, sem tantos movimentos em sua dança, acaba escolhendo um parceiro mais facilmente perturbável, não tão imóvel assim, sem tanto vigor. Um pau meia-bomba. Ou um pau de menino, duro e frágil, no limite da ejaculação.

Se ainda não ficou claro, estamos falando da cabeça de cima, da mente mesmo. Assim como é mais fácil para um homem segurar um boquete rápido e mal feito, é mais confortável fazer um cara gozar (se apaixonar?) com pouco, sem precisar explorar, dançar, pirar, se expressar tanto.

Ambos perdem quando quem conduz a relação é a ansiedade, o controle, a ausência, o medo, o pé atrás, a hesitação.

"Oi, como eu aviso o seu dono que mudei de ideia?" | Arte do genial Arthur de Pins

Mútua estimulação para o crescimento... do casal.

O homem que supera a ansiedade sem precisar de controle – apenas por uma espécie de relaxamento, de repouso em uma natureza imperturbável anterior ao espiralar da vida – aumenta o espaço para que sua mulher dance cada vez com mais energia. Não apenas ao seu redor, mas na vida inteira, em todas as outras relações. Quanto mais estável e presente ele for, mais ela se soltará em todas as suas manifestações positivas, de elegância, inteligência, luminosidade, felicidade.

E a mulher que se entrega aos prazeres sensoriais e ao fluir da vida (nas artes, na natureza, em seu próprio corpo) certamente provocará um aprofundamento em seu parceiro. Quanto mais solta ela for, mais imóvel ele terá de ser. Quanto mais energia ela oferecer, mais ele terá de respirar, incorporar, sustentar, aguentar o tranco.

David Deida, apesar de romantizar demais, descreve esse processo pelo qual o encantamento feminino aumenta a profundidade e presença do olhar masculino:

"Your artful offering of love's yearning evokes you man's depth. The persistence of your heart's light evokes the stability of his presence. Your graceful dance – simply the way you walk, move your fingers, and turn your head – can evoke his attention and awe."
Tradução livre sem tanto romantismo: "O oferecimento de seu anseio por amor evoca a profundidade de seu homem. A persistência de seu coração ativa a estabilidade da presença dele. Sua dança graciosa – apenas o jeito que você caminha, move os dedos e vira a cabeça – pode chamar a atenção e o deslumbramento dele."

Ao se exibir e dançar, a mulher ensina o homem a viver de olhos bem abertos. Por outro lado, ao se manter presente, o homem ajuda a mulher a avançar, arriscar, criar e se expressar ainda mais, sem medo.

Qual o obstáculo para esse crescimento? Medo de perder o outro. O homem, no fundo, não quer ver sua mulher totalmente livre: "E se ela decidir seguir a vida longe de mim?". A mulher teme o avanço masculino: "E se ele se tornar tão estável que nem eu mesmo consiga perturbá-lo, fisgá-lo, seduzi-lo, satisfazê-lo?".

Todo mundo tem tara por algema. E, não, não estou falando de sexo.

Eis o paradoxo do boquete e do relacionamento: ela deve estimulá-lo, mas não muito, não a ponto de fazê-lo gozar logo de cara; ele tem de crescer e se manter, mas não muito, não a ponto de nunca ejacular, de não ceder. O crescimento do casal, ironicamente, se dá por uma série de freios, limitações, cortes, "quases", já que o movimento de estimulação, crescimento, é o mesmo que eventualmente interrompe, faz o outro cair. No tango, no boquete, na vida, tudo igual. Não é por acaso que a fronteira entre beneficiar e prejudicar o outro é tão sutil.

Um só sabor

Quando se materializa, o casal percebe que sua relação inteira é como esse boquete agora em ação. Não porque ela está no papel de chupar e ele de ficar olhando com cara de bobo, nada disso, mas porque o boquete é a expressão perfeita da dança entre imobilidade e movimento. Não exatamente imobilidade do homem e movimento da mulher, pois ambos acessam igualmente tais qualidades, mas imobilidade e movimento do casal mesmo, como representantes de um mistério impessoal.

O boquete, então, revela sua qualidade lúdica. A mulher não precisa se ajoelhar, o homem não precisa arriar as calças, mas ela desce e ele se oferece por pura brincadeira, pelo desejo de explorar com o corpo inteiro aquela dinâmica que já existia enquanto conversavam há alguns minutos.

E pode observar: ambos desempenham seus papeis com uma certa cara de criança, sem entender direito o que está acontecendo, de onde vem, para onde vai o tesão. O boquete mostra como somos vulneráveis, expostos, despreparados, ignorantes diante da vida que se impõe dentro e fora de nós.

A língua e o pau. O beijo que acontece logo depois. Um só sabor. Inseparável, circular, recursivo. Quem contribui com o que na relação? Quem é superior? Quem manda em quem? Qual o gosto de cada um? Nenhuma pergunta faz sentido. Um só sabor é como eles experimentam todos os sabores do mundo.

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Se você não vê conexão alguma entre um boquete e o relacionamento como um todo, pode pedir para uma mulher que o ajude nessa percepção e prolongue o ato para lhe dar tempo de analisar profundamente o assunto. ;-)

Deixo minha autorização para o sedutor profissional que quiser enviar o link desse texto para uma mulher: "O que acha? Concorda? Pensei em discutirmos isso hoje à noite".

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Ano passado convocamos a galera para o cargo de testador oficial de camisinhas ("Sem tirar: como emendar quase todas as posições sexuais", lembram?). Hoje não tem concurso algum.

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Na segunda-feira, dia 23, vamos sortear via random.org. Boa sorte. Abraços!


publicado em 19 de Agosto de 2010, 04:01
Gitti

Gustavo Gitti

Professor de TaKeTiNa, autor do Não2Não1, colunista da revista Vida Simples e coordenador do lugar. Interessado na transformação pelo ritmo e pelo silêncio. No Twitter, no Instagram e no Facebook. Seu site: www.gustavogitti.com

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