Eu preciso sair da rotina | ID#14

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Fred,
Sinto que o meu namoro está fracassando. Já estamos juntos há dois anos e não consigo mais acender aquela chama, aquela paixão e vontade de estar juntos. Nós costumávamos sair bastante, fazíamos aulas, íamos a shows e baladas. Agora, parece que a convivência fez a coisa esfriar. Sequer tenho ânimo de convidá-la, pois parece que nada a deixa feliz.
Ao mesmo tempo, parece que o resto da minha vida também está um tédio. Meu trabalho me deixa cansado, não tenho mais saco e nem paciência para passar todos os meus dias fazendo uma coisa que parece não me levar a lugar nenhum.
Eu deveria mudar tudo? Fazer só o que gosto e me satisfaz? Devo terminar o namoro?
O que você me sugeriria para sair da rotina?

Meu caro,

Às vezes tenho a impressão de que temos uma forte tendência a buscar situações, experiências e pessoas que tragam a sensação de “uau, que incrível!” quase compulsivamente. É quase como se quiséssemos um botão de turbo na vida.

O problema é quando viramos escravos do turbo e a todo momento entramos nas relações aguardando aquele frio na barriga, a ansiedade crescente para encontrar a pessoa "amada" e uma montanha-russa de emoções que desconfigurem a realidade comum. Esperar que tudo seja sempre intenso e novo é pedir encarecidamente para sofrer.

O tempo passa, as rotinas se entrelaçam, os horários se combinam, as juras de amor se repetem e aquele calor sempre presente parece que lança a mente turbineira num mar de questionamentos: "será que ainda me ama?", "tudo parece estranho", "não é mais como era antes", "tudo muito parado".

"Ninguém vai acreditar quando eu contar"

Engano. Está tudo dentro do ritmo, com a cadência natural da vida cotidiana. No entanto, para a mente que pede o turbo, o ordinário não basta. Ela vai buscar um barraco, um incômodo, um descompasso e transformar numa epopeia interminável até conseguir o que quer: uma emoção intensa. Se não conseguir, é capaz de romper um relacionamento que prometia ser sólido, construtivo e gradual por algum tipo de emoção frenética, ainda que fugaz.

É comum, quando entramos nesse padrão, sairmos pulando de galho em galho, criando problemas dispensáveis só para ter histórias surreais e sempre ser o trending topics da roda de amigos: "viu o fulano? Caramba, aquele não para quieto, sempre inventando moda".

Diante de um assunto mais tenso ou que não reforce seu ego o botão do turbo é acionado para mudar o assunto como quem troca de estação no rádio. Confesso que olho com certa desconfiança para essa necessidade de estar na crista da onda como um zumbi-feliz.

Eu mesmo já me peguei imaginando algo foda que iria fazer e, quando penso realmente em colocar em prática, parece que dá um bode antecipado e não faço porque na hora H não é tão legal quanto na imaginação. Isso já me tirou energia para começar ou concluir muitos projetos. Mulher, trabalho, família, amizade, tudo já entrou nesse pacote.

Esta mente é a mesma que cria uma agitação de pés mexendo, dedos se cutucando, unhas roídas  olhos agitados e um turbilhão passando pelo peito viciado em adrenalina. É ela o gatilho de muitas das nossas aflições.

É ela que causa a sensação constante de estar de fora de uma festa maravilhosa onde todos estão curtindo além dos limites e só você não tem o endereço. A impressão que pode dar é de que o turbo age como uma forma de deixar de se sentir um otário deixado do lado de fora. Mas, olhando mais atentamente, não é isso que ocorre. Na realidade, o turbo é um dos principais fatores de separação e distanciamento.

Link Youtube | Não pode ficar mais conto de fadas que isso

Poucas vezes aquietamos nossa mente, respiramos fundo e falamos com calma e serenidade, tentando verdadeiramente nos comunicar. Soltamos palavras vazias a todo momento por puro medo do tédio. Recebemos e repassamos uma mensagem subliminar que transmite uma sensação de “quero tudo ao mesmo tempo agora”.

Esse apelo constante cria uma insatisfação crônica, uma abundância de estímulos vazia de sentido.

Na tentativa simpática de estimular alguém, esquentar a relação, sair do tédio, seguimos ansiando pelo próximo passo. Nosso e dos outros.

Na realidade, é relativamente fácil captar o desespero contido no botão do turbo, sibilando a sua mensagem subliminar:

"Continue tentando escapar da vulnerabilidade essencial diante do imprevisível e da verdade sempre presente de que você vai morrer."

Proibir ou incentivar o vício do turbo me soa inócuo. O segredo talvez esteja em nos perdoar por não conseguir gozar a quantidade enorme de apelos que se fazem hoje em dia e até aceitar a realidade tediosa da vida sem nenhum constrangimento.

Será que sobrevivemos sem deixar a realidade mais lustrosa do que realmente é?

Nota do editor:  O trabalho da coluna ID é auxiliar em nossas jornadas de amadurecimento e desenvolvimento pessoal.

Empenhado e preparado

Para isso, vale utilizar esse espaço também para debater outros âmbitos da vida que estão além de amor e relacionamento, como família, angústias da solidão, da própria convivência consigo mesmo. 

Continuem mandando suas dúvidas, vamos cavar mais fundo e explorar mais sobre nós mesmos: id@papodehomem.com.br


publicado em 21 de Maio de 2013, 21:10
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Frederico Mattos

Sonhador nato, psicólogo provocador, autor dos livros "Relacionamento para Leigos" e "Como se libertar do ex". Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva a felicidade, lava pratos, medita, oferece treinamentos de maturidade emocional no Treino Sobre a Vida escreve no blog Sobre a vida. No twitter é

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