O Brasil visto de fora

  • Nossos atuais Mecenas:
  • Selo jockey

“Tupi or not Tupi: that is the question”
–Oswald de Andrade (1890-1954)

Notícias como essa me deixam puto.

Não por expor ao mundo os problemas e fragilidades da nossa política interna, mas por mostrar a falta de seriedade e o amadorismo com que o futuro de 200 milhões de brasileiros é encarado. A verdade, porém, é que notícias como essa rodando pelo mundo não colaboram com a imagem que o Brasil tenta construir no exterior, que não inclui a foto do Tiririca em lugar algum.

Sempre me interessei em saber como o nosso país é visto mundo afora. Desde que vim morar na Inglaterra, sempre que tenho a oportunidade, pergunto como as pessoas enxergam ou entendem o Brasil.


Pra muito gringo, isso é Brasil.

Lembro que, no meu primeiro dia aqui, uma amiga da minha mulher disse que achava o Brasil um país exótico. Na hora lembrei de uma professora da faculdade que dizia que o pior elogio que alguém pode dar a um país é dizer que ele é exótico. "O que é exótico não se encaixa em nenhum padrão, é estranho, desconhecido", dizia ela.
Por conta dos fatores sociais que todo mundo conhece, como concentração de renda e a desigualdade que todos nós compartilhamos, pra quem é nascido e criado em São Paulo, a noção de Brasil pode ser completamente diferente de alguém que mora no Pantanal, no Nordeste ou no Norte. Mas o que todo mundo sabe é que o Brasil tem seus contrastes, seus problemas (que, aliás, são muitos), mas que um dia a gente chega lá.
Empresários e investidores internacionais enxergam o Brasil como um mercado com belas oportunidades de investimento de retorno rápido. Para turistas, um lugar com fantásticas experiências, principalmente para aqueles que saem do tradicional eixo Salvador-Rio-Foz do Iguaçu.
O interessante é ver que a visão de Brasil muda de acordo com a origem de quem é questionado. Alguns amigos venezuelanos e bolivianos veem o nosso país como um lugar de oportunidades, talvez um lugar para se ter uma vida melhor. Já meu padrastro chileno diz que o Brasil é um inferno, enquanto seu amigo argentino vê nossa terra como um campo fértil para fazer negócios. Um ex-professor meu já me disse que a única imagem que consegue ter do Brasil é a de pessoas dançando e fazendo festa a toda hora.
Bom seria se todo dia fosse assim.

Entre todas as visões estereotipadas e desentendidas, o comentário mais inteligente que já ouvi foi de um israelense que conheci na minha última ida ao Brasil. Ele, que já estava por aí viajando havia seis meses, disse que nosso país tem a melhor propaganda do mundo porque a imagem vendida no exterior é a de um paraíso tropical, onde todo mundo é alegre o tempo inteiro, mas, quando se chega, o que se vê é uma realidade bem diferente.
É claro que não se conhece um país antes de visitá-lo, mas seria bom se mundo afora todos soubessem como as coisas funcionam no Brasil. Certa vez, absurdamente, me perguntaram como os bebês conseguem sobreviver num país de Terceiro Mundo. Outra vez, um colega de classe disse que sonhava em cobrir a Copa do Mundo, mas que tinha medo de morrer durante o mundial do Brasil. Todo esse preconceito não condiz com a realidade, mas dá para entender de onde o medo vem, não dá?
Helicóptero da PM abatido no Rio. Só mais um pouco de Brasil.

A parte boa é que, mesmo na Inglaterra, um país onde a imigração é um problema social, sempre tive uma boa reação quando digo de onde sou. O povo brasileiro, diferente de muitos outros que aqui chegam, é, sim, bem recebido. E, em todo lugar, torna-se inevitável ter um bom papo sobre futebol, mulher e praia.
Mas se os gringos tem uma visão distorcida sobre nossa nação é porque, durante seus 510 anos de história, o Brasil vendeu uma imagem incompatível com aquilo que realmente é. Por isso, como brasileiro, me estresso quando vejo notícias como aquela. Não por causa da nossa imagem e reputação no exterior, mas muito mais por permitirem deixar o nosso Brasil na mão de palhaços.

Link YouTube | Uma tentativa recente de criar uma outra imagem do Brasil. Funcionou para você?

publicado em 23 de Setembro de 2010, 09:27
E4c14111fbfb81a75b22984e3520ada9?s=130

Thiago Rocha Kiwi

É nosso correspondente em Londres. Jornalista, nascido e criado na selva paulistana, gosta das oportunidades desafiadoras. Apaixonado por informação e conhecimento, enxerga o trabalho como uma forma de evolução e a internet como revolução. No Twitter, @thiagokiwi.

Puxe uma cadeira e comente, a casa é sua. Cultivamos diálogos não-violentos, significativos e bem humorados há oito anos. Para saber como fazemos, leianossa política de comentários.

Sugestões de leitura