"O grito mudo dos invisíveis"

  • Nossos atuais Mecenas:
  • Selo jockey

Nota do Editor: Eu (Jader) convidei o pixador Cripta pra falar com o PdH em junho do último ano. Naquela época, entrava em vigor a lei que criminalizava oficialmente a pixação e obrigava qualquer pessoa a passar o número do CPF ao comprar uma lata de spray. Em contrapartida, esse pixador foi convidado a participar da 29ª Bienal de Artes de São Paulo, a expor o seu "vandalismo" na França e, agora em 2012, foi entrevistado, por caráter artístico, pelo New York Times e já está com as passagens reservadas para a Bienal de arte de Berlim. 

Hoje mesmo, dia 13 de março, abre no MuBE a exposição São Paulo Mona Amour, que contará com a exibição da obra URUBU(sic), de autoria do homem. Se você se interessar, aqui estão as informações.

Sei bem que o assunto é bem cascudo e que esbarra na discussão pragmática da propriedade privada, mas preste atenção no discurso abaixo e, caso queira abrir a discussão, vou achar do caralho e também participarei. Mas queremos ver discussões abertas, e não ofensas fechadas que afunilam qualquer diálogo. A fala agora é do Djan.

* * *

Começar 2012 saindo no New York Times e se preparando para representar o Brasil na 7º Berlim Biennale (temática sobre arte e política) é muito interessante, sem dúvida. Mas só estou seguindo em frente, continuando a trajetória, como uma sina traçada.

O ano passado foi um ano muito produtivo, consegui expandir a discussão sobre pixação para o meio acadêmico, através de debates e palestras seguidos de exibições do documentário PIXO que produzi sobre a pixação em São Paulo. Isso foi uma conquista de diálogo, já que há pouco tempo sequer a havia a possibilidade do assunto ser discutido como arte no campo acadêmico. Antes dessa abertura para discussão, o movimento era simplesmente reduzido a vandalismo sem a chance de defesa.

Pixação em Porto Alegre

Também aproveitei para registrar em vídeo a ação de pixadores de outros centros urbanos, como Curitiba (PR), Porto Alegre (RS), Belo Horizonte (MG), Rio de Janeiro (RJ), Salvador (BA) e Vitoria (ES). Em todos esses lugares, e em São Paulo, aproveitei para registrar os pixadores, promover exibições e debates sobre pixo em universidades federais e estaduais, também deixei minha marca nas paredes.

Foi muito interessante descobrir que a pixação ganha força nas capitais como um movimento consistente, cada vez mais tradicional e sofisticado nas ruas do Brasil (para desespero dos puritanos). A riqueza estética e tipográfica da pixação brasileira varia a cada estado. É como se cada letra carregasse a identidade da cidade. É uma comunicação visual muito forte, e foi novidade eu virar leigo do assunto de novo, ter que aprender a decifrar novas estéticas como um brasileiro que vai pra China e não sabe ler chinês.

Palestra na UERJ

Tudo isso deixa cada vez mais claro que a pixação vai muito mais além de ser somente tinta nas paredes, ou mero vandalismo. Não é mais possível ignorar a sua consistência política e artística. Isso não quer dizer que temos que ser aceitos pela sociedade, nem que agradamos. Não. O que ninguém realmente para pra pensar é: por que existem tantos pixadores? Será que não falta alguma coisa?

Não estou falando somente de São Paulo. É no Brasil todo. Além das capitais pelas quais passei, no Sul e Sudeste, várias outras do Centro Oeste, Norte e Nordeste estão cada vez mais pixadas. O cenário de abandono e miséria nas periferias de onde saem os pixadores é o mesmo em todo Brasil, sem boas escolas, bibliotecas, quadras de futebol, área de lazer, convivendo diariamente com repressão policial, desigualdade social, abuso de poder. Ouvi muitas historias de repressão contra pixadores, até mesmo alguns casos de homicídios.

O que vejo é que a pixação é a voz dos sem vozes, o grito mudo dos invisíveis.

Pixações em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro

Esses milhares de jovens das periferias viram pixadores porque não tiveram a oportunidade de aprender a pintar uma melancia fatiada. Se vivêssemos em um país justo, onde as oportunidades fossem iguais para todos, muitos problemas não existiriam. Se a pixação insiste em existir e se multiplicar pelo Brasil é porque falta alguma coisa. Se a pixação é considerada feia e agressiva por muitos é por que ela é o reflexo da própria sociedade que a criou. Como um espelho.

O mesmo exemplo serve para casos como o da poluição no rio Tietê: não adianta maquiar a cidade com projetos como o Cidade Limpa – a sujeira varrida para baixo do tapete sempre volta ao seu lugar a cada grande chuva.

Por isso na Bienal de Berlim uma pequena parte do movimento estará lá dando voz aos milhares que no Brasil não conseguem falar. Sem exotismo, mas sim como um ativismo político das ruas, que nasceu pela ausência do estado na vida das maiorias, que estão sempre à margem, aos redores, como urubus, sobrevivendo com as migalhas de um governo burguês de pão e circo, que governa apenas para uma minoria.

Enquanto as coisas não forem justas sempre haverá um muro pixado, enquanto houver insatisfação contra a ordem estabelecida vai existir pixação. Se calarem as vozes dos profetas, até as pedras falarão.


publicado em 13 de Março de 2012, 07:31
3c7b312cfa2aa9aebe6cb85dd5d4a306?s=130

Cripta Djan Ivson

Pixador e documentarista. Paulista de 27 anos, mora em Osasco, Zona Oeste de SP.

Puxe uma cadeira e comente, a casa é sua. Cultivamos diálogos não-violentos, significativos e bem humorados há oito anos. Para saber como fazemos, leianossa política de comentários.

Sugestões de leitura