O limite do humor é o humor sem limite?

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Uma coisa que eu venho dizendo com frequência é que vivemos na era do humor de borda. Sim, aquele humor que mais do que entreter, mais do que distrair, mais do que fazer rir, parece querer testar os limites possíveis do moral, do bom gosto, do razoável e do que o público consegue ou não aceitar como humor de verdade.

Num universo midiático saturado de piadistas, comediantes, imitadores ou apenas de caras que se vestem de mulher para quadros do Zorra Total, fica cada vez mais claro que o que chama atenção, o que gera buzz, o que consegue distinguir um “humorista” do outro é a capacidade de ir mais longe ou mais fundo no que antigamente se consideraria politicamente incorreto, grosseiro ou apenas de mau-gosto, vencendo quem gera o maior número de processos, escandaliza mais a comunidade judaica ou torna mais necessário que antes de entrar numa peça você assine um termo garantindo que não vai se ofender com piadas racistas.

Ou te derruba de um lado, ou de outro – ou te faz chegar em outra margem

E ainda que seja discutível o quanto disso é a sociedade evoluindo a ponto de superar de forma bem-humorada temas que outrora eram tabus e consequentemente escapando de uma proverbial “ditadura do politicamente correto” e o quanto é apenas grosseria e preconceito se defendendo sob o escudo da “liberdade de expressão” para contar aquelas piadas que fariam qualquer um ser expulso de sala de aula, a discussão sobre os limites do humor se torna cada vez mais atual e presente em nossas vidas. Nem que seja apenas porque todo mundo tem uma opinião em relação ao lance do Rafinha e da Wanessa Camargo. A minha, por exemplo, é a de que eu gostava mais da Wanessa quando ela cantava músicas românticas.

E outra área que sempre foi pioneira em testar esses limites e parece não ter perdido esse hábito é da publicidade. Seja com aquela propaganda da Gisele Bündchen que foi considerada machista, seja com os anúncios de cerveja que pareciam focar no público infantil ou com aquelas campanhas alemãs em que um dos outdoors era uma máquina de lavar enfiada dentro de nádegas humanas, o mundo da publicidade, cujo foco é sempre buscar as formas mais criativas e eficientes de divulgar um produto, nunca cessa de nos surpreender em termos de arrojo e imprevisibilidade. E dessa vez a ideia foi a de usar Hitler como garoto-propaganda de xampus. É, isso aí mesmo.

Evitando o questionamento óbvio de por que uma fabricante turca de xampus considerou que seria bacana e positivo associar sua marca a um ditador fascista sanguinário ou de quando foi que a Adolf Hitler virou um grande referencial de masculinidade, volta à tona a questão, já mencionada aqui no caso do humor mas também presente na publicidade, dos limites.

Até onde podemos ir pra fazer uma piada ou divulgar um produto? Em que assuntos a gente pode tocar e em que contexto eles podem ser tocados? É responsabilidade do poder público orientar esse tipo de questão? É nosso direito processar quando uma piada nos ofende?

Já sabemos qual é a opinião do Marcus Buaiz sobre isso, mas agora o PapodeHomem quer saber qual é a sua.


publicado em 10 de Abril de 2012, 06:35
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João Baldi Jr.

João Baldi Jr. é jornalista. Turn ons: quadrinhos, ficção científica, humor de borda e pão de fôrma com requeijão. Escreve no (www.justwrapped.me/) e discute diariamente os grandes temas - pagode, flamengo, geopolítica contemporânea e modernidade líquida. No Twitter, é o (@joaoluisjr)

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