O meu inferno de Dante e a primavera de Botticelli | Na estrada #12

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Durante o verão austral, o deserto do Saara se posiciona à frente do Sol e se deixa aquecer por horas a fio. A enorme área africana de nove milhões de quilômetros quadrados, tão grande quanto a própria Europa, formada por extensas dunas secas, montanhas rochosas e planícies áridas, esquenta.

O ar tórrido gerado na superfície da areia nua sobe para atmosfera e gera correntes de convecções gigantescas que invadem o Mediterrâneo com um vento quente e seco, aqui na Itália chamado de scirocco. Este ano, o scirocco foi nomeado "Caronte", devido à sua duração e intensidade. Começou em meados de Julho e continua firme e forte até estes últimos dias de agosto, deixando a península itálica e suas ilhas adjacentes a vagar pelo próprio inferno sob temperaturas que alcançam os quarenta e cinco graus.

É um calor insuportável.

Buscando Botticelli (Imagem: A Musa de Vênus)
Buscando Botticelli (Imagem: A Musa de Vênus)

Nesses dias, tudo que se deseja é estar dentro da água do mar. Assim decidimos ir a Funtanazza, uma pequena baía a vinte e quatro quilômetros de Arbus, aldeia de cerca de dez mil habitantes no sudoeste da ilha da Sardenha, onde está a casa de Luisa, minha esposa. Ali tenho passado os últimos verões austrais. Funtanazza é acessível por uma estrada estreita e tortuosa em meio a montanhas com nomes estranhos.

No caminho, do alto de uma dessas colinas, tem-se a visão da planície lá embaixo, que cobre quase metade da ilha. É o campidano, onde os romanos mantinham sua produção de trigo. Hoje observo pequenas propriedades agrícolas pontuadas por enormes torres de energia eólica.

Estavam todas paradas.

Caronte é assim, traz o ar quente do Saara e o deixa parado nesta ilha no meio do Mediterrâneo.

Caronte é, segundo o poeta latino Virgílio, o barqueiro que conduz as almas dos recém-mortos pelo rio Aqueronte, de águas ferventes, que delimita o inferno. Dante, em sua Comedia, pede a Virgílio que o guie até o inferno. Porém, Dante estava vivo e não podia entrar na barca de Caronte e é mandado para outras portas do inferno. Assim, Dante Alighieri, o pai da língua italiana, descreve os vários caminhos para se entrar no inferno.

“Deixai toda esperança, ó vós que entrais!”

Hoje tenho certeza que Dante escreveu seu capítulo mais conhecido sob a brisa de um desses infindáveis tempos de scirocco. Ano passado estivemos em Florença durante o verão, exatamente nos dias em que scirocco mostrava sua face. A cidade em si nunca foi minha preferida, apesar de ser a mais visitada por turistas, estudantes de arte, de línguas e intelectuais. É certo que era a cidade que eu mais gostaria de ter conhecido, mas o meu objetivo era unicamente realizar um sonho de infância: estar de frente a dois Botticelli, Primavera e Nascimento de Vênus. O museu Uffizi é a galeria que os abriga, bem como outras tantas obras renascentistas.

Quando pisei pela primeira vez na terra de Dante, há muitos anos, fui direto para a residência dos pais de Giuseppe, então noivo de Paola, irmã de Luisa. Teresa e seu marido, pais de Giuseppe, viviam num apartamento dentro do Palazzo Pitti, ex-residência dos todo-poderosos Medici.

Como não podia tirar foto de dentro da Galeria Uffizzi, acabei tirando uma de dentro prá fora
Como não podia tirar foto de dentro da Galeria Uffizzi, acabei tirando uma de dentro prá fora

O palácio data de 1458 e pertencia a um grande banqueiro chamado Luca Pitti e fora vendido à família Medici em 1549. Teresa era órfã de guerra, perdera toda a família durante aquele insano acontecimento dos anos 40. A guerra, mais uma vez onipresente. Assim, fora amparada pelo Estado, recém-criado após a derrocada da era fascista. Recebeu educação, emprego e um local para viver. Este local era um dos vários apartamentos deste grande palácio histórico, que fora transformado em museu. Pode parecer estranho, mas muitos outros órfãos preferiram morar em outros locais e o que sobrara eram estes antigos apartamentos incrustados neste majestoso palácio. Como é um prédio histórico, não pode ser modificado; Teresa e a família viveram décadas em condições não modernas.

Reclamavam dos sessenta e dois degraus que tinham que descer e subir todo dia, ou da calefação que não existia, das quase inexistentes tomadas para se instalar até a mais simples lâmpada. Para mim, uma viagem a um mundo completamente diferente, quase transcendental, ao passado.

Passei apenas duas noites no Palazzo. Entrávamos por um portão dos fundos, que dava direto ao Giardino di Boboli, que circunda o Palazzo. Construído no século XVI, o Giardino é ornamentado por um anfiteatro com um verdadeiro obelisco egípcio ao centro e um lago com uma fonte central protegida por uma estátua de Netuno e outros faunos. Labirintos verdes, caramanchões de trepadeiras exóticas, veredas de pinheiros toscanos e um sem número de esculturas espalhadas pelas trilhas que levavam a um cume que nos mostrava uma das mais esplêndidas vistas da cidade.

Depois de passarmos pelo Giardino encantado, entrávamos por uma galeria de pedras, pé direito altíssimo, escura, de corredores estreitos e galpões com obras de arte à espera de serem mostradas, até atingirmos o sopé de uma grande escadaria. Sessenta e dois degraus e um grande apartamento de salas amplas, quartos e uma cozinha com a velha lareira.

Lá tive uma das melhores refeições da minha vida. Teresa era da Puglia, terra conhecida por sua culinária, e nos servia inúmeros pratos. O primeiro deles foi o tradicional spaghetti com o simples molho dos tomates, tão doces quanto leves; depois Teresa serviu língua num molho de vinho tinto, aspargos frescos rapidamente cozidos, e alcachofras inteiras onde somente a base das pétalas era sugada junto a azeite extra-virgem.

Também me recordo de uns bolinhos fritos e o odor do verdadeiro orégano, selvagem na Puglia, do qual um belo pacote nos foi presenteado. Teresa era também funcionária da Galleria Uffizi e, assim, comprou nossas entradas com antecedência e não tivemos que enfrentar a longínqua fila. Finalmente, Primavera e Nascimento de Vênus. Descubro que ambos os quadros haviam sido encomendados para ornar a residência dos Medici, o Palazzo Pitti. Um ciclo se completa aleatoriamente, pois eu não sabia que ficaria um dia hospedado ali.

Tomates doces, aspargos frescos e pétalas de alcachofras numa barraquinha próxima a casa de Dante Alighieri
Tomates doces, aspargos frescos e pétalas de alcachofras numa barraquinha próxima a casa de Dante Alighieri

Depois fomos visitar a casa de Dante, numa pequena ruela próxima à catedral, aqui chamada de Duomo. No verão passado, o Duomo nos salvou a vida. A igreja é gigantesca, com pé direito altíssimo, escura e com uma temperatura amena e refrescante de caverna. Enquanto lá fora scirocco batia à porta, dentro se sentia o frescor de Primavera.

Um bosque de laranjeiras não muito altas de frutos maduros e troncos retos; oito figuras humanas levitam sobre um extenso gramado revestido por flores de todos os tipos e cores: não-me-esqueças violetas, lírios púrpuras, escovinhas ametistas, ranúnculos amarelos, papoulas vermelhas, margaridas brancas, violetas e amores-perfeitos magentas, jasmins malvas, gerânios carmins, junquilhos dourados, crisântemos prateados.

Um fauno seminu coberto por uma bata vermelha e sandálias de couro, com os braços levantados, cutuca a folhagem com um ramo seco; vestidos translúcidos e folgados realçam os corpos esculturais de três graças, sensualmente descalças, brincando de roda e sendo miradas por um cupido que voa sobre uma jovem grávida, altiva, ao centro da sombra das mesmas laranjeiras, que nos encara com suas feições doces; outra linda jovem caminha e esparrama pelo chão escuro as flores que brotam de sua túnica; uma última moça rechonchuda, de vestes transparentes coladas ao corpo nu, cabelos longos e desajeitados, olha com espanto um ser masculino alado, de roupas escuras e feições bufas que a abraça e lhe assopra a cabeleira por detrás das árvores, deixando-a pousar ao solo.

Primavera, de Botticelli
Primavera, de Botticelli

Enquanto viajávamos num carro sem ar-condicionado pela tortuosa estradinha rumo a Funtanazza, acompanhados por Caronte, a única coisa que nos salvava era o visual das montanhas. Bosques de carvalhos de folhas verdes numa matriz de pastagens ocres pontuadas por ovelhas brancas, afloramentos rochosos cinzas e pratas no cume dos picos formando desenhos de rostos humanos.

Chegando à praia, sem qualquer infraestrutura, sem barraquinhas, sem vendedores e sem sombra, tudo que nos restava era entrar na água, no mar. É por isso que aqui se diz “vou ao mar” e não “vou à praia”. A baia de Funtanazza tem águas rasas turquesa pálido, estáticas e translúcidas.

As águas azul turquesa das baías da Sardenha
As águas azul turquesa das baías da Sardenha

Dentro da água fresca, o paraíso, a Primavera de Botticelli. Em terra, o inferno de Dante.

Mais fotos

Casa de Dante Alighieri
Casa de Dante Alighieri

A catedral de Florença, o Duomo
A catedral de Florença, o Duomo

Minha releitura de “primavera”: lápis de cor sobre contorno do original em papel A4
Minha releitura de “primavera”: lápis de cor sobre contorno do original em papel A4

publicado em 20 de Junho de 2013, 17:22
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Marcos Rodrigues

Fez doutorado (PhD) em zoologia pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e é professor na Universidade Federal de Minas Gerais, tento publicado aproximadamente 60 artigos científicos.

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