Orientações sobre o alinhamento normal e “deformidades” das pernas de crianças

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Só neste início de 2009, já recebi 2 pacientes em meu consultório com queixa extremamente comum, e grande preocupação dos pais. Como acredito que muitos dos leitores aqui serão pais um belo dia, resolvi deixar minha contribuição para tranquilizar a todos. E também para resolver uma grande cobrança que fazem à nós ortopedistas.

“Doutor, meu filho está com as pernas tortas”

Ou

“Minha filha tá andando com o pé todo virado pra dentro”

Ou

“Meu filho está com o joelho em tesoura, e tropeça muito”

E finalmente

“O pé da minha filha é chato. Não dá pra passar uma botinha pra corrigir não?”

Louvável e compreensível a preocupação dos pais com o alinhamento dos membros inferiores e os pobres pezinhos dos infantes. Até porque, não é igual ao dos adultos e durante o desenvolvimento ocorrem várias fases e mudanças no eixo dos membros. Vamos analisar o desenvolvimento normal das pernas da criança.

Antes de mais nada, alguns conceitos sobre o alinhamento dos joelhos

Diferentes formatos do ângulo do joelho

Ângulo tíbio-femoral: Como o próprio nome já diz, é o ângulo formado entre o fêmur (osso da coxa) e a tíbia (osso da perna).


  • Geno varo: É a famosa perna arqueada, como se fosse um cowboy.


  • Geno valgo: É a “perna em tesoura”, “perna em X” ou “joelhos para dentro”. Devido à maior largura da bacia na mulher (afinal, todos nós fomos feitos para passar por ali ao nascer), as cabeças femorais, por estarem mais afastadas, tendem a trazer o fêmur para uma posição de valgo acentuado. Leia-se: A perna em X é muito mais comum nas mulheres adultas.

Isto posto, vamos ao que os pais devem saber sobre o desenvolvimento normal de seus filhos.

Do nascimento a 1 ano de idade

Reflexo da posição intrauterina da criança, ocorre varismo dos joelhos, leia-se, temos um mini-cowboy. Esta angulação mede aproximadamente 15 graus, mas durante o 1º ano, tende a se neutralizar. Com 1 ano, quando a criança começa a andar, a tendência é que os joelhos estejam retos. Lógico que cada caso é um caso, e isto varia, mas é uma regra genérica.

Entre 1 e 3 anos

À medida que a criança começa a andar e seus membros inferiores a receber carga o joelho que se encontrava em varo, ou neutro, apresenta tendência acentuada ao valgo. Entre o segundo e terceiro anos, atinge-se o máximo de valgo, até 12 graus.

Com os joelhos bastante para dentro é notável que a marcha da criança é algo totalmente desajeitado. Ela tropeça bastante, pois bate um joelho no outro. Além disso, o posicionamento em valgo causa certo grau de rotação “para dentro” da tíbia, o que se traduz na “marcha com o pé para dentro”.

Graças a todas essas alterações, é nesta fase que os pais procuram o ortopedista.

Conforme a idade, vai mudando o desenvolvimento

Dos 3 aos 7 anos

Até os 7 anos de idade, a tendência é que, com o desenvolvimento normal, ocorra regressão do valgo até a normalidade do adulto, cujos valores são 8 graus na mulher e 7 graus no homem (Sim, o joelho adulto normal é levemente em X).

O pé chato

Outra queixa bastante comum na criança é o famoso pé chato, ou seja, inexiste o arco plantar normal. A criança pisa e o pé “chapa” no chão. Apesar disto, ao exame físico, existe sim um arco. Os pais devem ser tranqüilizados, pois em 95% dos casos os pés evoluirão para a normalidade. Apenas 5% necessitarão de tratamento, invariavelmente cirúrgico, e feito em idade mais avançada. O que me leva ao próximo assunto.

Desmistificando as malditas botas ortopédicas

Eu cresci numa cultura de “coloca uma botinha ortopédica que resolve o pé chato”, ou “uma palmilha vai corrigir isso”. Eu mesmo nasci com o pé chato e usei bota ortopédica quando criança. Se eu soubesse o que sei hoje...

Pé chato

O fato é que bota ortopédica não serve para NADA. Estudos e mais estudos foram feitos e comprovaram por A mais B que a grande vitória das botas ortopédicas no passado se deve à desinformação. Raciocinem, os pais chegam no consultório com o filho andando torto, o médico prescreve a bota e a criança continua seu desenvolvimento normal, e oooohhhhh, ficou boa, que milagre! Aí quem leva o crédito é a bota. Mais fácil que isso só comer mingau sem dentadura.

Vamos aos fatos:


  1. Deformidades que vão evoluir para a normalidade vão ficar boas com ou sem botas ortopédicas. Botas ortopédicas não corrigem angulação de joelhos, nem pés virados para dentro ou para fora.

  2. Lembram-se dos 5% dos pés chatos que não vão se curar sozinhos? Pois bem, experimente colocar uma bota “ortopédica” neles. Eles têm um incrível poder de deformar qualquer bota ou palmilha. Só na marra mesmo, leia-se cirurgia.

  3. No afã de prescrever a bota, o médico pode passar por cima de toda uma avaliação clínica, que é essencial para descartar um desenvolvimento anormal (leia-se doenças como tíbia vara, doença de Blount, e outras condições que requerem tratamento diferenciado)

Concluindo

Com essa cultura obsoleta de bota ortopédica que ainda predomina hoje em dia, às vezes somos colocados em situações complexas, com os pais cobrando a prescrição de uma bota, e não aceitando as explicações que dei acima. Até acharem algum colega menos criterioso, que para se livrar da aporrinhação prescreve a tal bota ou uma “palmilha corretora”. E a lenda se perpetua.

Na imensa maioria dos casos a criança apenas precisa de uma avaliação para descartar anomalias mais sérias e acompanhamento. Só isso.

Espero com isso, prestar um serviço a todos os pais e futuros pais e aliviar a barra de meus colegas futuramente.

Dr Health, que nem com todos esses argumentos consegue convencer meus pais que não foi a bota que consertou os meu pés chatos.


publicado em 21 de Janeiro de 2009, 22:01
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Mauricio Garcia

Flamenguista ortodoxo, toca bateria e ama cerveja e mulher (nessa ordem). Nas horas vagas, é médico e o nosso grande Dr. Health.

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