Palmadas, chineladas e porradas da educação ausente

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O governo federal enviou dia desses o projeto de lei 2654/03, que proíbe pais de utilizarem castigos corporais na educação de seus filhos. Ainda não aprovada, a medida já é conhecida como “lei antipalmada” porque proibirá até aquele (dito) inocente e pedagógico tapinha.

Certamente você se assustou, pois já deve ter levado umas palmadas quando criança e acha o método educativo, válido. Talvez nunca tenha nem pensado que isto pode ser considerado violência. E é?

Por supostamente ferir o livre-arbítrio, interferindo dentro de casa, são muitos os comentários negativos que reagem à decisão do governo. Tem quem ache que as palmadas são educativas e necessárias (como o Marcel) , tem quem se incomode com o fato do governo estar entrando na sua casa e colocando ordem à sua maneira (como a Eliane Brum e o Hélio Viana). Afinal, o filho é seu e você faz o que quiser, não parecia? E agora, como educar sem bater? Como lidar com aquele pequeno ser amedrontador: a criança?

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Quem lida com crianças frequentemente, ou já se aproximou de uma num raio de cinco metros, deve ter percebido que é necessário muito faro para lidar com a questão: elas são implacáveis.

Também já deve ter passado por você uma certa vergonha alheia, seguida de muita pena, daqueles pais que, no meio do shopping, tentam controlar os berros do filho que quer chamar atenção. A criança quer sorvete, bolo, ficar no chão, andar pulando... e os pais não sabem como reagir. Logo, a palmada acaba sendo vista como uma medida válida e certeira. Basta se utilizar dela para ver algum resultado instantâneo.

Apesar de parecer inocente, a palmada não é vista deste modo por muitos especialistas. A campanha “Não bata. Eduque” , por exemplo, chama a atenção dos pais para as desvantagens da “escolha” da palmada como método. O movimento visa famílias cujas crianças são alvo de grandes violências domésticas: que são maltratadas, humilhadas e que sofrem traumas por conta destes abusos. No entanto, é ressaltado que o abuso começa antes. Na simples chinelada.

A antropóloga Gilda de Castro escreveu incorformada com essa “intervenção absurda do Estado na instituição que alicerça a sociedade”. Segundo ela, “os pais têm serenidade para exigir a disciplina desejada” de seus filhos, desde que o Estado garanta suas condições básicas de sobrevivência: saúde, educação, moradia. O que a autora esquece é que a violência acontece em todas as camadas da sociedade e que muitos pais não têm serenidade na hora de educar seus filhos. A palmada não é uma simples questão de escolha. É uma saída impulsiva, uma explosão raivosa, algo momentâneo de resultado imediato.

Uma educação baseada no diálogo, para a promoção de uma cultura de não-violência na nossa sociedade, seria a base deste projeto de lei. Não bater não é sinônimo de ser permissivo e ausente, pelo contrário, é uma forma de dialogar, entender, de se apropriar da educação daquele ser ali na sua frente.

“O que queremos é apenas dizer que é possível fazer as coisas de forma diferenciada", justifica o presidente Lula, para mostrar que a lei seria o primeiro passo para uma cultura de não-violência. O fato é que, por meio dela, o governo tenta dizer o que é certo para as pessoas, mas sem (justamente) educá-las. É uma palmada nos pais que, sem este recurso, não sabem como agir. Pois não basta não bater: não colocar limites também é muito nocivo para a criança.

Será que estamos perdendo tempo discutindo uma lei? E se estivermos errando o foco, o alvo?

É interessante notar como as pessoas ainda associam imposição de limites e respeito com o fato de bater. Nas discussões sobre esta nova lei, o medo é grande da falta da palmada tornar a educação dentro de casa desmoralizada. No entanto, quando partimos para a agressão com uma criança (por menor que seja o tapa, o beliscão e até o grito) estamos informando a ela que não sabemos lidar com a situação como “gente grande” e por isso temos que recorrer às mesmas armas que ela tem em mãos. Como somos maiores, mais fortes e gritamos mais alto, ganhamos.

Muitas vezes, os pais que recorrem aos castigos físicos são os mesmos que, justamente, não colocaram limites e criaram uma criança excessivamente mimada. É preciso entender que educar é mais do que um diálogo, uma ação, um momento, um fim. É um processo que acontece dentro de casa, mas que engloba, sim, a sociedade. Não é novidade alguma que os pais criam os filhos para o mundo e não por vaidade ou carência. Ou, ao menos, deveria ser assim.

Uma educação sem qualquer tipo de violência e com regras, limites e moral é totalmente possível e muito eficiente. O cerne deste problema é que queremos que os pais tenham estabilidade emocional, saibam educar e transmitam seus valores. No entanto, isto não acontece com a simples criação de mais uma lei. É preciso que esta cultura da não-violência se instaure e seja entendida e abraçada por todos. Precisamos primeiro educar os pais, para que eles possam educar seus filhos.

Pois se ainda não conseguimos defender seriamente as crianças vítimas de grandes abusos domésticos, como vamos controlar cada palmada dentro de casa?


publicado em 29 de Julho de 2010, 05:49
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Isabella Ianelli

Pedagoga interessada em arte e educação. Escreve no blog Isabellices e responde por @isabellaianelli no Twitter.

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