Quando ser criativo é um erro

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Percebi algo na Universidade Federal de São Carlos, onde estudo: do grande número de produções científicas publicadas, a maioria é composta por revisões de trabalhos antigos e reforços para bases já estabelecidas. Esta realidade se repete na maioria das universidades do mundo e, por isso, chego à parte deprimente da minha observação: nosso sistema de ensino é falho.

Mais um tijolo na parede?

O "nosso sistema de ensino" não se refere exclusivamente ao Brasil ou a alguma região isolada. O "nosso" em questão alude a todo o mundo conhecido como civilizado. Reparem que o sistema educacional do planeta segue algumas regras básicas como a hierarquização de ciências – colocando no topo as ciências exatas e na base as artes e a educação física –, o culto à meritocracia, além da especificação extremada. Estas regras básicas coincidem com o início desta tentativa de  padronização educacional. Ele está baseado nos moldes franceses de pedagogia e datam do fim do século XIX e início do século XX. Expor a origem cronológica destas bases educacionais é fundamental para entender como elas surgiram, pois a época de sua gênese – a Segunda Revolução Industrial – estava no seu auge e milhares de pessoas se apressavam para trazer ao mundo maravilhas movidas pelo novo combustível do planeta.

Hoje, passados quase dois séculos do seu nascimento, percebemos que a Academia não fez mais do que aperfeiçoar este velho modelo de ensino; em contrapartida, o mundo em 2011 não é uma versão atualizada do mundo de 1850. Pelo contrário, o século XXI nos trouxe um caminhão de novas perguntas.

O fim do "certo" e "errado"

O erro inicial do nosso sistema de educação é a hierarquização de matérias. No início do século, esta valorização das ciências exatas em relação às outras encontrava algum sentido, pois a tecnologia de ponta daquela época se baseava em criar máquinas. Atualmente, as pesquisas e descobertas mostram cada vez mais que os conceitos de “máquina", "psicológico", "sociológico" e "orgânico” se relacionam muito mais do que pensávamos outrora. Neste cenário em que próteses são controladas pelo pensamento e arte se mistura com biologia não há mais espaço para formar crianças que acreditem em um futuro em que quem tem mais habilidade com matemática é mais valorizado do que alguém que tem facilidade com artes. Esta mistura de matérias só pode ser possível em um sistema de ensino de grande flexibilidade, onde conceitos como “certo” e “errado”, caso não desapareçam, tenham menos valor do que no atual.

Um aluno falho segundo as regras atuais.

Outro aspecto sobre a falência do sistema de educação, e este corresponde mais à visível escassez de criatividade que abrange nossos tempos, é a chamada meritocracia. Ou seja, aquela pessoa que faz certo deve ser mais valorizada do que aquele que erra. Contudo, seguindo este raciocínio, errar aparece como pior resultado possível de uma experiência e muitas vezes é encarado como pior do que não tentar, quando já é comprovado pelo tempo que as maiores ideias e invenções vieram de sucessivos erros. A intenção aqui não é afirmar que ser criativo é ser errado, mas admitir que conviver de forma cordial com a possibilidade do erro é o primeiro passo para uma nova ideia. Mexer com o desconhecido é primordial para a criatividade. Ora, não é óbvio que ninguém sabe mexer com um invento antes que ele seja inventado?

Este culto pela correção, pela por do que é "certo", tem uma intrínseca relação com outra característica retrógrada da forma como as pessoas são educadas: a especialização.

Cada vez mais os cursos acadêmicos assumem uma atitude autista em relação ao mundo e focam seus esforços apenas na formação do aluno em determinadas fontes de um conhecimento especifico. A lógica deste erro é básica: se alguém só aprende uma coisa e esse conhecimento deriva de fontes mais velhas que ele, a probabilidade de repetição é muito maior do que a de invenção. Em um mundo repleto de informações e acessos, a coerção acadêmica para que nós nos tornemos especialistas é extremamente descabida. Estamos em uma época de diversidade e é a hora de criar novas profissões, novas formas de melhorar o mundo, de repetir menos e inventar mais.

Ao observar os erros cometidos pelo nosso sistema de educação, percebemos que a maioria deles se dão por uma inversão de valores. A educação que deveria gerar criatividade e, por consequência, renovar a si mesma constantemente, hoje trabalha para se manter intacta. Vivemos numa época em que o mundo passa por revoluções culturais e tecnológicas a cada semana, modificando estruturas que até então eram consideradas inabaláveis. O planeta precisa de pessoas que acompanhem este ritmo, com novos conceitos e atitudes, e o principal agente na formação dessa nova geração é a Academia, que ainda parece descompassada em relação ao ritmo dos novos tempos.


publicado em 09 de Julho de 2011, 11:12
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Evandro Cruz

Sarcástico, calado e nerd. Já foi de carregador de móveis a editor-chefe de revista digital. Escreve desde os 14 anos, é apaixonado por basquete, livros e cinema. Hoje divide seu tempo entre o curso de Ciências Sociais e a criação de textos para internet. Twitter: @evandronash

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