Quanto vale a palavra de um homem?

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Já broxei. Já fali. Já fui abusado sexualmente. Já dei uma de esperto e prejudiquei pessoas. Já contei mentiras para obter vantagens. Já me ferrei muito.

Quantas dessas coisas você já admitiu para alguém? Ou melhor, quantas delas já admitiu para si mesmo?

Uma das lendas mais conhecidas da Idade Média é a história do Rei Arthur. Numa das versões contadas por Walt Disney, A Espada era a Lei, é narrada a trajetória de um jovem cavalariço chamado Arthur que sonha em se tornar cavaleiro. O desafio para isso: tirar uma espada mágica encravada em uma pedra para ser coroado rei da Inglaterra.

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Todos os homens do reino já tinham tentado tirar a espada da pedra. Ricos, bonitos, fortes e poderosos. O mago Merlin sabia que Arthur seria o rei e começou um grande treinamento para refinar seu caráter. Até que o jovem, despretensiosamente, imaginando que seria uma tentativa divertida, se arriscou. E a espada saiu da pedra com facilidade.

O que o jovem Arthur demonstrou de valor com o passar do tempo para se transformar na lenda que o consagrou? Ele tinha firmeza de propósito. 

A rigidez de caráter

O que mais ouço das mulheres no consultório são queixas sobre os homens e as suas imposturas diante da vida. Elas descobrem isso nos momentos de maior provação, como uma gravidez inesperada, a perda de um emprego, uma traição ou uma simples broxada. Quando o homem perde, de alguma forma, sua potência pessoal é que a verdade dos fatos aparece. Nessa hora se revela o embuste.

Sempre avalio o efeito psicológico do homem que nunca consegue ser honesto em seu cotidiano. Qual o preço dessa megalomania travestida de ousadia, coragem e firmeza de caráter? Um caráter construído em imagens de força, robustez e sucesso pessoal.

Quantas vezes você já foi surpreendido por pessoas "sem palavra"? Juravam de pés juntos que cumpririam sua palavra e, na hora da ação, recuavam sob a alegação de impossibilidade ou "força maior".

Há homens não pontuais, com quarto bagunçado, vida financeira desonesta, promessas de amor mentirosas e pactos não cumpridos. Você já deve ter conhecido alguém assim. E, pior, já deve ter sido assim. Ou ainda é. Qual a credibilidade que um homem assim dá a si mesmo?

Para qualquer coisa que ele inicia, surge uma voz em seus pensamentos gritando:

"Você sabe que não levará isso até o fim!"

As pessoas à sua volta o verão como um tratante e alguém em quem não se pode confiar. Ninguém arriscaria perder a mão no fogo por tal homem. Sua legitimidade será sempre questionada. Sua palavra não tem peso moral. Seus conselhos não são levados à serio. Sua reputação será como um isopor na correnteza.

Você é um homem ou um rato? A resposta fica difícil quando é o rato que aponta o dedo e diz: "Você mente"

O que corrói a vida emocional de um homem não é a baixa autoestima. Eu prefiro chamar de falta de integridade consigo mesmo. Isso é que leva o sujeito a não confiar em si. Se ele não for um psicopata, cedo ou tarde essa vida construída em falácias sucessivas irá desmoronar. Fatalmente ele irá enfrentar um dilema moral que não poderá ser resolvido com nenhum truque barato.

Diante do nascimento de um filho com grave deficiência mental, qual é o valor de sua habilidade em fazer trambiques e levar vantagem em cima da concorrência?

Quando sua mãe está gravemente doente, prestes a morrer, o que ele poderia fazer usando sua lábia cheia de um-sete-um?

Depois de sofrer um acidente e perder a mobilidade das pernas, qual o valor daquilo que ganhou em anos de alienação mental no trabalho?

No confronto do eu-real que age e o eu-ideal que fantasia, ainda existe um abismo. Com o tempo, sua juventude, beleza e dinheiro não conseguirão sustentar o vazio de seu caráter. Poderá enganar muitas mulheres, muitos chefes e funcionários, mas secretamente saberá que é uma farsa.

Como defesa psicológica, ele poderá projetar esse vazio no mundo externo. Será um paranoico, cético, ciumento, desiludido, desconfiado da idoneidade de todos. Para onde quer que olhe, verá pessoas hipócritas e mentirosas. Alegará que ninguém mais presta no mundo e suas relações pessoais se esvaziarão. Suas mentiras serão sustentadas da mesma forma que um malabarista chinês equilibra pratos. Um a um, os pratos quebrarão. As pessoas se afastarão e suas emoções e falas serão vazias de conteúdo.

O fio de bigode pode estar fora de moda, mas num mundo cheio de fakes e ilusões que a mídia constrói sobre nossos delírios pessoais, a palavra coerente com os gestos ainda é a única garantia que possuímos. Penso que as crianças e as mulheres são as pedras onde nossas espadas morais estão cravadas. Elas são excelentes sensores de nossas incoerências pessoais. Se conseguir convencê-las no longo prazo, pode ter certeza que a espada já estará nas mãos do verdadeiro rei.


publicado em 01 de Dezembro de 2011, 08:15
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Frederico Mattos

Sonhador nato, psicólogo provocador, autor dos livros "Relacionamento para Leigos" e "Como se libertar do ex". Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva a felicidade, lava pratos, medita, oferece treinamentos de maturidade emocional no Treino Sobre a Vida escreve no blog Sobre a vida. No twitter é

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