Qual é a cor da Turma da Mônica? (Racismo e normalidade – Parte 2)

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É impossível falar de racismo sem falar de normalidade. O racismo nada mais é do que uma implementação radical da normalidade. Só existe um “outro” que pode ser excluído porque existe uma normalidade intolerante que o define fora dela.

Vamos ver como isso funciona na prática.

A cor do faxineiro

Estava lendo um romance americano. Um dos personagens é faxineiro de escola. As crianças fazem pouco dele. Quando criança, seu pai (que batia na mãe) massacrou toda sua família, menos ele.

Quinhentas páginas depois, sou pego de surpresa pela descrição dos cabelos ruivos de sua irmã. Percebo, de repente, para minha imensa surpresa, que passei esse tempo todo visualizando-o... negro.

Racismo é isso. É isso milhões de vezes, todos os dias, das mais repetidas maneiras, até que se transforma em um sistema de motor contínuo.

Por que os personagens de anime são sempre brancos?

Uma pergunta que já vi muita gente se fazer: por que todo mundo tem cara de ocidental (leia-se, de branco) nos desenhos animados japoneses?

A pergunta é interessantíssima. Você já se perguntou isso? Eu já.

Como sempre, a pergunta revela mais sobre nós mesmos do que a resposta revela sobre os japoneses.

A resposta é simples: para os japoneses, os personagens de anime SÃO japoneses. NÓS é que os vemos como ocidentais.

Um homem normal.
Um homem normal.

Observe o boneco palito acima. Quem é essa pessoa?

Você provavelmente pensou que era um homem branco. Afinal, esse é o ser humano normativo em nossa cultura.

Para que o boneco palito representasse outro tipo de pessoa (esse outro que só pode existir em oposição a um normal normativo), características adicionais teriam que ser mostradas: asiático, olho puxado; mulher, saia, velho, bengala; negro, um afro; índio, cocar, etc.

Na falta desses marcadores de alteridade, ou seja, de diferença, o boneco palito é naturalmente, automaticamente percebido como representando o ser humano normativo.

Assim como, ao ler um livro, achamos que todos os personagens são brancos, a não ser que sejam explicitamente descritos como não-brancos. Via de regra, o personagem só vai não ser branco se houver uma razão específica no enredo para ele não ser branco. Ou se, como no exemplo que dei acima, ele desempenhe uma função tipicamente subalterna.

(Essas observações sobre bonecos-palito, anime e Marge Simpson foram em larga medida parafraseadas do excelente artigo de Julian Abagond, “Why do the Japanese draw themselves as white?” )

Qual é a cor da Marge Simpson?

Observe a Marge Simpson. Ela é branca?

Concentre-me, leitor. Estamos aqui pra falar de racismo.
Concentre-me, leitor. Estamos aqui pra falar de racismo.

Se você é como eu, a questão com certeza nunca lhe passou pela cabeça, mas a resposta é óbvia:

"Claro, ué! O que mais ela seria?"

Só que a pele dela é amarela e seu cabelo é um afro azul. Você conhece alguma pessoa branca assim? NENHUMA das características físicas da Marge Simpson remete a uma pessoa branca.

Então, por que sempre foi óbvio e auto-evidente, tanto pra você quanto pra mim, que ela era branca?

É simples: a normatividade se define pela ausência.

Portanto, na ausência de características físicas que remetam a outras raças (nem mesmo o afro azul é suficiente pra isso), a Marge por default é enquadrada na norma, ou seja, é vista como branca.

Esse processo de enquadramento normativo é tão forte que, mesmo ela tendo um afro, mesmo ela não tendo nenhuma característica física intrinsecamente “branca”, se eu te dissesse que ela é negra, isso iria te soar imediatamente ridículo, nonsense, talvez até engraçado:

“Claro que a Marge Simpson não é negra, Alex! Não PODE ser! Não faria nenhum sentido!”

Pós-chapinha.
Pós-chapinha.

Um breve aparte tristemente necessário

Escrevo e ensino sobre raça e literatura há muitos anos. Tenho experiência: sei que, nesse exato momento, muitos leitores estão começando a se sentir atacados e defensivos. Entenderam que considerar a Marge Simpson branca é um tipo de racismo e, como sempre pensaram nela assim, estão achando que eu os chamei de racistas. Em suas mentes, já estão se armando contra o texto e justificando suas posições.

Resista a esses pensamentos, amigo leitor. Nada pode ser mais narcisista e egocêntrico do que achar que tudo é sempre com você. Eu sei que você não é assim: nem racista, nem narciso. Então, seja forte. Eu não estou te acusando de nada. Eu também sempre vi os Simpsons como brancos. Eu, você e todo mundo.

Ou pode ser que você tenha entendido meus argumentos como algum tipo de teoria da conspiração. Que estou acusando o establishment, as elites, a mídia, a equipe criadora dos Simpsons, etc etc, de serem racistas ou, pior ainda, culpados pelo racismo no mundo.

Outra vez, resista a esses pensamentos, amigo leitor. Isso é apenas seu cérebro racional buscando culpados para tudo. Mas não existem culpados. Não existe ninguém, nenhuma pessoa, nenhum grupo, que a gente possa caçar, capturar, converter, matar, e então resolver o problema.

O mundo não é assim porque alguém decidiu que seria. O mundo é assim porque ele foi se criando assim através da interação de bilhões de pessoas ao longo de incontáveis séculos.

A questão não é individual, não tem nada a ver nem comigo nem com você enquanto pessoas.

A questão é: quais são as forças culturais que nos fazem, eu e você, vermos os Simpsons assim?

O boneco-palito é o que colocamos nele

No Brasil e nos EUA, duas sociedades escravistas colonizadas por brancos europeus e sustentadas pelo trabalho de negros escravos, o branco é sempre o normativo. Se não houver uma clara marcação, vamos sempre presumir brancura. Em tudo.

No Japão, a norma é totalmente diferente, mas o raciocínio é o mesmo: na ausência de uma marcação clara do outro, a norma é sempre presumida.

Então, nós, ocidentais, não detectamos nenhuma marcação específica de alteridade nos personagens de anime (as mesmas marcações que também não detectamos na Marge Simpson), e prontamente concluímos que são tão brancos quanto ela – ou seja, nós os enquadramos na NOSSA norma, a brancura. E depois, inocentemente, ainda nos perguntamos:

“Pôxa, por que será que os japoneses desenham seus personagens sempre brancos, hein?”

Só que os japoneses olham para os MESMOS personagens e, na ausência de marcação de alteridade, os veem como a SUA norma, ou seja, como asiáticos.

(Aí você se pergunta: como então os japoneses representam brancos nos desenhos de anime? Quando querem que um personagem seja visto como branco, ele via de regra tem os cabelos loiros, olhos claros e, principalmente, narizes longos, características tradicionalmente consideradas não-asiáticas.)

É como se os personagens de anime fossem todos bonecos-palito. Nós olhamos pra eles e pensamos que são brancos. Os japoneses olham pra eles e pensam que são asiáticos.

O boneco-palito, sem marcadores, é o que a gente quer que ele seja. Ele é a puta do nosso olhar.

(Sobre bonecos-palito, confira esse artigo incrível sobre como homens e mulheres são representados nas portas dos banheiros: “Go where? Sex, gender and toilets”)

A brancura presumida

Imagine que uma amiga vive querendo te apresentar a uma colega dela que tem tudo a ver com você. Descreve a amiga em detalhes: estudou na PUC, tem mestrado em letras, também adora Star Trek, vôlei e comida tailandesa, é alta como você gosta, olhos cor-de-mel, tudo de bom.

Aí, você encontra a menina e leva um susto tremendo ao ver que ela é... negra!

Pode confessar, amigo leitor: você também não ficaria surpreso? Eu ficaria. E não é porque somos racistas, mas sim porque, em nossa sociedade, a brancura é sempre presumida.

Se nossa amiga não descrever a colega com termos como “mulata bom-bom”, “negra lindíssima”, “japinha foférrima”, etc, você pode ir ao encontro tranquilo na certeza de que a moça é branca.

Nesse ponto, algum leitor pode levantar a seguinte objeção:

"É, mas aí você já está presumindo que eu e a amiga somos brancos classe média, né? Só que nem todo mundo é assim."

Verdade. Eu não acho que todo mundo pertence a esse grupo, mas com certeza é para esse grupo que estou falando. A lição do texto, sobre normalidade e privilégio, quem precisa aprender são os brancos classe média de Perdizes e Ipanema.

Mas posso garantir o seguinte: a sociedade é composta de vários subgrupos onde o conceito especifico de normatividade pode até ser diferente, mas o processo, em si, nunca muda.

Se cinco negros da periferia estiverem conversando sobre uma menina e se não for mencionado nenhum marcador de diferença, é presumível que ela também seja uma negra da periferia. Se fosse branquinha dos Jardins, esse detalhe seria ressaltado e enfatizado.

A turma toda – ou melhor, só os personagens importantes.
A turma toda – ou melhor, só os personagens importantes.

A cor da Turma da Mônica

Pense na Turma da Mônica. De que cor eles são?

Fácil, né: são "normais", da cor "normal".

E como sabemos disso?

Simples: se fossem pretos, seriam desenhados como o Jeremias; asiáticos, como o Hiro, indígenas, Papa-Capim.

O Jeremias é o peixe fora d'água ali à esquerda. Sabe qual é, o único pintado com uma cor de pele diferente.
O Jeremias é o peixe fora d'água ali à esquerda. Sabe qual é, o único pintado com uma cor de pele diferente.

Além do negro, do índio, e do nissei, também temos um mudo, uma cega, um cadeirante, até um morto. Todos com sua diferença bem marcada e muito explicitada.

Mas, se existe um personagem negro, um índio, um nissei, etc, cadê o personagem branco? Cadê o personagem que teria sua brancura tão acentuada e explicitada quando a “indianice” do Papa-Capim ou a negritude do Jeremias?

Não tem. Claro que não. Porque a brancura, por ser a norma, não é nunca um grupo de características determinantes, mas sim uma conspícua AUSÊNCIA dessas características.

Branco é o normal. Brancos são todos aqueles não-alterizados por nenhum marcador de diferença. Brancos são todos aqueles que, por não serem “o outro”, são, não por coincidência, os personagens principais: Mônica, Cebolinha, Cascão, Magali, Chico Bento, Tina, Rolo e vários coadjuvantes, do Franjinha ao Xaveco.

Ou seja, apesar de existir um grande elenco de minorias, o seu status de coadjuvantes eternos só faz acentuar a normatividade do núcleo duro.

Essa ilustração, única que encontrei com todas as minorias, não é de nenhuma revista de banca, mas de um número especial encomendado pela Unicef.
Essa ilustração, única que encontrei com todas as minorias, não é de nenhuma revista de banca, mas de um número especial encomendado pela Unicef.

(Calma, amigo leitor. Sei que estou mexendo com os ícones da sua infância. Mas, assim como não acusei nem você e nem a equipe criadora dos Simpsons de racismo, também não estou acusando o pobre Maurício de Souza. A ideia aqui é somente tentar descobrir de onde vem e como é construída nossa visão de mundo. E, querendo ou não, a visão de mundo de quase todo brasileiro com menos de cinquenta anos foi construída, em parte, pela Turma da Mônica.)

Então, longe de acusar Maurício de Souza de racismo, dá pra ver um esforço consciente e consistente, ao longo das últimas décadas, de representar vários tipos diferentes de brasileiro. Hoje, praticamente qualquer criança do Brasil tem o "seu" personagem da Turma da Mônica com o qual se identificar.

Mas é essa própria diferenciação entre os personagens-outros e os personagens-normativos que enfatiza e reforça ainda mais a ideia de que HÁ uma norma. Sim, existem entre nós negros e índios, nisseis e cadeirantes, olha eles aqui ó!, mas tirando essas exceções, o normal é ser branco.

Cebolinha é salmão e Bart Simpson, amarelo, mas seria impossível para nós não vê-los sempre como brancos.

agora abordando de frente esse problemático conceito da “normalidade”. Afinal, o que é o “normal”? Isso sempre existiu? Quem criou? Pode ser desinventado? 
Continuamos a conversa em duas semanas, 
Enquanto isso, você pode conferir outros textos que escrevi sobre racismo.


publicado em 26 de Fevereiro de 2012, 21:01
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Alex Castro

alex castro é. por enquanto. em breve, nem isso. // esse é um texto de ficção. // se gostou, assine minha newsletter e receba meus novos textos por email.

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