"Seja você mesmo" é história pra criança

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Imagine que você sofre de uma doença grave que lhe impede de lembrar como foi o dia anterior sem, no entanto, desfigurar radicalmente os seus sentimentos, desejos e vontades. Você vai para o trabalho e sabe o que tem que fazer, mas, se tentar lembrar o que fez ontem, não consegue.

Todo dia você acorda, abre os olhos e se depara com uma linda mulher do seu lado, estranha, não sabe como a encontrou e nem de onde veio. Toma um susto e acha que estava bêbado no dia anterior. Se a doença continuar, você segue de estranhamento em estranhamento suavemente estressado, pois nunca lembra com precisão o nome das pessoas, nem bem como as conheceu. Vive um dia após o outro meio deslocado, intrigado, tentando se recordar qual era a conexão de uma coisa com a outra.

Link YouTube | Trailer do filme Memento (Amnésia, em português)

Essa seria a vida de alguém que não tem as funções do córtex frontal bem ajustadas (ela é uma das primeiras afetadas sob ingestão alcoólica) e, portanto, não tem um sentimento de continuidade.

A capacidade de juntar lé com cré e pôr o tico e teco para funcionar é uma capacidade evolutiva que permitiu que o homo sapiens não tivesse que reinventar a roda ou descobrir o fogo todo dia. Toda a nossa cultura antes da escrita era passada verbalmente de geração em geração para que nada se perdesse de um determinado povo. Os mitos nasceram daí para termos uma narrativa com começo, meio e fim.

O sentimento de finititude e da morte se tornou uma ferramenta evolutiva importantíssima para que a civilização fosse construída com muita velocidade para que as relíquias psicossociais de uma cultura não se perdessem à cada funeral.

No entanto, a realidade é muito mais parecida com o sujeito esquecido que narrei no princípio do texto. Somos muito diferentes, dia após dia, mesmo que nossa mente crie uma sensação de identidade única que corre como se fosse a mesma no tempo. Chamo isso de efeito "crescimento capilar".

Na medida que seu cabelo cresce, você não percebe que ele se alonga ou modifica, só o cabelereiro quando vai cortar. O mesmo acontece quando você encontra uma tia velha que há muito tempo não vista, ela nota as nítidas diferenças do seu corpo e personalidade, menos você que acha que continua sendo o mesmo de sempre.

Somos mais parecidos com um picote de rolo cinematográfico, sem antes e nem depois. Cada quadro exposto sucessivamente nos dá o efeito de continuidade e movimento, quando na realidade o que existe é a sobreposição de um quadro único em sequência de outro quadro único.

Essa sensação de que somos os mesmos é benéfica historicamente, mas na vida pessoal é uma confusão, pois queremos que as pessoas sejam as mesmas que conhecemos ontem sem nenhuma alteração radical. Quando ela se comporta de um jeito não habitual nós brigamos e dizemos: "não estou reconhecendo você" e exigimos que ela volte a ser como nós a vimos pela primeira vez.

É como se você não quisesse saber o que esse cara se tornou (se você não é um desses, basta clicar na imagem)

Na realidade, esse desejo por continuidade atravanca nossas relações e não nos permite avançar pra valer. Inibimos ações arriscadas das pessoas que amamos porque não queremos nenhuma quebra de enquadramento. Fazemos o mesmo conosco quando percebemos um impulso, sentimento ou pensamento estranho, então nos culpamos e punimos como se fôssemos seres repugnantes e incoerentes.

Sim, somos contraditórios e não-lineares.

A ideia muito pregada do "seja você mesmo" é bem presunçosa, além de ignorante ao afirmar que há um "si mesmo" sempre estável e inalterável. Até as células de nosso corpo se modificam e reajustas funcionalidades numa fração de segundos. A prova disso é nosso sistema ósseo se regenera de ano a ano com a ajuda dos osteoclastos e osteoblastos, que respectivamente são responsáveis por "comer" o tecido ósseo e outro "defecar" a massa que compõe o seu braço querido. Essa dança permite que você tenha lindos novos ossos todos os anos. A osteosporose é o descompasso dessa dupla dinâmica.

Assim é a nossa identidade, ali em essência, nada é linear, previsível, encadeado e causal como gostaríamos. O tempo todo inventamos teorias para explicar o porquê somos do jeito que somos e a psicologia é especialista em criar conexões aparentemente causais entre infância, adolescência e vida adulta, mas isso nem sempre é válido e plausível. Acho que é só mais um jeito de acalmar a nossa mente para a sensação de descontinuidade que nos atormentaria caso fosse vivenciada de fato.

Nos primórdios da NASA, os cientistas fizeram um experimento interessante com os candidatos à viajantes do espaço. Com receio que os astronautas tivessem vertigens e enjôos terríveis na ausência de gravidade, eles colocaram um óculos que projetava uma imagem invertida horizontamente, portanto, se seu amigo viesse dar um abraço de aniversário você, o veria caminhando no teto e com a cabeça para baixo.

O aparente desconforto inicial desaparecia completamente no prazo de 21 dias, pois o cérebro, inteligente que é, invertia a imagem do óculos para que você voltasse a ter a sensação de similaridade com as imagens que sempre viu. Eles tiraram uma valiosa lição disso que se repetia com todos os estudados. O cérebro demora 21 dias para se readaptar a qualquer estímulo, por mais estranho e maluco que seja. Por esse motivo, intuitivamente, muitos mestres criam retiros em que passam de 20 a 30 dias meditando ou tratando de um assunto exaustivamente para que você obtenha um aprendizado mais efetivo. Infelizmente as seitas malucas, governos totalitários e empresas abusivas fazem essa mesma lavagem cerebral com êxito.

Algo parecido com isso

Lutar contra isso seria como se acordássemos num país diferente, com uma língua distinta a cada dia. Isso poderia excitar muitas pessoas que olhariam tudo como um turista interessado, como se a pessoa amada fosse olhada como a primeira vez. Mas nosso senso de sobrevivência psíquica e manutenção do status quo ficaria lançando sinais de alarme o tempo todo pelo pânico geral que causaria não se reconhecer como é.

Quando percebo que minha mente quer me engolir - no hábito de me negar a pensar - eu faço uma coisa tola, mas que funciona: planto bananeira (sozinho para não parecer estranho). Naquela fração de segundos que todo o sangue do corpo desce para a cabeça e eu vejo o mundo ao contrário, me recordo que a sensação de continuidade enfadonha que chamamos de rotina é só uma ilusão da minha mente. Cada minuto que passa é desconhecidamente novo para os seus sentidos, então lembre disso para sair do amortecimento mental.

Se você sente que sua vida está parada ou que é infeliz (anestesia da descontinuidade), tente não deixar que suas papilas olfativas existenciais se acostumem com o perfume que você usou pela manhã.

Tocar a mulher que você ama nunca é o mesmo de sempre, conversar com um amigo também não. Cada encontro com uma pessoa é um chamado para a empatia que é o exercício constante de um momento único tentando se comunicar com o momento único do outro sem esteriótipos, preconceitos e condicionamentos.

Acho curioso que muitas pessoas encaram trâmites burocráticos para alçar vôo até um país diferente e raramente tiram um visto para viajar em suas vidas singulares.

Na real, somos estranhos constantes uns para os outros e se suportarmos a angústia do desconhecido contínuo seremos sempre turistas encantados e curiosos por nós mesmos.


publicado em 09 de Agosto de 2012, 06:50
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Frederico Mattos

Sonhador nato, psicólogo provocador, autor dos livros "Relacionamento para Leigos" e "Como se libertar do ex". Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva a felicidade, lava pratos, medita, oferece treinamentos de maturidade emocional no Treino Sobre a Vida escreve no blog Sobre a vida. No twitter é

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