Sobre o exibicionismo dos adolescentes no Twitcam

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Todos sabemos do caso envolvendo adolescentes se exibindo na webcam, pelo Twitcam, cujo vídeo foi visto por mais de 20 mil pessoas. Esse que saiu no Fantástico não é único e muito menos o último que apareceu. Mas a questão é: por quê?

Quem já me conhece sabe que eu sou totalmente a favor do ser humano explorar a própria sexualidade. Não vejo exibicionismo como algo ruim, assim como não vejo pornografia como algo deplorável (e olha que temos de tudo na Internet!), apesar de ter minhas preferências, como qualquer pessoa.

Mas a questão não é essa, a pergunta é: por que adolescentes, menores de idade, sentem essa necessidade (muitas vezes irresponsável) de se exibir para estranhos?

Link YouTube | O legal é assistir à reportagem notando que todos falam de sexo como se fosse algo que eles nunca fizeram.

Veja bem, esse texto não é um texto baseado em pesquisas e nem estudos que li por aí. É apenas a minha opinião sobre o assunto, que pode estar certa ou errada, ou nenhum dos dois. Não vou apresentar dados, vou falar do que percebo e do que vejo como alguém que convive todos os dias com adolescentes – sou professora.

Meu ponto de vista pode ser para muitos extremamente distorcido. Mas, veja você, quando morei fora, percebi que todos têm essa visão de que o Brasil é um país liberal, de bem com a vida, que não julga os outros… Quando ouvia esse tipo de ponto de vista dos meus amigos gringos, eu automaticamente pensava "Espera lá, que Brasil é esse que eu não conheço?".

O Brasil que eu conheço, como o qual me deparei quando voltei depois de seis anos fora, é totalmente diferente disso. Aqui, quando algum imbecil divulga fotos de sua ex-namorada nua, o povo vai e xinga a garota. É um país onde, de fato, muitos são bem instruídos e tentam ao máximo não julgar a atitude dos outros, mas é, sim, um país em que a grande massa vive numa repressão (principalmente sexual) imensa.

Temos o carnaval, que mostra garotas belíssimas semi-nuas numa festa alto astral, onde todos se divertem e praticamente ninguém sequer olha pro lado, para prestar atenção no que o outro está fazendo. Ao mesmo tempo, temos um povo que fica horrorizado quando, no horário nobre, a novela mostra alguma cena de sexo bem de leve ou algum BBB parece ter feito algo a mais embaixo de um edredom. Veja só, apenas parece. Já começa o julgamento por aí.

Link YouTube | Qual o problema em fazer caipirinha debaixo do edredon?

Querendo ou não, essa indignação toda com a sexualidade dos outros gera um buzz. Gera uma discussão. Gera Ibope. Gera uma atenção totalmente desnecessária ao fato, afinal todo mundo faz e gosta de sexo. É saudável, é gostoso. Qual é o grande problema com isso?

E aí colocamos o adolescente, ainda formando sua personalidade, sem saber muito bem se é certo ou errado, no meio desse grande paradoxo de opiniões.

Sex sells, ele vê. Para o bem ou para o mal, sexo vende. Aquele adolescente que enfrenta o dia inteiro na escola, que não tem diálogo com os pais, que normalmente é criado com a história de que se excitar (mesmo que naturalmente), se masturbar e ver pornografia é errado e feio. Ele percebe uma oportunidade de ter atenção na Internet, onde tecnicamente todos podem fazer o que quiser e que qualquer coisa remotamente sexual gera algum alarde, o que nada mais é do um reflexo do que acontece fora dela.

Aquela atenção que os pais não dão, seja para uma conversa rotineira sobre o que ele fez na escola ou até mesmo sobre sexo, seria um modo de evitar essa cadeia de reações que percorre o adolescente até acabar meio que inocentemente se exibindo na Internet. Essa repressão toda que a nossa sociedade brasileira tem com o sexo termina por banalizar o assunto.

Não acho, nunca achei, que é o apelo sexual que banaliza a sexualidade. Se as pessoas tratassem a sexualidade como algo normal, não teríamos pessoas tão confusas com o assunto. Confusas a ponto de não perceberem que se exibir na Internet é, sim, algo saudável e legal, se isso lhe proporciona algum bem estar, mas que deve ser feito conscientemente, não quando se é um menor de idade e principalmente quando não se tem certeza do que está fazendo.

Se for menor de idade, aprenda com a família Restart: só vale mandar beijo.

Para piorar a situação, depois do feito, normalmente o adolescente se arrepende. Voltamos àquela história do cara que coloca as fotos da ex-namorada na internet e depois vê que isso é agressivo, não é aceitável, é feio, não é certo.

O arrependimento seria menor se os adolescentes fossem orientados, se soubessem que não foi uma atitude necessariamente errada, mas sim impensada, por vários motivos, não apenas por serem menores de idade, mas porque poderiam ter sido influenciados a fazer aquilo que não queriam de verdade. Mas não, ao contrário, são vetados. E o sexo continua taxado de feio, sem escrúpulos, como se ter a sexualidade aflorada e saudável fosse algo repugnante.

Não sei quanto a vocês, mas pra mim há algo de muito errado nisso.


publicado em 07 de Agosto de 2010, 07:02
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Anne Becker

Professora chata de inglês que faz os alunos filosofarem. Futura designer de lingeries. Apaixonada por burlesque striptease, vaudeville e Marilyn Monroe. No Twitter: @annebecker.

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