Sociedade B: você faz parte dela?

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Você sabia que existe uma ciência específica que estuda -- e prova -- que o fato de você não ser produtivo nas primeiras horas da manhã não tem absolutamente nada a ver com preguiça?

Você sabia que existe um negócio chamado "ritmo circardiano" (cada um tem o seu) e que é ele que basicamente determina se você é daqueles que acorda às seis da manhã correndo uma maratona, ou às 10 pedindo pelo amor de deus por mais cinco minutinhos?

Ritmo circadiano ou ciclo circadiano (do latim circa cerca de + diem dia) designa o período de aproximadamente 24 horas sobre o qual se baseia o ciclo biológico de quase todos os seres vivos, sendo influenciado principalmente pela variação de luz, temperatura, marés e ventos entre o dia e a noite.
O ritmo circadiano regula todos os ritmos materiais bem como muitos dos ritmos psicológicos do corpo humano, com influência sobre, por exemplo, a digestão ou o estado de vigília e sono, a renovação das células e o controle da temperatura do organismo.
(Wikipédia)

E mais, existe uma galera lutando num movimento no mundo todo para que pessoas que não conseguem se adequar ao esquema “de 8 às 18” possam enfim se encaixar.

B de "B-Society"

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Não é só o nome usado para designar as pessoas que funcionam melhor mais tarde, mas também o nome do movimento, da organização que espalha essa ideia pelo mundo afora. Foi criada na Dinamarca em dezembro de 2007 e, hoje, possui membros em mais de 50 países.

B de Biologia

Toda essa criação foi baseada na pesquisa de Till Roenneberg --  Pesquisador da Ludwig-Maximilians-Universität de Munique, na Alemanha --, sobre Cronobiologia.

Roenneberg mapeou os ritmos circadianos de mais de 125.000 pessoas e o resultado disso se transformou no livro Internal Time, cujo subtítulo diz absolutamente tudo:

Cronótipos, o jet lag social e porque você está tão cansado.

É bem simples. Nós, seres humanos, temos ritmos circadianos diferentes uns dos outros. E esse danadinho é que determina quando você prefere estar acordado ou prefere estar dormindo. E você aí achando que controla sua vida.

O tal ritmo é controlado pelo que podemos chamar de "genes tic-tac". No caso, um deles é o Per3-gene, descoberto pelo pesquisador Simon N. Archer. O Per3-gene -- assim como as coisas práticas do dia a dia -- vem em dois tamanhos: tamanho BOM DIAAAA e tamanho FECHA A JANELA!

Genial, não? Ciência.

É uma informação que explica muita coisa. O ritmo circadiano muda durante sua vida, ou seja, você não era um adolescente nojento, insuportável, chato e preguiçoso. Você era apenas um adolescente nojento, insuportável e chato. Não era preguiça. É que, quando estamos nessa fase da vida, nosso ritmo é devagar mesmo. Em contrapartida, não existe aquela sabedoria de que velhos vão dormir cedo e acordam cedo? Então. Tudo genética. Tudo explicado.

A questão toda é que alguns de nós continuamos com o gene do tamanho "fecha a janela!” por toda a vida. E é muito difícil ser uma “pessoa-B” quando se vive em um mundo ditado pelo padrão ‘A’.

"Acorda, rapaz! E essa produtividade aê!?"
"Acorda, rapaz! E essa produtividade aê!?"

B de "Bom dia pra quem?"

Quando escuto as pessoas falando que acordam às 6:30 da manhã "ligadaças", eu encaro a situação por dois segundos me questiono: quem chamou esse cara? e truco ladrão!”.

Uma pessoa assim é, para mim, tão estranha quanto um alienígena. Sou da filosofia de que antes das 10 da manhã não se deve dar bom dia a ninguém. O que não sabia é que isso não é uma filosofia, mas sim como eu sou, como meu corpo é.

Eu simplesmente não funciono antes das 10.

Tenho certeza absoluta que isso é muito comum. Tenho vários amigos que são como eu, mas que se matam para se manterem na sociedade oito-às-seis. Quando vim para BH, estudar e começar a trabalhar, nem meus pais, nem meus irmãos, nem ninguém, acreditava que eu conseguiria acordar a tempo de ir para o trabalho.

Em todos os empregos que tinham horários germânicos (são muito piores que os britânicos), eu estava sempre lá, no mesmo horário. Mas eu era apenas um pedaço um tanto quanto grande de carne sentado em uma cadeira. Sabe quando um dementador arranca a alma da pessoa e ela fica Don Lázaro para sempre?

Então, eu ficava assim até às 10.

Não foram poucas as vezes que me meti em encrenca por causa disso. Já apresentei marcas e campanhas às 8 da manhã. O que quer dizer que eu havia acordado pelo menos uma hora antes. As pessoas achavam que eu estava bêbado. E sim, sempre avisava que isso era horrível. Não era uma escolha, simplesmente era assim. No final das contas, virava motivo de piada e eu invariavelmente acabava pedindo demissão.

Até o momento no qual decidi que teria que trabalhar onde as pessoas são mais abertas com relação a isso. E eu tenho sorte de poder fazê-lo.

B de Flexível

Uma sociedade B vivendo em um padrão A.

E no nosso mundo, se você não se adequar a um padrão do status quo da sociedade (judaico-cristã-ocidental), você está fodido.

A mensagem é clara: espalhe a mensagem.

O site b-society.org está lotado de explicações detalhadas de como pessoas-B e pessoas-A podem conviver tranquilamente -- ou melhor, produzir tranquilamente -- em uma sociedade AB. São pesquisas mostrando que estudantes conseguem melhores notas quando aprendem na parte da tarde, que identificar uma pessoa-B no seu staff e utilizar isso em seu favor pode (e vai) aumentar a produtividade dela.

Tudo isso parece muito óbvio e existem várias empresas que trabalham dessa forma. Empresas criadas para a era que estamos vivendo agora, dirigidas por quem entende esse momento e as pessoas que fizerem ele acontecer.

Mas ainda não é o bastante.

Sim, essa agora é mais uma de nossas lutas diárias. Contra o machismo, contra o preconceito, contra bater em crianças e contra o "quadradismo" corporativo.

Tem empresa vivendo na era feudal, com sua ideias retrógradas e seus “Manuais de Colaboradores”. Se você gosta e é bom no que faz, não precisa se matar para se adequar às regras e filosofias com as quais não concorda. E nunca, jamais confie em alguém que chama seus funcionários de colaboradores.

A B-Society tem um manifesto que pode ser lido aqui.

E nele, há um grito para um levante, um uprising contra esse ‘quadradismo’. A ciência está provando que é bom para você, e bom para a empresa. Todo mundo sai ganhando. 


publicado em 23 de Julho de 2013, 21:00
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Pedro Turambar

Pedro tinha 25 anos e já foi publicitário. Ganha a vida fazendo layouts, sonha em poder continuar escrevendo e, quem sabe, ganhar algum dinheiro com isso. Fundou o blog O Crepúsculo e tem que aguentar as piadinhas até hoje. No Twitter, atende por @pedroturambar.

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