Talvez seja difícil de acreditar, mas o seu cachorro não é um ser humano

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Muita gente observa o Clint, nosso golden retriever aqui do QG, e fica surpresa com o bom comportamento dele.

O Clint anda na rua ao meu lado sem coleira. Quando vou à padaria, ele me espera sentado na porta enquanto compro pão. Não faz manha alguma. Eu nem preciso amarrá-lo no "estacionamento de cachorro". Ele também sabe que banheiro é o gramado do quintal, e nunca dentro de casa. O máximo permitido dentro da cozinha são as duas patas dianteiras, regra esta seguida mesmo quando não tem ninguém por perto. E quando eu digo os comandos "parou", "vem cá" e "pra fora", a resposta é imediata.

Ao contrário do que muita gente pensa, o Clint nunca foi adestrado. Como isso tudo foi aconteceu então? Simples: o Clint é tratado como um cachorro e não como um ser humano.

Parece óbvio, mas não é.

Repare na quantidade de pessoas que falam com os cachorros com voz de bebê e referem a si mesmos como papai ou mamãe do animal. Eles acreditam, do fundo do coração, que seu bicho de estimação nada mais é do que um ser humano quadrúpede com pelos. Gastam fortunas em pet shops comprando mimos que, na verdade, servem mais para agradar o próprio dono do que o animal. Ou você realmente acha que os cães gostam de usar lacinhos, enfeites? Será que eles realmente se importam com um xampu importado, com refrigerante de cães e sei-lá-quantas-outras-frescuras existem por aí?

Não, Clint, você não é gente

O que realmente importa para um cachorro, afinal?

Não sou treinador, adestrador, muito menos expert em cães. Sou apenas um cara que tem um cão saudável, disciplinado e que é questionado o tempo todo:

"Por que seu cachorro é comportado e obediente, e o meu não?"

Vou tentar responder à pergunta explicando o meu mindset com os cães. Foram coisas que eu aprendi conversando com adestradores, lendo, testando na prática e, acima de tudo, observando como os cachorros interagem entre si.

Se você não controla o seu cachorro, então, ele é quem controla você

Numa matilha, existe sempre um líder. Um que comanda o grupo todo. Da mesma maneira, para o animal, não existe igualdade na relação humano-cachorro. Ou ele é líder ou é liderado. Como essa hierarquia não é estática, o seu cachorro constantemente testará sua autoridade.

A situação clássica de demonstração de superioridade é o cachorro macho que "trepa" na perna dos outros. Todo mundo acha que é um sinal de que o cão está precisando cruzar, mas, na verdade, é só uma das maneiras que o cão tem de demonstrar autoridade sobre outro animal. Um macho que não demonstra superioridade nunca vai conseguir copular.

Outra típica situação: pessoas que deixam o cachorro fazer tudo e principalmente dão comida quando ele pede. E dizem:

"Ah, tadinho, né? Olha a carinha que ele faz."

As primeiras vezes em que comecei a passear com o Clint solto, sempre levava comigo um pedaço de alguma comida que ele gostava. Conforme ele se comportava ficando ao meu lado, ganhava um pedacinho. Deu certo algumas vezes, outras não. Bastava ele avistar uma cadela do outro lado da rua para desviar o foco de mim e correr em direção ao outro animal. Isso me custou alguns xingamentos de dondocas histéricas e um quase atropelamento que me deixou pálido. Achei que era simplesmente uma questão de instinto animal e que eu nunca ia conseguir controlar aquilo, mas não era.

Um dia, depois de ter uma dermatite brava que criou feridas bem feias na pele, tivemos que suspender qualquer tipo de comida que não fosse a ração especial receitada pelo veterinário. Isso incluía petiscos que eu dava como recompensa por obediência. Depois deste episódio, comecei a perceber que o Clint estava menos obediente comigo, não respondia aos chamados, entrava na cozinha sem cerimônia, e tampouco andava do meu lado na rua. Foi quando caiu a ficha:

Ele não me obedece; eu que obedeço ele.

Nem precisa ganhar comida para ficar ao meu lado

O Clint, se pudesse raciocinar, pensaria:

"Olha como meu humano é obediente! É só eu dar a patinha para ganhar um biscoito."

Comecei a realmente perceber a relação de líder-liderado e prestar atenção na minha postura e na minha autoridade com meu cão. E aí as coisas mudaram, começaram a fazer sentido pra mim.

Seja firme e não tenha dó

Quando você passa em frente ao portão de uma casa que é guardada por um rottweiler, qualquer animal, de qualquer raça consegue entender que aquele lugar é território dele, e ai de quem ultrapassar a fronteira. O latido é ameaçador, a expressão e os movimentos são para botar medo. Até um surdo consegue entender o recado.

O rottweiler não tem nenhuma dificuldade em transmitir para qualquer animal a mensagem dele, mas a gente tem. Existe uma frase excelente que diz:

"Não consigo entender suas palavras; suas ações falam mais alto."

Muitas vezes damos uma bronca nos cachorros e parece que não adiantou nada, porque lá no fundo não estamos realmente bravos. Afinal, eles são tão bonitinhos! Quando damos um comando a um cachorro, se não estamos projetando firmeza nas nossas ações e na nossa voz, eles percebem isso na hora e não nos obedecem.

É como dar uma ordem gaguejando ou chegar numa mulher falando pra dentro e sem brilho nos olhos.

Duas patas quando ninguém está comendo, pode; as quatro, nunca

Um caso que sempre conto foi como educar o Clint a não entrar na cozinha do QG. Não queremos pelos na comida, nem correr o risco de ter os bifes do almoço roubados ou carimbados com umas lambidas. Então, sempre que ele entrasse na cozinha, a gente dizia "pra fora" com um tom de voz imponente e apontando para a saída. É importante mostrar que ali não era território dele. Se ele tentasse uma segunda vez, era empurrado para fora. Na terceira tentativa, era empurrado para fora. "Mas você bate no seu cachorro?", vão perguntar alguns leitores. A resposta: eu dou um empurrão com o pé para derrubá-lo e assustá-lo. Perto de uma mordida de rottweiler (afinal, se um cachorro entra na cozinha, por que não entraria na casa que tem um rottweiler?), meu empurrão é sussa.

Firmeza na voz e empurrões quando necessários deram certo.

Só amor não basta

O cachorro vai amar seu dono, seja ele um dono frio ou um sujeito amoroso. Cães amam incondicionalmente. Todo mundo sabe disso. O que eu mais vejo são pessoas que se aproveitam deste amor incondicional dos cães para suprir suas carências emocionais. Ou, em alguns casos, até a necessidade de ser pai ou mãe.

Eu acho ótimo que as pessoas amem os animais, deem carinho e atenção a eles, mas, sinceramente, amor não supre as necessidades de um animal e não mostra liderança. Não importa o quanto você demonstre carinho a um cão, ele não vai te obedecer só porque você o ama.

É muito comum as pessoas ficarem frustradas quando estão fazendo carinho num cão e ele simplesmente sai do colo delas ao ouvir a voz do dono chamar. A verdade é: amor não gera obediência.

Deixe seu cachorro ser um cachorro

Assim como não é saudável um humano viver trancado num apartamento com cinco cachorros, não pode ser saudável para um cachorro viver trancado num apartamento com cinco humanos. Cães precisam conviver com outros cães, por maior que seja o seu quintal, sua casa ou sua cobertura pentaplex de R$ 20 milhões. Correr, morder, pular, rolar na grama e brincar com outros animais suprem uma necessidade básica do animal: sentir-se um cachorro.

Eu não estou me referindo a deixá-lo cheirar o cu do cachorro que está cruzando a rua. Me refiro a ir a um parque, a lugares abertos onde ele possa conviver e brincar com outros cachorros por horas.

Link YouTube | Clint brincando com uma mastim no parque. Igualzinho a brincar com seu cachorro no apartamento

O Clint vai ao parque no mínimo uma vez por semana. Imagino que as pessoas podem achar impossível fazer isso na prática, dando a velha desculpa do "não tenho tempo". Porra! É um baita incentivo pra você acordar cedo, tomar sol e caminhar. Experimente trocar o barzinho de domingo à tarde por um passeio no parque com o cachorro. As chances de você conhecer gente nova com um cão no parque são infinitamente maiores do que sentado num bar bebendo ou numa balada com o som alto. E o melhor de tudo: não paga nada pra entrar no parque.

Gaste energia

Os cães são naturalmente predadores e, como tais, eles têm muita energia para caçar. Um cachorro que passa o dia inteiro num apartamento não gasta essa energia e engorda, ou então procura gastá-la de outras formas: roendo seu sofá, destruindo seu tênis, pulando nas pessoas ou, no casos de algumas raças, sendo agressivo. Não é à toa que ter filhote em apartamento é um caos.

É muito mais difícil ter autoridade sobre um cão que está agitado e cheio de energia. É como tentar argumentar como uma pessoa que está ansiosa e inquieta.

Cachorros de porte pequeno gastam energia mais facilmente. Já os grandes dão um pouco mais de trabalho. A maneira mais rápida e divertida que eu encontrei de dar uma canseira no Clint foi andando de bicicleta. Demorou um pouco até nós dois pegarmos o jeito e a sincronia, mas o resultado foi gratificante para ambos: eu ganhei um parceiro para andar de bike comigo a qualquer hora do dia e o Clint ganhou um companheiro que corre na mesma velocidade.

Depois da pedalada, a recompensa

Vinte minutos pedalando forte é tempo suficiente para dar uma ótima canseira nele. Vinte minutos não é nem metade do tempo que você gasta por dia vendo bobagem na internet.

"Como falar com ele de uma maneira não-verbal?"

Quando tenho dúvidas sobre como agir e fazê-lo obedecer, faço um exercício comigo mesmo. Me pergunto:

"Como dizer isso pra ele de uma maneira não-verbal?"

Para ensiná-lo a andar do meu lado, colocava a perna na frente dele toda vez que tentasse me ultrapassar. Foram três dias fazendo esse exercício na hora do passeio. Ele aprendeu. Treinamento requer muita prática, paciência e repetições.

Aposto que muitos dos leitores têm cães e são apaixonados por eles. Por isso, vamos dialogar, trocar experiências. Como vocês fazem para ensinar coisas a seus cães? O que dá certo? O que não dá? Continuamos a conversa nos comentários.


publicado em 31 de Março de 2012, 21:01
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Rodrigo Cambiaghi

Gerente de atendimento e curador do Apimentadas – Resolve problemas e acalma pessoas surtadas. Se acha diferente por não acompanhar futebol e gostar mais de mostarda do que de ketchup, é apaixonado por comida latino-americana e ceviche. Para mais informações consulte seu terapeuta.

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