Seja você contra, indiferente ou a favor, queremos escutar o que realmente pensa sobre feminismo e machismo, sem censura. Nos conta aqui? [pesquisa]

11 filmes que vi quando criança e me impressionaram | WTF #54

Ficção Científica a Woody Allen e comédia do comecinho dos anos 80.

Tive uma infância razoavelmente livre, até demais. 

Até hoje não tenho bem hora para dormir ou acordar, e isso já começou de lá. Mas sempre adorei a madrugada, porque tudo está quieto e escuro, aconchegante para a introspecção – e mesmo antes de ler eu já ficava grudado no tubo de raios catódicos (uma 20” colorida, em caixa de madeira, toda rabiscada por mim mesmo), vendo filmes que, ora, talvez não fosse da idade certa para se ver.

Alguns dos filmes que vi entre os 5 e 13 anos de idade me marcaram profundamente, alguns deles bastante desconhecidos. Alguns, como The Quiet Earth, eu levei um bocado de tempo para lembrar certos elementos pictóricos e da trama do filme, traduzir alguns termos cognatos para o inglês, e estudar sinopses no imdb.com até descobrir o título. A maioria desses filmes eu reassisti na década passada, e assim posso também dizer se seu apelo por acaso resistiu ao olhar adulto.

De todo modo, é preciso dizer que dois fatores ajudaram muito o impacto desses filmes, independente de eu ser criança. Um deles é a qualidade do cinema estadunidense nos anos 70 (os filmes passavam de madrugada eram na sua maioria da década passada e dos EUA), o outro é o bom gosto do diretor de programação do Corujão, da Globo. Sei lá quem era essa pessoa, e se era apenas uma, mas me moldou culturalmente. No início dos 80 algum hippie sujo, com boa cultura estadunidense, e fã de ficção científica, havia penetrado na empresa, não tenho dúvida.

The Omega Man

Peguei esse da metade pro final da primeira vez. A trilha sonora, o órgão em particular, e a nostalgia hippie – o mundo “acabava” e o filme sobre Woodstock ficava em “cartaz” para sempre – já me fascinavam. As ruas vazias e os zumbis albinos fotofóbicos com penteado afro matavam a pau. Charton Heston, antes de eu virar esquerdista, era meu herói. Armas automáticas, carrões e tecnologia contra aqueles zumbis luditas, right on!

Durante os anos 90 eu nem lembrava do título, que a gente só tinha quase acesso em português, na grade de programação, e era difícil saber que filme era qual – só consultando uns catálogos nas locadoras maiores. Mas lendo sobre ficção científica fiquei sabendo que era remake de um filme em preto e branco com Vincent Price – de quem eu era muito fã pelos filmes do Dr. Phibes e uns terrores mais antigos do Roger Corman que às vezes passavam. Queria muito ver esse filme, e só realizei o desejo nos anos 2000, com o emule.

Claro, o remake de 2007 com Will Smith é uma droga. Poderia não ser tão ruim, mas o CGI é um lixo.

Soylent Green

Eu colocaria o trailer aqui, mas infelizmente ele contém spoilers. Sério

E por falar em Charton Heston, aqui temos outro filme distópico com ele, agora num mundo assolado pela mudança climática, nada mais cresce, e o único alimento é o tal Soylent Green. Lembro de minha vó dizer “ah, o filme aquele das pastilhas verdes”. Sim, o filme além de impressionar as crianças também tem certo impacto sobre a terceira idade (vamos deixar assim o dito pelo não dito).

O Planeta dos Macacos

Prometo que é o último com o Charlton Heston.

Essa coisa do filme de final embasbacante, do twist ending, é uma coisa que possui um efeito particular em que é facilmente manipulado: crianças. Posso me gabar de ter visto o primeiro Planeta dos Macacos sem saber nada sobre o filme ou o final, e querer sair pulando e esmurrando as paredes enlouquecido com aquela cena final. Puta que pariu, trauma, sério. Se tu vê com, sei lá, 15 anos de idade, as máscaras de macaco te incomodam tanto, e hoje o anacronismo também incomoda tanto, que o impacto nunca mais vai ser o mesmo. Mas talvez aos sete ou oito anos de idade, uns 15 anos depois que o filme saiu, é de matar.

Ainda antes dos 10 consegui pegar todos os filmes da série, um após o outro, todas as madrugadas de uma semana. Alguns eram bem ruins, mas eu já era fã. Pior era não ter nem com quem falar sobre os filmes, porque ninguém da minha idade conhecia – alguns conheciam o primeiro.

Destes filmes com Charlton Heston, o único que resiste ao tempo é o No mundo de 2020 (Soylent Green). Os outros só por curiosidade retrô. Claro, Soylent também tem esse elemento retrô charmoso, mas ainda funciona como filme. Vão fazer remake certo.

Harold and Maude

Esse talvez eu tenha visto a primeira vez no Supercine, que era, ou é, para um filme dramático ou comédia romântica no início da noite de Sábado.

Ensina-me a viver tem um personagem caulfieldiano, um jovem que despreza o status quo, inesquecível. Particularmente se você é criança e pensa parecido. A montagem toda do filme, cheia de músicas do Cat Stevens, é o protótipo de todos os filmes indie de 1995 até 2015. O filme é todo irreverente em suas gags visuais (baseadas muitas vezes em teatrais tentativas de suicídio falsas do protagonista), é muito interessante mesmo.

E claro, você não imagina para onde o filme vai. E se surpreende muito.

No segundo grau conheci um amigo que tinha visto o filme e gostava de Cat Stevens. Isso era referência de cultura refinada para mim aos 16-17 anos de idade.

Annie Hall

Os colegas em aula comentavam, no outro dia, depois que passava na TV, Tudo que você queria saber sobre sexo mas tinha medo de perguntar...  ou O Dorminhoco. Mas eu gostava mesmo é da Última Noite de Bóris Grushenko.

Só que quando vi Noivo neurótico, noiva nervosa, foi que reconheci o que era inteligência. Aí que eu entendi que o Luís Fernando Veríssimo, até aquela época, imitava o Woody Allen, e que era por isso que eu gostava do cronista. Acho que por algum tempo até partes da infância do Alvin no filme eu consciente ou inconscientemente assumi para mim, ou recontava como piada para os outros e acabei acreditando.

E sempre ajudou muito socialmente ser versado em Woody Allen. É o tipo de conversa aprazível que molda boas amizades.

The Quiet Earth

O trailer também tem spoilers

Claro que quando eu vi não sabia que era neozelandês, só me parecia diferente. Outro filme de fim do mundo, de ficar sozinhão no mundo, só que não como os do Heston, ou algo como Damnation Alley, que me deixou louco na infância (baratas mutantes!), mas que reassistindo é totalmente meh.

Não, Quiet Earth é loucão, meio filme de arte, perturbador em vários sentidos.

Ainda recomendo muito.

Há um outro filme para TV que causa um estranhamento similar, mas que só vi na década de 90, é The Lathe of Heaven.

The Illustrated Man

Alguns contos de Ray Bradbury, contados a partir de um homem explicando várias tatuagens em seu corpo. Algumas ocorrem no passado distante, outras no futuro. Eu nem sabia o que era ópio, mas a impressão que eu tinha ao assistir esse filme era narcótica, e atraente.

Esse não passou na Globo, mas na Bandeirantes, e até hoje não é fácil de conseguir, e simplesmente não existe em boa qualidade em lugar algum. Suponho que tenha algum problema de direitos não resolvido na justiça.

The Poseidon Adventure

Eu gostava dos filmes de catástrofe dos anos 70. Lembro de brincar com lego, montando um barco, enquanto via esse com meu avô, e totalmente apavorado.

Não se sustenta tão bem hoje e o remake é horrível. Mas vale pelo apelo melodramático retrô, se você é chegado nessas coisas.

Logan's Run

Esse passava na Sessão da Tarde, embora a temática fosse intensa: numa cidade no futuro, dentro de um domo, pela falta de espaço, só os jovens podiam viver. Para onde iam os velhos? Será parecido com Soylent Green? Assista.

Tinha até videogame para Atari. Esse sem dúvida vale pelo apelo retrô, e os efeitos muito interessantes. Sem falar na velha Ficção Científica de experimento de pensamento social, ao estilo de THX 1138 e outras distopias interessantes.

Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu

Era a conversa de bebedor na escola toda vez que passava. Ainda é engraçado. Não tenho nem ideia se os jovens ainda veem esse tipo de comédia. Mas para qualquer um com mais de 30 anos, imagino que seja feijão com arroz de filme cômico. Na verdade, ano passado peguei um táxi e por acaso acabamos rindo muito lembrando esse filme, eu e o motorista.

Ele exige um pouco, mas só um pouco, do contexto dos filmes de desastre de que falei ao mencionar The Poseidon Adventure.

Silent Running

Esse não passava na Sessão da Tarde. Muito, muito triste, com o diretor de efeitos especiais de 2001 e o tipo de robôs que iriam povoar Guerra nas Estrelas. Só que triste, ecológico, tocante.

Enquanto isso, na Sessão da Tarde, ainda passava A Máquina do Tempo  e A Guerra dos Mundos, que eram excelentes. Mas a Ficção Científica já estava noutro patamar, com Silent Running.

Aliás, 2001 é um filme que, como Taxi Driver,  eu não conseguia terminar de ver. Surtava antes do final, ficava com sono, ou os dois. Só fui ver inteiros depois de adulto. 

Ainda bem. 


publicado em 05 de Fevereiro de 2015, 09:40
File

Eduardo Pinheiro

Diletante extraordinário, ganha a vida como tradutor e professor de inglês. É, quando possível, músico, programador e praticante budista. Amante do debate, se interessa especialmente por linguística, filosofia da mente, teoria do humor, economia da atenção, linguagem indireta, ficção científica e cripto-anarquia. Parte de sua produção pode ser encontrada em tzal.org.


Puxe uma cadeira e comente, a casa é sua. Cultivamos diálogos não-violentos, significativos e bem humorados há mais de dez anos. Para saber como fazemos, leianossa política de comentários.

Sugestões de leitura