16 homens falam sobre consentimento

O que isso significa para os homens – e porque eles ainda têm tanto medo de falar sobre o assunto

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Esse texto foi originalmente publicado na Matter, no Medium.

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Muitas vezes, hoje em dia, as conversas sobre consentimento acabam antes mesmo de começarem. A violência contra mulheres tem aumentado? Expulse os homens. Alguém que se apresenta como feminista é suspeito de estupro? Ponha a culpa no feminismo masculino. E se de fato banimos os homens – na teoria, na prática, nos memes – como ainda assim incluímos, de alguma forma, na conversa sobre consentimento?

Ao longo do mês passado, conversei com homens de todos os backgrounds – de adolescentes a aposentados, de advogados e professores a ativistas de direitos do homem – sobre suas posições sobre a prática do consentimento, fora do âmbito dos argumentos politizados.

Mesmo que a maior parte deles ainda acredite que o ônus do consentimento recai mais fortemente sobre os homens do que sobre as mulheres, eles acreditam que todos devem falar no assunto. Mas o problema é que ninguém parece estar fazendo isso. Os homens têm medo. Tanto é que alguns simplesmente se abstém de fazer sexo “porque sabe-se lá quem pode amanhã dizer que foi estuprada”, como confidenciou um membro de fraternidade da USC.

O medo – de prisão, de tribunais, ou mesmo de passar vergonha em público – rapidamente se torna o motivo principal para entrarem na linha quanto ao consentimento. E embora o medo possa ser um forte motivador, não é com ele que se começa as conversas sobre consentimento – o medo é o fim da conversa.

O sexo é hoje discutido muito abertamente, e também deveria ser assim com o consentimento. E se queremos levar adiante a questão do consentimento e tirar o assunto do armário, precisamos parar de fingir que já tivemos essa conversa.

Então perguntei a um grupo de homens sobre seus encontros mais ambíguos, aqueles que trouxeram os maiores questionamentos no dia seguinte; como o consentimento se aplica a eles; e o que eles acham de um sistema que muitas vezes é contraditório ou complexo demais. O resultado é retrato fiel da palavra de cunho político mais alardeada em 2015.

Joe, 16 anos

Estudante, San Jose, CA

A última vez que o consentimento foi mencionado em minha escola foi quando um grupo da Kaiser Permanente esteve lá. Eles falaram o óbvio, aquela coisa de “sim sóbrio”, e eu fiz uma pergunta: “Uma mulher (não só um parceiro qualquer) pode retirar seu consentimento depois do ato?” a que eles responderam que sim.

Fiquei perplexo. A resposta foi ridícula. E a plateia quietinha, todo mundo parecia aceitar aquilo. Fiquei chocado que uma pessoa pudesse retirar seu consentimento depois do sexo. Para mim isso queria dizer que a pessoa que revogara o consentimento não havia tomado a decisão correta em primeiro lugar, ou havia se arrependido.

Entendo que as pessoas tomem decisões precipitadas que depois podem se tornar desconfortáveis para elas, mas um fato da vida é que não se pode influenciar diretamente o passado; só é possível influenciar o que as pessoas pensam do passado. Fico muito preocupado com minhas ações poderem ser posteriormente reinterpretadas ou alteradas por uma mudança de perspectiva.

O que quero dizer é que me preocupo com um dia ser falsamente acusado de agressão sexual, ou algo similar.

Jackson, 28 anos

Advogado, Nova York

Sempre fui muito grilado comigo mesmo – com meu peso, com a cor da minha pele – e o que isso implicava numa universidade onde não predominavam os negros. Sempre ficava com aquilo na cabeça, especialmente no que dizia respeito a encontros sexuais e consentimento.

No passado, ao encontrar qualquer indicação visual de que alguém estaria incapacitado, ou prestes a se incapacitar, isso era um botão de ejeção imediato. Para mim não valia a pena me colocar naquela posição.

Já tive situações em que houve interações mútuas, e na manhã seguinte aconteceu um “Peraí, o que aconteceu mesmo, você poderia descrever tudinho?” Essas situações são muito perigosas para um homem negro. Se alguém fala em estupro, não temos muito recurso.

Claro que há uma discussão de “ele-disse-ela-disse”, mas o jogo está marcado contra homens negros. Então aprendi a ser cuidadoso, ainda mais cuidadoso de que meus amigos que não são negros.

Ramesh, 33 anos

Executivo da área de publicidade numa empresa de TI, San Francisco, CA

Na Índia, para ser honesto, o consentimento nunca era discutido. Na adolescência, provavelmente todos estavam fazendo sexo, mas a cultura de forma geral ainda não estava preparada para falar a respeito. Coisas como sexo seguro e preservativos raramente chegavam à mesa de jantar. As aulas de educação sexual na escola eram consideradas um avanço muito grande.

Também não me lembro do assunto surgir em conversas com amigos. Todo mundo estava obcecado com (a) como fazer [sexo] e (b) como não estragar a oportunidade e (c) com quem já o estaria fazendo. Consentimento estava implícito. Se você chegava a colocar a mão nos seios ou ir além disso, a implicação é que sua parceira estava de acordo.

Já vi mulheres serem colocadas na posição de sentir que “devem sexo para seu homem” mais de uma vez, tanto em casamentos quanto em relacionamentos duradouros… Uma amiga era muito pressionada a fazer sexo com seu namorado. Não sei se consideraria isso estupro, mas não era totalmente consentido. A visão é de que o sexo seja algo que os homens buscam e que as mulheres evitam entregar, como se tratasse de um prêmio a ser concedido.

Já vi amigos casados encontrarem dificuldades com a dicotomia do papel masculino no sexo: ter que “assumir o controle” (em termos de papeis tradicionais e estereotipados de gênero) versus “como sei até onde ir?” Como testo os limites sem acabar com o “momento”, por assim dizer? Isso está ligado a percepções sociais em que os homens são vistos como iniciadores, como aqueles que se esforçam para ir em direção a uma experiência nova.

Derek, 61 anos

Advogado, Madison, WI

Tenho uma filha que se formou na faculdade e já fui casado algumas vezes. Por um lado, quero saber quem não está pedindo consentimento nos encontros. Porém, como advogado de defesa, posso dizer que o maior estigma para um homem nesse país é ser visto como alguém que cometeu um crime sexual – ninguém deliberadamente gostaria de ser rotulado dessa forma. Não estou dizendo que todas as alegações de estupro são falsas, mas não deveríamos pensar naquelas pessoas que mudam de ideia sobre o ato no dia seguinte? Como sabemos o que realmente aconteceu?

Neste momento estou representando um aluno que recebeu uma suspensão de um ano em sua universidade, mesmo considerando que a história dele feche com os fatos examinados pela polícia, simplesmente porque ele não quer correr o risco de ser expulso e ficar com a ficha suja.

Ele poderia ter vencido o caso, mas o estigma era severo demais. Com tanta ambiguidade, como podemos nos assegurar de que o sexo foi ou não consensual?

Morris, 25 anos

Jornalista, Brooklyn, NY

Consentimento – como assunto nos debates na universidade – me foi ensinado como o problema de um homenzarrão convencendo (ou forçando) uma mulher a fazer sexo, sem perguntar de forma direta e sem parar para julgar se é isso mesmo que ela quer.

Sou uma pessoa ansiosa e temerosa, e assim essa formulação tomou papel em como conceitualizava o sexo que fiz (especialmente durante a universidade). Se eu bebia e ia para cama com alguém depois de uma festa, sempre ficava com esse medo irritante de que eu não havia pedido claramente, ou que a outra pessoa não estava confortável com a situação. Fiz sexo tanto com homens quanto com mulheres, e esse sentimento estava mais presente quando eu ia para cama com mulheres.

A questão não era eu pensar que o que havia transcorrido mais cedo havia sido totalmente minha iniciativa: era um medo quanto a não saber bem o que era o consentimento, e também o medo de que ninguém que estivesse são e sóbrio iria querer ir para cama comigo.

Em retrospecto, esse sentimento era uma mistura de reações a minha inexperiência sexual, aos debates de “consentimento é sexy”, e outras apresentações administrativas que afirmavam que se qualquer nível de álcool havia sido ingerido, o consentimento era impossível. Mas mesmo considerando que essa minha reação hoje me pareça pouco saudável, acho que o fato dela estar presente foi uma boa coisa.

Talvez o medo não seja a melhor forma dessas trepidações se materializarem, mas pelo menos indica alguma empatia pela outra pessoa – alguma indicação de que você está tentando entender o que a outra pessoa vivencia.

Nicholas, 29 anos

Executivo da área de marketing, West Hollywood, CA

Saí do armário bem tarde, quando eu já tinha vinte e tantos anos, então em termos de consentimento versus saber a hora de atacar, eu geralmente esperava a outra pessoa iniciar a coisa toda.

Com relação a marcar encontros, comecei com aplicativos de celular, o que me ajudou a melhorar minha confiança, e então me senti confiante o suficiente para convidar homens para sair.

Algumas vezes ia ao encontro com a intenção de transar, mas então percebia que a outra pessoa não estava interessada, ou que eu não estava interessado, e então parávamos ali, mas não acho que o consentimento tenha jamais sido discutido em palavras.

Geralmente começa com beijos, ou alguma forma de contato físico, e se alguém começa a tirar a roupa ou agarrar a outra pessoa, e se essa pessoa não faz nada para aquilo parar, então está tudo bem prosseguir.

Com meu namorado atual, porém, sempre discutimos o que fazer antes de iniciar qualquer coisa. Mas isso se deu também porque nos conhecemos à distância, e falamos pelo Skype por um mês antes do primeiro encontro.

Suchit, 25

Professor, Indianapolis, IN

Como professor de ciências da sétima série, ensino genética, e incluo educação sexual e consentimento naquela unidade curricular. Na verdade só ensinei uma vez, e foi ano passado, quando dei aula numa escola apenas para meninos. Minha explanação sobre consentimento foi breve, um SIM verbal e claro sem influências externas, tais como álcool ou coerção. Mantive a coisa toda simples, já que não queria complicar o assunto de forma que os alunos começassem a brincar com a ambiguidade.

Algumas semanas mais tarde um aluno me ligou, preocupado com uma garota com quem ele havia feito sexo e que havia engravidado. A avó da garota havia ligado para meu aluno e ameaçado chamar a polícia, porque acreditava que havia acontecido um estupro. Meu aluno, por outro lado, estava convencido de que havia consentimento mútuo, e que a garota havia dado um “sim” entusiástico, sem influência externa.

Nunca falei com a garota ou com a avó, então não tenho como saber se elas estavam dizendo a verdade ou não, mas não tenho motivo para acreditar na desonestidade de meu aluno. A situação acabou se complicando, e no fim das contas a menina não estava grávida, mas o modo com que ele encarou os eventos definitivamente foi influenciado pelo que ele havia aprendido sobre consentimento.

Essa questão está sempre sendo discutido menos do que deveria. Se os alunos estão assediando e atacando sexualmente outros alunos – e eles estão – então o assunto precisa ser mais discutido.

Infelizmente, conversas sociais foram substituídas por “tópicos que se pode testar”, como matemática e interpretação de texto, que tomam cada vez mais tempo do dia letivo; relacionamentos saudáveis, planejamento familiar, práticas de consumo, e coisas desse tipo estão com prioridade baixa.

Manny, 28 anos

Vice presidente de uma microempresa, Fayetteville, AR

Recebi minha educação em casa – num estilo de comunidade hippie, não num estilo religioso e assustador – então não havia curso de educação sexual, e não havia muita exposição a pessoas com quem eu não tinha um relacionamento familiar.

O que aprendi sobre relacionamentos foi mais com livros, e um pouco com filmes também. Portanto tratava-se mais do sentido mais tradicional, sem os detalhes que vão além de segurar a mão. Pois o fato é que eu estava totalmente perdido quando tive meu primeiro relacionamento. Congelei achando que estava fazendo algo que não devia, então acabei parecendo ser meio pudico.

Desde que saí de casa e comecei a passar mais tempo online, aprendi muito sobre consentimento e a cultura que cerca a ideia, principalmente de sites como Toast e grupos do Facebook. Fico na verdade contente de ser tão travado quando era mais jovem, já que assim não fiz nada de que hoje pudesse me envergonhar.

Patrick, 40 anos

Dono de academia, Los Angeles, CA

Cresci num ambiente com muita vergonha de sexo. Lembro-me de meu pai caminhar até mim e eu saber que era a hora da conversa. Ele veio a meu quarto com uma prancheta e um bloco de notas, fechou a porta e disse, “então, vamos conversar, é o que parece”. Disse a ele que não precisávamos falar no assunto, e a resposta foi “Ótimo!”, então levantou e foi embora, e era isso.

Tá brincando? Tenho uma filha de 10 anos e um filho de 12, e, francamente, o sexo está por toda parte, então não dá para deixar para falar sobre sexo com eles quando eles estiverem “um pouco mais na idade”.

Já falamos sobre sexo, e falamos sobre o assunto abertamente. Está na TV, nos outdoors, por todo lado que eles vão, e assim precisamos falar sobre o assunto porque está por todo lado. Creio fortemente de que se você tem idade suficiente para fazer a pergunta, você tem idade suficiente para ouvir a resposta.

O que eu disse para eles foi, “Vocês são humanos. Não importa o que seja, não há razão para ter vergonha de nada, porque 100% dos seres humanos fazem isso. É divertido e fantástico”, e dizemos isso a eles – “sexo é ótimo, uma experiência muito legal que devemos aproveitar.”

Com minha filha, estamos agora a ensinando como lidar com as imagens e vídeos que ela está vendo – algumas delas são muito picantes, e ela pode gostar disso, tudo bem! – mas ensinamos que ninguém a pode tocar, não importa como se vista ou se comporte, sem a permissão dela.

Com meu filho, o lembramos de que ele vai começar a ouvir os colegas falarem sobre isso e aquilo, e que ele deve vir conversar conosco. Explicamos a ele muito diretamente como interagir com as mulheres e respeitar seus corpos, mas também explicamos que ele deve ter limites com relação a seu próprio corpo, que devem ser respeitados – por ele e por quaisquer parceiros futuros.

Bradley, 28 anos

Escritor, Los Angeles, CA

Não consigo lembrar se foi num âmbito de educação sexual, ou se ouvi de meus pais, mas lembro de ouvir “não quer dizer não” – mas essa frase foi tudo.

Eu queria também ter ouvido que Não significa também ‘não beba 10 cervejas e implore a alguém que faça sexo com você’. Que também significa não colocar a pessoa numa situação difícil na sua casa com a porta fechada. Tem muitas outras coisas esquisitas que os caras fazem para conseguir sexo que são bem ruins.

Eu diria que 99% dos caras que conheço estiveram nessa posição. Talvez eu seja só um merda, mas não me ensinaram desde cedo bem explicitamente do que se tratava, e eu tive que aprender muito para me livrar de certas presunções. Ao crescer, os rapazes pensam que podem obter o que querem, usando de quaisquer meios disponíveis. Então é claro, tive algumas noites de que me envergonho muito na faculdade, por agir como um canalha.

Pej, 32 anos

Moderador do r/Men’s Rights, o maior fórum de ativistas de direitos dos homens, Cánada

Claramente há um problema com as mulheres se sentirem violadas. Os homens não precisam ser transformados em vilões da discussão, mas esse é o efeito de tratar os homens como o lado agressor por definição. Remover as referências de gênero da discussão, e aceitar que as mulheres podem também estuprar homens (por envolvimento indesejado, por exemplo), são pré-requisitos necessários para que os homens se envolvam mais no assunto.

Não tenho provas, mas não me surpreenderia com o fato de muitos homens heterossexuais evitarem subconscientemente participar da discussão porque suas próprias experiências com mulheres contradizem os argumentos a que são expostos.

Tive experiências com mulheres muito proativas, agressivas sexualmente, para quem o consentimento explícito é irrelevante, e para quem, se eu não consentir, serei acusado de ser gay, até levarei pancadas, e serei abusado de outras formas socialmente (publicamente/socialmente, também, sem consequências). Isso me deixa com uma sensação de que definitivamente há pessoas de todos os gêneros e orientações que se esforçam para conceitualizar e aceitar o direito de uma pessoa a autonomia, e à segurança pelo consentimento.

Masaumi, 19 anos

Estudante, Nova York

Não acho que é tarde demais para aprender [sobre consentimento], mas acho que já passei da idade em que as pessoas buscam me ensinar a respeito – e ninguém nunca me ensinou. Fiz sexo depois de fumar maconha pela primeira vez. Nos deixou super tarados, como dois rapazes adolescentes que somos. Na hora foi consensual, mas me senti meio usado depois… embora ainda esteja feliz por ter acontecido.

Acho que o que aprendi posso aplicar no futuro. Por exemplo, agora vou pensar melhor antes de fazer sexo num estado alterado de consciência. Não acho que o consentimento precise ser expresso na maior parte das situações sexuais. Pedi a meu namorado que parasse e ele o fez.

Jonathan, 27 anos

Investidor, Boston, MA

Se você for a meu apartamento depois de um encontro, é porque provavelmente quer fazer algo. Se houver uma linha ou friendzone que não queira cruzar, geralmente isso é articulado bem claramente. Em alguns momentos se está lidando com pontos bem articulados “Sim, quero que você faça isso,” mas acho que nunca tive uma experiência em que uma garota tenha dito que o que acabamos fazendo não era o que ela queria.

Fernando, 16 anos

Estudante, Naples, FL

Não fui muito longe com nenhuma mulher ainda – nem lembro a última vez que abracei uma moça. Falei sobre consentimento com alguns amigos, mas nunca com amigas. Compreendo a ideia de igualdade, e a ideia de que tanto homens quanto mulheres precisam consentir, mas não faz muito sentido para mim. Entendo que é sexista pensar que o consentimento de uma mulher é mais importante que o consentimento de um homem, mas não sei como pensar de outro jeito. Acho que o ponto talvez seja que é mais fácil um homem estuprar uma mulher do que o oposto.

William, 34

Diretor de criação, San Diego, CA

Cresci numa área rural da Carolina do Norte, e NUNCA discutimos consentimento em nossas escolas públicas. Não tivemos aulas de “planejamento familiar” até a sexta série, e mesmo assim tratava-se da visão mais aguada de um processo biológico por trás da reprodução. Começava com fertilização. A aula era concedida separadamente para meninos e meninas, e precisávamos de consentimento dos pais. No ensino médio eles finalmente nos mostraram como colocar um preservativo numa banana, mas isso nos foi apresentado como uma forma de não contrair a AIDS, não como método contraceptivo.

Meus pais eram um bocado conservadores: meu pai foi um membro proeminente do partido republicano na Carolina do Norte, mas quanto a questões sociais até éramos progressivos. Tendo sido criado nos anos 90, num ambiente familiar conservador, e numa área rural do sul, não posso dizer que meu entendimento de consentimento não tinha, de início, um tom de privilégio.

Lembro que minha preocupação aos 15-16 anos era algo do tipo “Se ela terminar comigo, não quero que diga que a estuprei”. Essa possibilidade era tratada nos círculos sociais masculinos com um nível altíssimo de medo, a palavra “estupro” havia substituído “comunista”.

Ao mesmo tempo, para mim, não era bem só isso. Não quer dizer que a questão não me assustava (um medo esquisito para um virgem cheio de espinhas que ninguém queria) mas eu nunca entendi – e até agora não havia conseguido botar em palavras – a sensação de privilégio com relação ao sexo que os homens têm. Para mim sempre foi algo do tipo “se ela não quer fazer sexo com você, você não faz sexo”. Não havia um debate, era uma lei inflexível e universal. Qualquer conceito de consentimento masculino era totalmente inexistente naquela época.

Mudei um bocado nos anos subsequentes. Comecei a ver minhas amigas quietas em situações em que o consentimento era questionável, no mínimo. Percebi que talvez esse medo que tínhamos, de sermos falsamente acusados, fosse sim uma grande bobagem.

Tate Lyon-Johnson, 21 anos

Diretor-parceiro no comitê para saúde do gênero na UCLA, CA

Nos meus anos de ensino médio comecei a beber, e tão logo entrei nesse cenário, comecei a perceber uma cultura de estupro muito ativa. Os garotos embebedavam as garotas, algumas vezes sem nem mesmo beberem junto, apenas para conseguir levá-las para a cama. Tentava prestar atenção no que ocorria, tentava impedir experiências sexuais entre rapazes e garotas obviamente bêbadas, mas levei muitos coices por isso “Cara, você é viado? Sai daqui, porra.”

Mesmo que eu seja um homem hétero e cis, e me importe com consentimento, muita gente – não as mulheres com quem saio, mas seus amigos e outros homens – presume que sou gay, porque sou feminista ou falo sobre consentimento. E não sou gay, mas é outro exemplo de como os homens muitas vezes usam a homofobia para encerrar conversas sobre consentimento. Vez ou outra isso aparece de novo e eu tenho que lembrar as pessoas, “não, não, eu gosto de vaginas”.

Alguns nomes foram alterados por questão de privacidade.


publicado em 14 de Dezembro de 2015, 20:55
Beejoli shah

Beejoli Shah

Indiana, filha pródiga, uma pequena vida humana dentro do cérebro de @iammollymchugh. Repórter para alguns lugares que você leu e muitos que você não leu. Também pode ser encontrada no Twitter.


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