[18+] Bom Dia, Daienny Lima

A Daienny Lima é garçonete e foi fotografada grávida pelo André Patroni

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Nota editorial: estamos em busca de Bom dias com homens e com mais diversidade de corpos e peles — aqui explicamos em mais detalhes o contexto atual da série, suas origens, obstáculos e nossa visão de futuro para ela. Se você é fotógrafo(a) ou tem um ensaio que deseja publicar, fale conosco pelo jader@papodehomem.com.br .

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Há quem pense que grávidas devem se comportar como santas, devem se “dar ao respeito”, mas a verdade é que nunca vi alguém engravidar rezando Pai Nosso.

É claro que existe uma importante preocupação em dar orgulho à minha cria. Aliás, a preocupação é tanta, que já penso em maneiras de educar essa menina que sinto que será sagaz pra entender que a mãe dela não é do tipo padrão e nem quer ser. Mas nem por isso deixará de criá-la da melhor maneira que pode.

Mulheres engravidam todos os dias. Pretas, brancas, ruivas, deficientes, albinas, ricas e pobres. E sei que todas elas passam por momentos delicados, como eu passo. A gravidez muda muita coisa em nós, inclusive mexe com a nossa sexualidade de maneiras absurdas. Algumas se descobrem muito mais sexuais e outras, como eu, podem sofrer bloqueios surpreendentes nesse sentido.

Os motivos são vários e é claro que entre eles a pressão social pesa junto. Mas o que me incomoda é perceber que pouca gente fala abertamente desse assunto tão latente.

 

 

Quando o André me convidou pra fazer esse ensaio inspirado na Valentina, personagem tão decidida e cheia de atitude, surgiram muitas dúvidas. Me vi com receio de como isso soaria pra minha mãe, que faz parte de uma geração que vê a nudez como algo ofensivo e diretamente ligado à falta de respeito próprio. Me vi com receio também do julgamento que outras mães fazem do comportamento libertário na maternidade.

Antes de eu me descobrir grávida, faria as fotos na maior tranquilidade, só que agora eu não sou mais a mesma. Agora tem uma vida sendo gerada em mim e vários dedos apontados na minha direção, ansiando uma oportunidade de dar uma opinião não pedida. Mas até que ponto isso tudo passou a me afetar? Até que ponto me perdi e deixei de ser auto confiante? Topei o desafio curiosa em descobrir onde eu conseguiria chegar.

No fim das contas percebi que desengavetar lingeries e junto com elas a Dai que tava me dando saudade, acabou sendo um processo mais importante pra mim do que pro próprio fotógrafo que queria botar isso em prática.

A decisão foi tão válida, que tive a satisfação de ver minha o efeito que essa experiência causou nas mães que conheço e que não conheço. A minha própria mãe me surpreendeu curtindo o ensaio, e até mesmo uma doula com 60 anos apoiou toda orgulhosa a ideia que ele passa.

As histórias compartilhadas, o apoio, a franqueza que vi nelas ali me contando das suas angústias, dos julgamentos que também sofrem, tudo isso estimulado nelas e em mim.

Descobri que existem mulheres maravilhosas e fortes por aí querendo falar disso, querendo discutir essa questão assim como eu. E é tocando no assunto que nos sentimos mais confortáveis pra lidar com as nossas necessidades e ser quem de fato somos.

A correria diária e a responsabilidade que muitas de nós assumimos sozinhas pelos filhos que não são só nossos, nos fazem esquecer que ainda podemos ser interessantes e atraentes.

 

 

 

Admito que fazer pose sem a desenvoltura de antes e com o peso do barrigão, não foi tarefa fácil, mas eu consegui! E voltei pra casa me sentindo confiante pra entender que ainda que seja difícil conciliar as duas coisas, pra ser mãe, não é necessário deixar de ser mulher. E ser mulher, olhar pra si, não faz de ninguém menos mãe.

Valeu André! Valeu Valentina!

As fotos são do André Patroni.

 

Boa semana a todos.


publicado em 08 de Maio de 2017, 00:00
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Daienny Lima

Garçonete de bar alternativo campo-grandense. Libertária, tagarela e agora mãe. Idealiza um mundo onde as pessoas possam ser autênticas e acredita que a música é a melhor meditação.


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