3%: a primeira série brasileira do Netflix | O que esperar disso tudo?

A produção deve chegar na internet em 2016 e tem Bianca Comparato e João Miguel

Provavelmente você já leu as boas-novas da produção brasileira de séries. Hoje a internet amanheceu alvoroçada por aqui, pipocando a novidade do Netflix. Eles vão veicular a série nacional 3%, projeto de Pedro Aguilera que começou em 2011, com três episódios piloto no Youtube e em busca de grandes redes televisivas que os apoiassem.

De cara, eles trazem à tona uma reflexão sobre os diversos processos pelos quais somos testados ao longo da vida. A bizarra forma como somos colocados à prova quanto às nossas habilidades e controle emocional ao mesmo tempo que usamos do mesmo jogo para fazer igual a conterrâneos da mesma espécie nos alude à real condição humana e ao que somos capazes de fazer uns aos outros.

A história perpassa jovens e suas tentativas de ir para o Lado de Lá, que oferece melhores condições de vida e onde todos são tratados de forma igualitária. Como entrega o nome da produção, só 3% passam no processo, deixando a grande maioria num desolador cenário social - essa nossa vida do lado de cá.

No estilo Netflix, serão lançados sete episódios de uma só vez e eles começam a ser filmados no começo de 2016 aqui em terras tropicais. Bianca Comparato e João Miguel vão protagonizá-lo e não ficam para trás por serem brasileiros, já que o próprio serviço trabalha com Wagner Moura e José Padilha mesmo para sua produção americana, Narcos.

A série parece ser uma aposta no mercado brasileiro em tempos de crescimento do serviço no mundo - em abril, a sua base de usuários batia 60 milhões, dos quais 40,9 mi estão só nos Estados Unidos - e é bem relevante para as nossas perspectivas no campo do entretenimento, já que o Netflix chegou a ultrapassar o valor de mercado da manjada americana CBS no mesmo mês do ano passado e agora bota fé nos projetos de cá.

A produção por um veículo on-demand de uma série nacional que começou incerta pelos imensos campos do Youtube, a preços consideravelmente mais moderados do que os da TV a cabo brasileira, pode ser retrato de uma mudança no modo como a gente consome conteúdo no Brasil. No país, o número de entrevistados que assistem à programação de TV tradicional caiu de 81% em 2013 para 73% em 2014. Além disso, um quinto deles já está preparado para pagar pela possibilidade de acessar o conteúdo escolhido de qualquer dispositivo, e nada mais, nada menos do que 48% pagariam por um serviço de TV personalizado - isso é o que dizem os estudos do ConsumerLab.

Agora, quando acessarmos o Netflix, não só poderemos ter acesso a conteúdo personalizado da gringa, mas nacional e de qualidade, que pode ser possibilitado por este novo modelo. Isso porque os riscos de erro no alocamento da série em horários e público-alvo específicos que correria a TV tradicional são diminutos no serviço dada a maleabilidade de consumo que compramos ao depositar a grana mensalmente.

Mais ainda, este novo protótipo de veiculação de entretenimento devem, no Brasil e no mundo, mudar a forma como entendemos não só consumir, mas pagar por conteúdo. Isso porque, dessa forma, meu entretenimento cabe no orçamento e é de uma variedade noviça. Assisto o que quero, quando e como for conveniente pra mim - sem ter vinte minutos do que estou financiando cedido à pura e explícita propaganda da loja de móveis.

Talvez o processo seja parecido com a forma como apreendemos a produção independente, em que o dinheiro é repassado mão a mão. Como o streaming e o on-demand vão impactá-la é destino incerto, mas com certeza ambas caminham juntas quando falamos em custeio direto da criação pelo comprador.

Dessa liberdade, já sabemos que gostamos. Por aqui, bombam as mais recentes formas de pirataria - os downloads e torrents. No mundo, esses números vêm diminuindo - o uso do BitTorrent continua a cair e equivale hoje a 6,3% do tráfego de dados da rede americana. Em 2008, esse total era de 31%.

Se colar pros brasileiros, os serviços de streaming a preços acessíveis devem comer parte desta pizza. A facilidade do acesso legal a uma gigante gama de programação deve ser o impulsionador do fenômeno, e o início das produções brasileiras é evidência. Esperamos que 3% venha, e traga junto outro olhar sobre o nosso comportamento consumidor, mais consciente e dono do que compra.


publicado em 05 de Agosto de 2015, 17:55
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Marcela Campos

Tão encantada com as possibilidades da vida que tem um pézinho aqui e outro acolá – estuda Jornalismo na Universidade de São Paulo, mas também cursa Saúde Reprodutiva Holística no Justisse College. Compõe a equipe de conteúdo do PapodeHomem, modera uma comunidade de quase dez mil mulheres e não tem preguiça de bater um papo bom.


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