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3 grandes mentiras sobre viagens de férias

#1. “Você precisa ver o..."

Como todos nós sabemos, de médico, de louco e de agente de viagens todo mundo tem um pouco.

Então a primeira coisa que tende a acontecer assim que você contar pra alguém que vai fazer uma viagem de férias (seja Londres, Goiânia ou Tibet) é ser inundado por dicas, orientações, informações, sugestões e, claro, certas ordens expressas do tipo “você precisa ver essa festa”, “você precisa ir naquele museu” ou “você precisa comer naquele restaurante”.

Todas dicas bem intencionadas, todas orientações visando o seu bem, todas informações dadas com o coração aberto e um sorriso no rosto, claro (exceto a festa no Tibet, que pra mim soa meio furada) mas que ignoram uma simples e básica verdade: são as suas férias e você é quem deve decidir o que fazer.

"Não me diga o que eu não posso fazer nas férias!"

Não, não que ouvir um relato de viagem de alguém que conhece o lugar, pesquisar na Internet sobre coisas legais pra fazer ou conseguir sugestões das pessoas que moram lá não possa ajudar muito a ter uma viagem legal e divertida, mas você deve sempre ter em mente o conceito de que não é “obrigado” a fazer nada e que qualquer sugestão deve ser filtrada pelo seu ideal de diversão e pelo que você realmente se anima a fazer.

Soa estranho pra todo mundo você ir a Paris e não ver o Louvre? Possível. Mas e se você tiver que sacrificar a sua ida ao Louvre pra fazer algo que você acha mais divertido e que se encaixa mais nos seus gostos, seja uma rave ou uma exposição de taxidermia? Ah, amigo, foda-se o Louvre então.

E o mesmo vale pra qualquer bar, festa, restaurante, museu, ou qualquer outra coisa que não combine contigo e com o que você gosta. Afinal, qualquer olhar de reprovação é melhor do que a sensação que eu tive, depois de ver a troca da guarda em Londres, de que eu tinha perdido duas horas da minha viagem vendo algo que parecia a troca de porteiros do meu prédio, só que com cavalos fantasiados e música chata ao fundo.

#2. “Temos que marcar a viagem com o máximo de antecedência!"

Planejamento rules em termos de viagem. Com um planejamento de longo prazo e ações tomadas com antecedência você consegue passagens mais baratas, hospedagem melhor, aproveitar mais seu tempo no local e uma ampla gama de atividades. Ou seja, tudo legal, tudo sensacional, vamos planejar agora as férias de 2017, certo? Certo, claro, não fosse por uma coisa: o “fator Claudinha”.

Suponha que você e um amigo marcaram uma viagem pra Amsterdam. Não, desculpa, não uma viagem pra Amsterdam, mas “a” viagem pra Amsterdam. Sim, aquela, amigo. Aquela que faria Se beber, não case parecer um episódio de Vila Sésamo, a cena do jumento cheirando cocaína em A última despedida de solteiro parecer um anúncio de margarina e a filmografia da Sasha Grey soar como um teaser do longa live-action dos Ursinhos Carinhosos.

Com um ano de antecedência compraram as passagens por 40% do preço, reservaram o hotel ao lado do Red Light District, compraram os tickets da Heineken Experience e os caras do bar de gelo já tinham uma recepção especial preparada pra vocês, com ursas polares vestidas de odaliscas. Lindo, genial, épico, awesome, legen...wait for it...dary! Até seu amigo conhecer, como eu já havia mencionado, a Claudinha.

"Oi, eu sou a Claudinha."

Sim, faltando três meses pra viagem ele conheceu essa garota e bem... se apaixonou. O que é bonito, claro. Não fosse por causa disso ele ter quase cancelado a viagem, ter pedido uma troca de hotel (“Claudinha não quer que eu fique perto da zona, sabe como é...”), ter evitado beber em metade das noites, ter passado todo o tempo na fábrica da Heineken falando ao telefone e ter feito você experimentar tamancos pra ver qual número ficaria legal nela (“É que você tem pés pequenos, brother”). Sim, tamancos, amigo.

E essa é a grande lição do “fator Claudinha”: pessoas mudam e isso está fora de qualquer planejamento. Gente que em setembro queria fazer uma viagem de curtição insana e bebedeira descontrolada pode estar em janeiro querendo aproveitar a viagem pra conhecer as catedrais e se aproximar de Deus, enquanto pessoas que em janeiro estavam noivas e iam viajar pra estudar podem estar agora querendo conhecer o sub-sub-submundo de Paris sem usar roupa de baixo.

Não que ninguém deva assinar um pacto de não-mudança (“me comprometo a não mudar meu estado civil, hábitos alcoólicos ou opção religiosa até depois da viagem”), mas é sempre interessante levar em conta certos fatores que estão acima do controle, mas que influem diretamente no resultado final da viagem e no fato de que ela vá ser ou não tão divertida quanto você planejava.

Afinal, como eu disse, tamancos sempre são tamancos.

#3. “Uma viagem em grupo vai reforçar a nossa amizade.”

Viagens em grupo são sempre uma ótima opção para quem quer companhia e não se sente com confiança o bastante pra desafiar um país, uma língua, uma moeda – ou, no caso da Inglaterra, um sistema métrico e de trânsito – estranhos, além de apresentar possibilidades de diversão que uma viagem solitária ou de casal não oferecem.

Numa viagem em grupo você sempre tem alguém com quem contar seja em caso de necessidade, seja como companhia pra um chopp, seja apenas pra fazer uma piada na sua língua que traduzida por francês ficaria uma merda. Mas da mesma forma que uma viagem em grupo tem uma gama de vantagens que eu poderia passar horas citando, ela também tem a sua cota de desvantagens (como basicamente tudo na vida, claro).

Adolfinho e seus companheiros de viagem saindo pela manhã.

Primeiro porque pessoas diferentes pensam diferente e tem ritmos diferentes. Algumas pessoas gostam de museus e algumas pessoas odeiam museus. Algumas pessoas gostam de caminhadas e algumas pessoas pegariam o carro pra ir até a geladeira. Algumas pessoas são totalmente noturnas, acordam tarde e só começam a apresentar traços de dignidade humana depois das onze e algumas pessoas acordam sorridentes às seis e querem colocar as coisas no carro e sair.

E isso gera, é claro, conflito. Afinal, o que soa mais cruel do que você, nas suas férias, após uma noite de Oktoberfest envolvendo 9 litros de cerveja, 2 galetos e 3 garotas vestidas de tirolesas, ser obrigado a acordar às oito da manhã pra ir visitar um museu? Bem, ainda que eu, você e todos na ONU consideremos isso como ato desumano, muitas vezes para o seu amigo hiperativo é a coisa mais normal do mundo.

Viagens reforçam, sim, laços de amizade. Viagens aproximam, sim, pessoas. Mas também exigem uma paciência, uma maturidade e uma sintonia que nem sempre você vai encontrar em todo mundo. Bons amigos não são necessariamente bons companheiros de viagem e uma forma boa de evitar conflitos, problemas e gente que tenta expulsar as suas tirolesas do quarto é tentar se certificar de que o ritmo e os projetos de férias das pessoas com quem você viaja são parecidos ou ao menos não conflitantes com os seus. Assim você mantém os amigos e ainda garante uma viagem sadia.

E pra fechar de forma bem madura o texto, uma cena de Eurotrip em homenagem ao pior momento das minhas últimas férias, quando um italiano me ofereceu três jaquetas pra que eu desse uma volta de carro com ele. Péssimo, amigos.

E antes que as piadinhas comecem: não, eu não aceitei.

Link YouTube | "Epa! Túnel grande..." (a dublagem deixa a cena ainda mais hilária).


publicado em 26 de Outubro de 2010, 04:16
Selfie casa antiga

João Baldi Jr.

João Baldi Jr. é jornalista, roteirista iniciante e o cara que separa as brigas da turma do deixa disso. Gosta de pão de queijo, futebol, comédia romântica. Não gosta de falsidade, gente que fica parada na porta do metrô, quando molha a barra da calça na poça d'água. Escreve no (www.justwrapped.me/) e discute diariamente os grandes temas - pagode, flamengo, geopolítica contemporânea e modernidade líquida. No Twitter, é o (@joaoluisjr)


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