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3 Twitters imperdíveis, 3 atitudes cotidianas

O Twitter é, para muitos, um disseminador de distrações e reclamações da nossa sagacidade vazia. Porém, pode ser um espaço para observações precisas sobre nosso cotidiano. Tal olhar sobre pontos muitas vezes banais do dia-a-dia é um prato cheio para quem gosta de contemplar crises comuns, que muitas vezes deixamos passar despercebidas em meio ao turbilhão.

Aproveito para mostrar três perfis que evidenciam atitudes, visões, posturas sobre as quais nos alternamos de olhos fechados, na maior parte do tempo.

O Cão da Depressão (@caodadepressao)

É assim que ela o enxerga quando você fica choramingando.

Com o mote "Muitos te seguem. Ninguém te retweeta.", o Cão da Depressão está ali para lembrar de nossa face mais miserável de sofrimento e solidão. Exatamente por isso é extremamente libertador.

Podemos ler e nos pegar rindo de situações ridículas que muitas vezes nem notamos, como estar em casa, trancado, assistindo televisão enquanto as pessoas estão aproveitando o fim de semana com os amigos. Ou quando nos enchemos de expectativas, querendo que uma pessoa nos note e, quando isto acontece, ela não vê nada de mais na nossa presença.

Assim ele segue, ora nos fazendo rir, ora fazendo lamentar, com tweets como estes:

"Você tem companhia pra hoje. Televisão."
"Sorria. Minta a si mesmo que está tudo bem."
"Você tem programa pra sexta feira. Twitter. #twitterdadepressao"
"Diga a ela o quanto a ama. Insista em algo que não dará certo."
"Ela não está offline, você que está bloqueado."
"Você tem coragem. Na internet."

O Lobo da Coragem (@lobo_da_coragem)

Seguimos, agora, com o aspecto destemido e corajoso. A personalidade que mais gostamos de exibir. O SUCESSO, em caixa alta e negrito. É assim que o Lobo da Coragem nos mostra nosso lado egocêntrico, egoísta, destemido, prepotente, orgulhoso, opressor e transgressor. É a face de uma liberdade arrogante, muitas vezes verdadeira, apesar de exagerada. Divertida, selvagem e furiosa.

Acredito que as mulheres ao nosso redor seriam bem mais felizes se falássemos mais como o Lobo da Coragem do que como o Cão da Depressão.

"Você sabe que sou perigoso e é por isso que não consegue me largar."

Este aspecto é o exagero de uma postura que adotamos quando estamos cheios de energia, preparados para caçar, guerrear e conquistar. É o que dizemos ou fazemos quando temos raiva, desejo de vingança ou abrimos uma atitude dominante sobre o que nos aflige.

Incorpore este espírito e veja se você não vibra ao se imaginar tendo potência suficiente pra dizer algumas dessas coisas:

"SUTILEZA É COISA DE COVARDES QUE TEMEM AS CONSEQUÊNCIAS DOS SEUS ATOS. SEJA DIRETO."
"CONTROLE. ESTEJA DO LADO CERTO DELE."
"IGNORE AS REGRAS DA SOCIEDADE. FAÇA AS SUAS. IGNORE-AS TAMBÉM. VIVA SEM REGRAS."
"CULTO À PERSONALIDADE: A MAIOR PROVA DE QUE VOCÊ NÃO TEM NENHUMA."
"VOCÊ SÓ É GORDO PORQUE É PREGUIÇOSO E GLUTÃO. DESTRUA SUAS DESCULPAS FAJUTAS. PARE DE CHORAR. COMECE A CORRER."
"A VIDA É UMA MULHER GOSTOSA DE PERNAS ABERTAS. VAI FICAR RECLAMANDO OU VAI COMÊ-LA?"

O Lobo da Coragem é a ação, movimento corporal, som. Geralmente, quando entramos neste extremo, estamos tão cegos quanto nos nossos momentos de Cão da Depressão. Fortes, sim, mas nem por isso menos arrastados de forma inconsciente. Somos energia descontrolada, sem foco, sem razão.

Bem sabemos que podemos até tentar seguir deste jeito, mas não vamos muito longe. Logo caímos novamente e voltamos a ser o cãozinho deprimido.

Existe uma saída?

Contardo Calligaris (@ccalligaris) e o amor urbano

Eis que chegamos ao nosso terceiro aspecto, aqui representado pelo Twitter do psicanalista Contardo Calligaris (@ccalligaris) e suas séries "Solidão Urbana" (#SolidãoUrbana) e "Encontros Urbanos" (#EncUrb). Ao contrário dos nossos dois perfis anteriores, ele não se envolve pelas emoções em questão, é apenas observador presente. Não personifica emoções, não gruda nelas, apesar de viver as cenas de maneira plena.

Esta é a nossa terceira postura: o olhar observador. Aquele sentar-se em silêncio, respirar calmamente e ver o mundo passando ao seu redor, ouvindo os pensamentos, experimentando as emoções, fenômenos externos e internos. Apenas apontá-los. Não atribuir sentidos. Não se deixar levar. E, a partir desta presença imperturbável, perceber livremente o curso dos momentos.

Não precisa ser psicanalista, basta abrir os olhos.

Momentos simples, claro, que muitas vezes duram apenas alguns segundos. Retratos mesmo, frames, cenas de um clipe que o Calligaris captura e nos mostra com muita precisão, utilizando apenas 140 caracteres.

Veja abaixo alguns exemplos de sua primeira série de 100 mensagens:

"Para quem ensaia muito, quando as coisas acontecem, elas são como qualquer estreia de teatro: uma decepção."
"Gosto de companhia, mas amo mesmo quem aguenta que, às vezes, fiquemos ambos sozinhos, lado a lado, juntos."
"No espelho, não enxergamos nosso reflexo, mas uma conjetura: o que veem os outros quando olham para nós?"
"Por sermos cebolas, quando mexemos com nossas camadas, não encontramos nada. E acabamos chorando."
"Rápida troca de sorrisos no elevador. Resta um sentimento bem urbano: a nostalgia de uma coisa que não aconteceu."
"Invejo todas as vidas diferentes da minha, pois todas são histórias que lamento não viver ou não ter vivido."
"Um amor discreto: compravam ingressos pela net, chegavam e saiam separados, mas viam o filme lado a lado, como namorados."

E a segunda de sua nova série, ainda em andamento:

"Não viviam juntos, mas, na cama, depois de transar, conseguiam terminar um pote de sorvete, com uma colher só."

Então, esta é a minha recomendação de hoje: usar o Twitter menos como uma fuga e mais como uma forma de ir ao encontro – com bom humor – de tudo que deixamos passar batido, que temos medo de olhar. Em nós ou nos outros.

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publicado em 10 de Novembro de 2010, 00:39
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Luciano Andolini

Cantor, guitarrista, compositor e editor do PapodeHomem nas horas vagas. Você pode ouvir no Spotify. Também escreve no Medium e em seu blog pessoal. Quer ser seu amigo no Facebook e Instagram.


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