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4 motivos pelos quais nós escolhemos permanecer ignorantes

Se você pudesse saber tudo que acontecerá na sua vida, você gostaria?

A 23andMe é uma companhia de genômica e biotecnologia que fascina seus clientes por informá-los de sua ancestralidade com uma simples amostra de saliva. Um ano depois da fundação da empresa, em 2007, ela começou a revelar predisposições pessoais provenientes de traços genéticos. Muitos perceberam rapidamente que, apesar de descobrir sua ancestralidade poder ser um empreendimento divertido, um lampejo do futuro é inquietante.

A Food and Drug Administration interveio imediatamente. Falar aos consumidores quais doenças eles seriam ou não suscetíveis pode resultar em decisões vitais precipitadas. Por outro lado, saber quais riscos você corre é um catalisador para um estilo de vida melhor e mudanças na alimentação. A eficácia desses testes também pode ser contestada, ou pelo menos foi isso que inúmeros processos afirmaram.

Isso invoca um dilema intrigante à medida que a ciência oferece uma visão mais adiante. O quanto do futuro você quer saber? Virar cartas de tarô e varetas de milefólio e analisar a posição de animais imaginários no céu estrelado são métodos antigos para prever o que está por vir. Mas se você descobrisse um método confiável de verdade, no entanto, você o usaria?

Para a maioria a resposta é não, afirma um novo estudo de Gerd Gigerenzer e Rocio Garcia-Retamero publicado na Psychological Review. Os humanos podem ter uma ambígua aversão e necessidade por encerramento, os pesquisadores escrevem, e ainda assim na maioria das vezes não queremos saber o que está à frente, especialmente quando se trata de possibilidades negativas.

Cerca de dois mil participantes responderam perguntas na Alemanha e na Espanha, com um número ligeiramente maior de mulheres participando. A variação de idade foi dividida igualmente em três grupos: 8-35, 35-50 e 51+. Quase 70% dos grupos não participava de nenhum serviço religioso.

Os resultados foram quase idênticos em ambos os países. Quando perguntados se eles gostariam de saber quando seus parceiros morreriam e como, 90% respondeu não às duas questões. O mesmo aconteceu em relação à data da própria morte. Quando perguntaram sobre se e quando iriam se divorciar, as porcentagens permaneceram nos oitenta e tantos.

Se você pudesse ver sua vida toda, você mudaria algo?

Quando indagados sobre eventos positivos de suas vidas, os números nem de perto foram tão unânimes, apesar das pessoas preferirem, em geral, ignorância sobre conhecimento. Você gostaria de saber o resultado de um jogo de futebol que você não poderia assistir ao vivo? Mais de três-quartos disseram não. E quanto ao próximo presente de Natal? Enquanto 60% disse não, outro terço ficou incerto, deixando os “sim” definitivos com menos de 7%. Vida após a morte? Sexo da sua criança? Aproximadamente 43% disseram sim em ambas as perguntas.

Dado o quanto odiamos narrativas incompletas, por que a aversão? Gigerenzer e Garcia-Retamero diferenciam a ignorância, que é um “estado de conhecimento em que o indivíduo não sabe a resposta para a pergunta”, e ignorância deliberada, ou seja, “a decisão obstinada de não saber, ao contrário da inabilidade de acessar informações ou do desinteresse na questão”. Dado que essa informação é grátis e haja interesse pessoal, os pesquisadores descobriram quatro motivos para querermos permanecer deliberadamente ignorantes.

Para evitar más notícias em potencial

Os pesquisadores citam testes genéticos no relatório. Saber se você é suscetível ao câncer de mama, por exemplo, é uma decisão que muitas mulheres ainda lidam com dificuldade. Angelina Jolie se submeteu a uma mastectomia dupla recentemente depois de descobrir que carregava uma mutação no gene BRCA1, já tendo perdido três familiares para esse câncer. Enquanto a decisão de fazer a cirurgia foi intensamente debatida pela imprensa, Jolie é um exemplo raro de não só querer saber, mas de tomar medidas preventivas sem uma prova definitiva. Ela talvez nunca saiba com certeza, mas também não sofrerá as consequências da inação.

Para manter emoções positivas de surpresa e suspense sobre eventos pessoais importantes

Obrigada à dopamina por essa. Não importa o quanto gostemos de narrativas completas, atos de surpresa — isso é uma nova mensagem? — liberam um coquetel neuroquímico agradável, para melhor ou pior (pior quando você está dirigindo ou quando você deveria estar atento a algo). O neurocientista de Stanford Robert Sapolsky chama isso de “a mágica do talvez”, a sedução do mistério que é destruída pela certeza. Se soubéssemos sempre o que vem pela frente, nossa motivação iria cair significativamente.

Para estrategicamente lucrar por permanecer ignorante

A cegueira obstinada teve um papel importante na crise financeira de 2008, os autores escrevem. Ao não saber, mesmo que você soubesse, você é capaz de mais tarde se abster da responsabilidade e evitar o comprometimento. Isso é visto prontamente quando políticos declaram que eles “não podem nem confirmar nem negar essa afirmação” em audiências do Congresso. É um passe “saia de graça da prisão” que todo mundo que está ouvindo sabe que é uma farsa.

Para aumentar a legitimidade e a imparcialidade

Humanos são animais complexos com motivos variáveis. Enquanto uns são propositalmente ardilosos, também temos um senso inato de igualdade. O primatologista Frans de Waal mostrou isso em seus experimentos com macacos-pregos. Dê uma fatia de pepino para dois macacos e eles ficam felizes. Dê a um deles uma uva e outro rejeitará o pepino com uma raiva frustrada. Ele sabe que está sendo tratado injustamente. Na maioria das vezes os humanos utilizam a mesma bússola moral.

Somente 1% dos participantes respondeu sim para todas as perguntas nessas pesquisas. Em geral os humanos anseiam por conhecimento. Fazemos exames de detecção de câncer regularmente para evitar catástrofes. Fazemos testes genéticos em nossos filhos não nascidos para nos prepararmos para o pior. Monitoramos nossa saúde em nossos pulsos e com contadores de caloria. Fofocamos, contínua e desnecessariamente, para “conseguir a história toda”.

E ainda assim não somos vidrados na certeza, os autores concluem. Alguns mistérios são melhores se não ditos, para que se possa “renunciar o sofrimento que pode ser causado ao saber o futuro, evitar o arrependimento e manter também o prazer do suspense que eventos agradáveis fornece”.

A dopamina, meus amigos, ela sempre vence.

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Traduções é uma série sob curadoria de Breno França publicada semanalmente às quartas-feiras.

A dessa semana foi publicada originalmente em inglês no excelente site Big Think e traduzido para o português por Julia Barreto.


publicado em 05 de Abril de 2017, 00:05
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Derek Beres

Escritor, produtor de música e instrutor de yoga baseado em Los Angeles. Pode ser encontrado no seu site, no Facebook e no Twitter.


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