500 dias depois dela

Você viu "500 dias com ela", mas já viveu 500 dias depois dela?

Os personagens são comuns. A história é comum. O garoto encontra a garota. Ele esforça-se para ir na direção dela. Ela acaba cedendo, por achar aquele exemplar de ser humano adoravelmente desengonçado. Ele vive cercado por quimeras criadas por si mesmo. Ela é um exemplar de leveza, beleza e fluidez. O palco armado, as luzes acesas, a peça segue. O filme se transforma em sonho. A ilusão, em realidade. O fim chega.

Este é o andamento das nossas relações. Construímos um personagem no decorrer dos dias e, ao final, vemos a sua morte. Choramos no enterro e seguimos de luto até percebermos que, sim, a vida continua.

Não importa o ator, o personagem é um só.

Assim como o filme 500 Dias Com Ela (500 Days Of Summer) não é uma história de amor, este texto – que troca "com ela" por "depois dela" – não o é. Também não é sobre decepção, desilusão ou qualquer desses mecanismos que surgem na nossa cabeça, quando pensamos em termos de sucesso ou fracasso.

Isso aqui não é sequer um texto. Na verdade, é um trecho em câmera lenta que mostra o que acontece no intervalo das baladas de rock que compõem nossas vidas.

O momento mágico do pé na bunda

Após o término de um relacionamento, olhamos pra nós mesmos como um corpo sem alma. Perdemos o tesão.

Existe, porém, um momento mágico ao levar um pé na bunda. Ele vem após um período de choradeiras e lamentações, de ficar andando pela rua de cabeça baixa, peito contraído, reclamando de tudo. Após se sentir o lixo mais desprezível da face da Terra, olhar-se no espelho e desejar que aquele corpo sem vida de fato apodrecesse em um caixão.

Desperdiçamos muita energia pensando em como tudo deveria ter sido, como deu errado e o que poderíamos fazer para que este final trágico não mais se repita. Tornamos as coisas mais difíceis ao olharmos para nós mesmos com desprezo pela liberdade que temos de, a qualquer momento, virarmos o jogo. Esquecemos da nossa autonomia. Esquecemos quem somos. Ou, melhor dizendo, esquecemos o que, de fato, somos. Tudo o que conseguimos fazer é nos manter ressaltando nossos defeitos, problemas e insignificância, incapacidade e impotência.

Se pudéssemos, por um instante, voltar para o momento anterior ao nosso final trágico, veríamos um homem cheio de si, preenchido por uma energia milagrosa, com uma vida que faz sentido. Mas, se formos mais espertos, voltaríamos para antes disso. Olharíamos para antes da felicidade, antes da chegada da garota especial, antes da "mulher da vida dele".

As cores da imagem seriam diferentes. Este personagem estaria diferente. O homem aqui é um exemplar de homo sapiens macho. Frustrado, sem energia, buscando uma peça que se encaixe. Ele não percebe, mas cria para si mesmo os fantasmas que o atormentam. E, diante destes monstros, cria também um anjo salvador na pele de uma mulher maravilhosa. Sarcástica, inteligente, simpática e, como se não bastasse, bonita.

Um fantasma ilusório criado para lhe atormentar.

O que ele ainda não havia admitido para si mesmo, antes de conquistar/perder o seu "anjo salvador", é que vivia desperdiçando sua vida. Desperdiçava seu talento num emprego que não o satisfazia e também não beneficiava ninguém. Não contribuía em nada, de fato, para o bem-estar daqueles que o rodeavam.

O momento mágico, quando o relacionamento desaba, é a oportunidade de rever completamente nossa existência no mundo através do ponto mais concentrado de nossa consciência: a dor.

Assim, de repente, ele não tem mais desculpas para dar a si mesmo. Não vai poder dizer "Pelo menos tenho minha namorada". Nem "Não importa o que aconteça, ela estará ao meu lado". Sem prêmios de consolação. Sem afagos da mamãe. Apenas os escombros ao seu redor.

Ele olha novamente para os seus sonhos. Olha novamente para suas qualidades, numa tentativa de descobrir algo que tenha resistido ao impacto. Algo que não tenha sido arrastado pelo tsunami. Neste momento descobre o grande segredo. A motivação.

Algum ímpeto surge. Ele tem raiva, o sangue corre novamente. Matricula-se numa academia, corre, estuda, trabalha naquilo que realmente o preenche. De repente resolve mostrar que vive além do que o afligia. Transforma sua vida no que sempre sonhou. Subitamente, ele é aquilo que pensava faltar no relacionamento que acabou. Sente-se pronto pra outra.

De volta ao centro das bifurcações...

Agora, surge um novo universo de possibilidades. Fica difícil não pensar no que poderia acontecer, já que ele se tornou um outro personagem. Mais forte, destemido. Quem sabe a ex-namorada volte? Quem sabe ele encontre outra? Quem sabe resolva viver solteiro, comer todas as mulheres que encontrar pela frente? O que importa?

É aqui que terminamos, de volta ao planejamento.

Ele realinhou sua vida, correu novamente atrás do seu horizonte. Descobriu a satisfação de estar no lugar certo, fazendo o que, para ele, é certo. Isso é o que realmente importa. Nós somos isso.

Enquanto não descobrimos a força de estar alinhados com um propósito, seja ele qual for, vamos escorregar. Não saberemos como permanecer em pé mais do que um instante, sem necessitar obrigatoriamente de uma mão para nos amparar.

O fim, em geral, contém essa carga benéfica. Ele nos impulsiona a mudanças que de outra forma não nos motivaríamos a realizar. Sem isto, talvez ficássemos muito tempo estagnados, sem propósito, sem saber o que fazer. Claro, existem outras maneiras de sustentar a energia e seguir mantendo uma visão nítida, com os olhos no horizonte, mas não falaremos disso hoje.

O filme precisa continuar.


publicado em 10 de Outubro de 2010, 05:30
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Luciano Ribeiro

Cantor, guitarrista, compositor e editor do PapodeHomem nas horas vagas. Você pode ouvir no Spotify. Também escreve no Medium e em seu blog pessoal. Quer ser seu amigo no Instagram.


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