8 escolas estão ocupadas pra que 94 não sejam fechadas

Em São Paulo, estudantes da rede pública estadual estão ocupando suas escolas em resistência ao plano de reorganização da gestão Alckmin

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Nota da autora:  já são mais de 70 escolas ocupadas. Está em debate a possibilidade de suspensão do fechamento e reorganização das escolas em 2016 em até 48h após a desocupação das escolas. Os colégios deverão, agora, discutir internamente e apresentar outras propostas para o governo até o fim do ano.

* * *

Oito escolas estão ocupadas por estudantes secundaristas aqui em São Paulo. O movimento tá acontecendo desde outubro em função de discordâncias em relação ao plano de remanejamento de alunos nas escolas públicas em 2016.

Plano de reformulação da rede paulista de escolas

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, anunciou, no final de setembro, o plano de reformulação da rede paulista de escolas. A ideia é que elas tornem-se instituições de ciclo único, isso é, que hajam três tipos de escolas para atender a três diferentes ciclos – ensino fundamental I (1º ao 5º ano), ensino fundamental II (6º ao 9º ano) e ensino médio – e eles não se misturem num mesmo ambiente.

Segundo o secretário de educação do estado, Herman Voorwald, o plano deve afetar até mil escolas e, pra que aconteça, cerca de 311 mil alunos devem ser transferidos, no próximo ano letivo, para unidades que fiquem dentro de uma distância máxima de 1,5km da sua instituição de origem. O comunicado do destino de cada aluno deve chegar amanhã, 14 de novembro.

Hoje, das 5108 instituições no estado, 1443 são de ciclo único. A ideia é que mais 754 sejam criadas.

A medida, de acordo com o governo do estado, tem base teórica que suporta sua implantação: um levantamento interno que aponta que, nos colégios onde o ciclo único já vigora, o rendimento dos estudantes é cerca de 22% maior. Importante dizer, aqui, que o levantamento não está linkado nos grandes veículos de comunicação, nem na página oficial do estado.

No rol dos benefícios, as fontes oficiais dizem também que a distinção por faixa etária torna o trabalho das diretorias pedagógicas mais eficiente, já que podem focar em necessidades de aprendizado mais específicas e os professores não devem ter que se locomover pra dar aulas em unidades diferentes.

Tudo lindo. Tudo beleza.

O que está mesmo muito estranho é que, nessa brincadeira, 94 escolas da rede deixarão de funcionar.

94 escolas vão fechar e 28 delas não têm uso futuro definido

Dessas unidades, 66 serão repassadas pras redes municipais (e serem destinadas a abertura de creches e pré-escolas) ou serão reaproveitadas pelo estado para instituições de ensino técnico, de línguas ou para jovens e adultos. Não há, no entanto, previsões de como e quando isso deve acontecer.

As outras 28 unidades não têm destino certo.

A justificativa oficial é que, desde 1998, a rede pública de ensino perdeu 2 milhões de alunos e muitas escolas estão operando em capacidade ociosa. O estado declarou também que as mudanças foram feitas respeitando o limite de alunos por classe (30, 35 e 40 respectivamente para ensinos fundamentais I e II e ensino médio).

Mas há discordâncias.

Os alunos dizem que a tendência é que as salas fiquem mais lotadas e reclamam da falta de consulta e diálogo em relação ao plano. Eles estão em movimento e manifestação desde outubro, e agora ocupam seis escolas da capital e da região metropolitana.

Além disso, a realocação pode provocar transtornos já que, ainda que a distância não seja tão grande, crianças e adolescentes serão expostos a áreas com as quais não estão habituados. Mães também reclamam sobre isso, como é o caso da auxiliar de limpeza Sandra Eliza Guimarães dos Santos, que falou com a Folha de S.Paulo:

“Eles querem fazer minha filha sair de uma escola perto pra andar 1,5km. O caminho da nova escola tem pontos de tráfico de drogas e ela vai ter que passar por lá às 6h30. Agora, você acha que eu vou ficar tranquila no trabalho pensando na segurança dela?”

Pais e alunos não foram consultados quanto às medidas tomadas e não houve negociação desde as manifestações em outubro. Ontem, pela manhã, o secretário da educação convidou os estudantes que ocupam a E.E. Fernão Dias Paes, em Pinheiros, pra uma conversa para a qual disponibilizaria um ônibus para o transporte até a secretaria.

Pensou pouco. Pensou mal. O porta-voz dos alunos, Heudes Oliveira, mandou:

“Aceitamos o diálogo desde que seja aqui. Isso é uma tentativa de nos tirar da escola. Ele pode vir aqui e conversar com todos os alunos. Agora é a vez da nossa voz, não da dele.”

Mais tarde, o Tribunal de Justiça de São Paulo determinou a reintegração de posse do colégio. Os estudantes devem desocupar o prédio espontaneamente em 24h, caso contrário, as pessoas serão retiradas coercitivamente.

Das oito unidades ocupadas, cinco ficam na capital (E.E. Pio Telles, E.E. Ana Rosa, E.E. Castro Alves, E.E. Fernão Dias Paes e E.E. Salvador Allende Gossens). Há uma em Diadema (E.E. Diadema), Santo André (E.E. Valdomiro Silveira) e Osasco (E.E. Profa. Heloisa de Assumpção).

Os alunos já avisaram por diversas vezes que, apesar de impedirem a entrada dos professores e coordenadores, as escolas não estão sendo depredados e as salas dos diretores permanecem trancadas. O espaço tá sendo usado como forma de resistência ao fechamento e para reuniões e assembleias, nas quais os estudantes deliberam ações e comissões pra execução de tarefas básicas como o preparo da comida e a limpeza.

O Sindicato dos Professores do Estado de São Paulo (Apoesp) também é contra a reorganização e já declarou apoio aos alunos.

A entidade diz que isso poderia precarizar a remuneração dos professores. A presidente, Maria Izabel Noronha, também falou com a Folha de S.Paulo:

“Os professores, transferidos na marra, terão de disputar por créditos e disciplinas com aqueles já lotados nessas escolas. Ganha quem tiver mais tempo de serviço. Quem não conseguir manter sua carga horária, terá seu salário reduzido.”

Apesar de pedagogicamente coerente, a medida, do modo como está sendo tomada e envolvendo fechamento de unidades, parece convenientemente econômica em tempos de redução de verbas para educação como política federal e estadual – lembrem-se dos cortes nas universidades públicas paulistas.

Até a coordenadora geral da conhecida ONG Todos Pela Educação, Alejandra Meraz Velasco, fala em “racionalização dos recursos”. Neide Noffs, diretora da Faculdade de Educação da PUC-SP, disse que a mudança faria sentido se melhor planejada, talvez, para 2017, mas também desconfiou:

“Colocar alunos na mesma sala, reduzir a carga horária do professor, tudo isso está embutido em uma provável ideia de economia.”

Resistir para aprender

Se a ideia de que a educação acontece melhor se enformada rege o modo como aprendemos e ensinamos hoje, sabemos que a institucionalidade não é o único modo pelo qual aprendemos as coisas.

Aprender a executar tarefas e resolver impasses é o cerne de qualquer trabalho, que parece ser o principal modo pelo qual nos educamos durante toda a vida adulta. Não desmereço, aqui, o conhecimento teórico que nos serve de base pra pensar soluções, mas não fosse a prática professora da maestria, arrisco dizer que nossa evolução intelectual se daria por encerrada por volta dos vinte anos.

Tanto é que não faltam novas diretrizes pedagógicas, nos colégios, que instruem pela criação de atividades simulacro da interação social espontânea.

Falo como alguém que já pisou no centro de uma sala de aula e, na busca por atribuir relevância e significado no ensino para adultos, achou atividades de dupla e grupos como a solução e, na tentativa de engajar crianças no processo, ocupou suas mãos com projetos e acabou com a regra do silêncio na sala de aula.

Diria ainda que a educação política é, de longe, negligenciada pelo ensino tradicional – sem reservas para sistemas públicos ou privados, o processo de despolitização é geral.

Professores estão sendo coibidos de debater questões polêmicas em sala de aula por direções assustadas e desorientadas, mas principalmente por grupos que acreditam na história da carochinha, que reza que toda a formação só pode ser familiar e se nega a admitir que seus indivíduos estão irreparavelmente expostos a estímulos das mais diferentes fontes.

Grupos de alunos secundaristas auto-organizados, nesse contexto, são verdadeiras resistências ao modo como o aprender vem sendo instrumentalizado.

Talvez mais eficiente que qualquer trabalho em grupo, seja a reorganização de escolas cabível ou não, esses estudantes estão entendendo que há vida fora da instituição.


publicado em 13 de Novembro de 2015, 14:29
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Marcela Campos

Tão encantada com as possibilidades da vida que tem um pézinho aqui e outro acolá – é jornalista pela USP, professora e instrutora de saúde reprodutiva. Modera uma comunidade de quase quinze mil mulheres e não tem preguiça de bater um papo bom.


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