A carne ou o couro? O caçador e a nossa ansiedade | Cotidiano #20

A vida está bem boa até aparecer aquela dúvida que te consome. Como lidar com essa situação?

Era ainda naquela época em que se chamava a esposa de mãe. "Ô, mãe, joga os mato fora que hoje a gente vai comer é carne!", gritou saindo da mata. Com o inverno chegando, precisavam de provisões que evitassem qualquer problema na época de escassez de alimento.

Aquele final de outono já estava dando um trabalho danado, eram dias e mais dias comendo caldo de verduras pesadas para aguentar o tranco. Moravam em uma casa simples e longe de tudo, tinham uma rotina de cuidar da pequena horta, bater a terra dos móveis, lixar alguma coisa, costurar e cozinhar, andar pela mata pra ver se encontravam algo, se as coisas estavam todas em seus devidos lugares.

Os animais, naquela época mais gelada do ano, se refugiavam mais para os lados da costa e o perímetro ficava um silêncio só. Era o momento de contar mais com a sorte. E ela veio naquele dia em que ele chegou gritando e puxando o bicho por uma corda. A esposa saiu da casinha limpando as mãos no avental e encheu os olhos de água antes de abraçar o marido. "Mas meu deus, pai, se tivesse mais gente aqui dava era pra fazer uma festa com isso tudo!". Era um bicho lindo, patas longas e bem esguias, mas com uma barriga enorme, um tórax lindo, muito lombo, sem chifres, olhos que mais pareciam duas bolinhas de madrugada. Cabeça baixa, cansado. O marido não precisou nem abatê-lo, foi só jogar o laço e trazê-lo consigo. Devia estar perdido, indo para os lados da costa provavelmente. Não era muito comum ver um desses por aquelas bandas, o que indicava o desnorteio do animal.

"Corre lá, mãe! Joga os mato fora que hoje vai ter banquete!", ele falava enquanto batia de leve nas costas do bicho amarrado já ao pé de uma árvore. A mulher entrou tão leve que quase não deixou rastro pelo chão. Ficaram lá fora o animal e o marido. 

E ele olhava o bicho de cá, dava a volta e fitava-o de lá. Começou a reparar na pelagem linda da caça, de um laranja intenso. Dava para usar o couro todinho e ajudar na proteção do frio que estava vindo. Dava para vender lá na cidade e trazer pra casa mais mantimentos. Começou a pensar em como poderia cortá-lo sem agredir os pelos. Mãos no queixo, coçava a barba e imaginava como poderia tirar o couro sem perder boa parte da carne.

Entrou em conflito. Se ficasse com a carne, perderia o fino do couro. Se escolhesse o couro, acabaria sem boa parte da carne. 

Deixando o pelo de lado, teria carne para dois dias ou mais, uma fartura que não tinha há meses. Se optasse pelo couro, teria uma refeição de carne e conseguiria muito mais alimentos da cidade. Mas demoraria dias até deixar o couro bom para levar para vender e mais dias ainda no trajeto de ida e volta da cidade. Enquanto fazia contas e separava os prós dos contras, se aproximava e alisava a cabeça do animal. Via os olhinhos negros se fechando, o pescoço inclinando. Tirava a faca da bainha, apontava para a barriga do bicho, mirava o começo o pescoço. Fechava um olho e estabelecia metas para logo após desfazê-la e pensar em outro plano. 

Cansado, o animal se deitou na terra batida. O homem torcia os lábios, cruzava os braços, olhava pro alto entortando a cara em dúvidas. A ansiedade chegou, a insegurança tomou conta. Levantou o chapéu e tirou o suor frio da testa com a manga da camisa. Aproveitar para gozar agora ou ser sensato e vencer lá na frente? O estômago começou a queimar, o que era prazer acabaria virando só alívio e e ele pensou logo no desafogo. O serrilhado da faca rasgou de ponta a ponta em um só avanço. A corda caiu no chão e o animal, assustado, correu para dentro da mata e desapareceu.

"Ô mãe, pega os mato lá de volta que hoje a gente vai comer o que come sempre", o marido comentou lá de fora. O ar gelado o tocava de forma agradável no rosto e lhe deu uma vontade súbita de abraçar sua mulher.

Obs.: essa história é inspirada na tradição oral do interior. Aprendi a narrativa com a minha avó, que aprendeu com o cunhado vinte anos mais velho que aprendeu com um amigo que aprendeu com seu avô.


publicado em 05 de Junho de 2015, 00:00
13350456 1045223532179521 7682935491994185264 o

Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


Puxe uma cadeira e comente, a casa é sua. Cultivamos diálogos não-violentos, significativos e bem humorados há mais de dez anos. Para saber como fazemos, leianossa política de comentários.

Sugestões de leitura