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A culpa é do Futebol Society

Quando era criança, o mundo estava ao alcance de minha bicicleta. Tive sorte de ser criado no interior, ter a liberdade, sair e promover o caos nas redondezas, seja jogando bola nas ruas, praças ou terrenos baldios, brincando de polícia e ladrão, invadindo sítios alheios para roubar frutas, enfim, viver como bem queria.

Semana passada, caminhando pela rua, vi uma cena que me chamou atenção. Uma mãe levava pelas mãos um garotinho de uns oito anos, que trajava uniforme completo do Barcelona: camiseta, bermuda, meião e uma chuteira da Nike, daquelas que só precisa apertar o botão ''chutar'' para que o futebol perca toda a sua graça.

Olhei para o garoto durante um tempo. A mãe percebeu que seu lindo filho chamou minha atenção. "Ele está indo para a escolinha de futebol", ressaltou, com orgulho. O garoto estava impecável, roupa limpa, chuteirinha brilhando, cabelo com gel e todas essas frescuras que, no meu tempo, fariam você ser o garoto menos popular do colégio.

Chegando em casa, abri uma cerveja e pensei novamente naquela cena, com revolta. Poxa, mas o menino não tinha nem um nariz escorrendo? Como pode sair de casa daquele jeito para jogar futebol?

Antigamente (ou hoje para quem tem sorte).

Na minha época, as crianças se dividiam em dois tipos: as que ficavam o dia todo na rua e os pobres filhos de mães superprotetoras que só podiam brincar no tapete da sala de casa.

Por sorte, pertenço ao primeiro grupo. Adorava pedalar até a casa dos meus amigos e chamar todo mundo para jogar bola. Os golzinhos eram feitos com quatro passos do Neto (o menino que tinha o maior pé) e colocávamos as pedras como traves. A chuteira era a clássica Kichute, cravos de borracha quadrados e cadarços amarrados na canela, como manda a tradição.

O jogo rolava freneticamente, alguns pedaços de pele acabavam ralados pelo asfalto, as brigas com os vizinhos chatos que não queriam devolver a bola eram recorrentes. Todo mundo torcendo para que as mães não aparecessem ou gritassem aquele curto e grosso "Vempracasajá!" que assustava até mesmo o André, o mais velho da turma, em seus 10 anos de valentia.

Entretanto, aconteceu algo que todos temíamos. Aquelas mães superprotetoras, que só deixavam seus filhos brincarem no tapete de casa, venceram e transferiram esses tapetes para campos de futebol macios e supervisionados por maiores de idade, chamados de campos de Futebol Society.

Agora, paga-se um tanto para jogar, tratam crianças como se fossem atletas, deixam um espaço para que as mães assistam aos jogos e treinos (que vergonha). O futebol tem dia e hora marcados, assim como o curso de inglês, a natação e todas as obrigações que uma criança moderna é acostumada seguir.

Hoje.

Definitivamente, o Futebol Society, todas as terças e quintas, das 15 às 16 e 30, é um dos maiores destruidores da infância como a concebemos.

De agora em diante, quando eu vir um garoto esperneando no shopping porque quer um videogame, não vou culpar a televisão, a Internet, muito menos o Restart, pois tenho certeza absoluta que a culpa é do Futebol Society.


publicado em 10 de Março de 2011, 09:56
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Luiz Gallo

Filho do seu Walter e da dona Leni, Luiz Gallo (@luiz_gallo) é jornalista, roteirista, odeia pés e não dispensa uma cerveja gelada num barzinho de esquina. Aqui no PdH dispara textos na série "Entre umas e outras".


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