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A cura para o envelhecimento

Uma realidade deprimente que, num determinado momento, todo mundo vem a perceber: o tempo flui cada vez mais rápido quanto mais envelhecemos. Os dias e anos parecem ficar para trás com velocidade cada vez maior, e é fácil entender por que: para uma criança de um ano de idade, aquele ano é a duração de uma vida, enquanto que para alguém com 40 anos, é apenas um quadragésimo do tempo de uma vida.

Isso significa que estamos, essencialmente, acelerando em direção ao túmulo – mas podemos fazer algo para tornar isso irrelevante, e vou explicar como.

Fiz 34 anos de idade semana passada, e quando penso neste número, parece que pertence a um estágio de vida totalmente diferente dos 33. Alguém com 33 é apenas uma pessoa com 31 que você não encontra há algum tempo, e alguém com 31 anos é apenas uma pessoa com 29 mais dois verões rápidos, e 29 anos é o que todo mundo quer ter, de toda forma.

Mas 34 é marca o momento no qual o arredondamento começa a tender para o outro lado. Sabemos que 34 facilmente vira 35, e mais um presidente (estadunidense) novo, você está com 39, o que é o mesmo que 40. E nesse momento, enquanto ainda não se está bem perto da velhice, provavelmente já estamos descendo a montanha do tempo de vida, e os dias de jovem acabaram.

Tudo isso não passa de um exercício inútil de pensamento. Não significa nada. Os números nos iludem. É por isso que os preços das coisas ainda terminam em 99, e as estatísticas nos enganam com relativa facilidade, e o Problema de Monty Hall ainda surpreende muita gente.

Quando coloco os números de lado, e olho para minha experiência real de envelhecimento, a vida tem sido consistentemente melhor, não pior. Sou agora mais calmo, mais feliz, mais confiante, mais sábio, usufruo melhor os momentos ordinários e vivencio cada vez menos crises e tenho menos medos. Tenho quase tantos problemas quanto sempre tive, mas os resolvo mais rapidamente. Quanto mais velho fico, mais acho fácil fazer coisas difíceis.

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Ainda assim martelam por aí que o envelhecimento é algo a se temer – que seu eu mais velho é pior do que seu eu atual, e que qualquer aniversário depois dos 29 é uma pequena tragédia.

Também estou consciente de que acabei de completar 34, e não 64, e que mal comecei a vivenciar os efeitos do envelhecimento. Mas tenho todas as razões para acreditar que todas as qualidades em que obtive as melhorias listadas acima continuarão a melhorar até que eu esteja próximo da morte.

Certas coisas se perdem, é claro. Quando eu tinha cinco anos de idade eu podia cair e provavelmente nem me machucar. Eu conseguia almoçar sorvete e não me sentir mal depois. Minha pele tinha menos manchas. Uma hora dessas provavelmente vou passar por dores nas juntas e outras coisas semelhantes. Mas acredito que com a idade vou ganhar muito mais do que perder.

O que realmente perdemos quando envelhecemos? Porque pensamos que seja algo tão ruim?

Bem, em primeiro lugar, o que tememos mais não é envelhecer, mas aquilo que finalmente acontece quando envelhecemos – e geralmente confundimos essas duas coisas. A morte e o envelhecimento não são realmente o mesmo problema, e não acho que faça sentido se preocupar com o fato do envelhecimento estar nos aproximando da morte. O fato de que a vida termina fez parte da coisa toda desde o início, e sempre soubemos disso. E a morte, quando vier, vai justamente tornar irrelevantes todos os problemas do envelhecimento.

O seu corpo vai ficar mais fraco ao longo das décadas. Sabemos disso. Mas é importante perceber que sua forma e capacidade físicas têm muito mais a ver com como você passa seus anos do que com a quantidade deles que você já viveu. Sou um total novato no mundo da boa forma, mas já estou em muito melhor forma do que eu tinha com 25, e existem pessoas de 65 anos que podem correr ao meu redor, ou até puxar peso dez vezes mais intensamente do que eu. Embora seja verdade que nossos limites de agilidade física diminuam com a idade, a maioria de nós não vive forçando esses limites.

Nós vivenciaremos mais discriminação por idade, o que é irritante, mas não se trata de um problema exatamente insuperável. E também não tem muito a ver diretamente com o envelhecimento: é consequência de se viver numa cultura que supervaloriza a juventude. Em outras palavras, permanecer jovem não evitaria a discriminação por idade. Como sabemos, muitas culturas (do passado e do presente) tem reverência pela velhice.

A gente raramente se lembra das pessoas pela sua imagem com idade avançada. Esse, por exemplo, é o Robert Plant de hoje
A gente raramente se lembra das pessoas pela sua imagem com idade avançada. Esse, por exemplo, é o Robert Plant de hoje

Ficamos menos belos fisicamente, pelo menos em termos de apelo sexual biológico puro. Certamente terei menos cabelo e mais rugas daqui a 20 anos. Mas mesmo que isso aconteça, podemos nos tornar pessoas mais articuladas, carismáticas e agradáveis, se estes valores nos são importantes. Enquanto que o aspecto mais superficial da beleza possa perder o viço, podemos cultivar magnetismo e apelo pessoal em níveis ilimitados em todos os outros aspectos. E mesmo a beleza externa pode ser preservada ou melhorada em médio prazo, com investimentos em boa forma e saúde, se é algo que se valoriza.

Há uma questão de saúde própria das mulheres: a perda da capacidade de dar a luz a crianças saudáveis ocorre relativamente cedo, e portanto começar uma família biológica é uma das poucas coisas que precisam ser encaradas com certa urgência (novamente, se isso é importante para você).

Estou disposto a aceitar a perda gradual de minhas qualidades físicas, sabendo que estou paulatinamente me tornando mais culto, mais fácil de conviver, mais habilidoso e mais sábio. Não tenho motivo algum para acreditar que perderei quaisquer destas qualidades devido a apenas o envelhecimento, até que eu esteja bem perto do fim.

É claro, melhorar ano após ano demanda a intenção de se melhorar ano após ano. O autodesenvolvimento não acontece por acidente. Muito do que a idade aparentemente nos “tira” – saúde, possibilidades, otimismo, confiança, poder pessoal – é apenas o que se abandonou voluntariamente. Se priorizamos a melhoria nessas áreas importantes, então os aniversários marcarão aumentos em capacidade e habilidade, e não atrofia e perda.

Mas se você diz a si próprio que o barco da boa forma já partiu, então é porque já partiu. O mesmo vale para o barco do sonho da carreira, o barco de viajar pelo mundo todo, o barco de escrever um grande romance. Não perdemos o barco, apenas paramos de pensar nestas coisas como barcos em que se pode embarcar.

Acho que muitas pessoas sentem particularmente que perdem possibilidades. A gama do que se pode fazer com a vida parece encolher quanto mais ficamos presos em nossas obrigações presentes.

Não acho que isso ocorra por causa da idade, mas porque existe uma norma cultural tácita de deixar os hábitos estagnarem assim que se completa 30, e daí se entra em uma espécie de modo de manutenção, em vez de um modo de melhoramento contínuo. Se você está numa carreira a 5 ou 10 anos, é difícil trocar por algo melhor, porque isso geralmente significa ganhar menos. Tomamos obrigações de trabalho e de família que facilmente consumem toda nossa energia, se permitimos que o autodesenvolvimento se destaque da lista de nossas prioridades não negociáveis.

Se você está vivendo a vida em modo de manutenção, então você está dando um passo em falso enquanto envelhece. Se você está apenas ficando mais velho sem um foco em autodesenvolvimento, então as mesmas coisas que afligem a todos se tornam mais difíceis.

A passagem do tempo não é um problema para alguém que está determinado a melhorar cada aspecto importante de sua vida ao longo do tempo. Será ainda preciso abandonar certas coisas, mas é mais fácil dizer tchau para a pele suave e aspirações olímpicas quando se sabe que se está indo na direção de mais prosperidade, sabedoria, habilidade, liberdade pessoal e equanimidade.

Se mantemos objetivos de longo prazo, a idade nos concede prêmios de consolação excelentes. Por exemplo, se o seu objetivo é conseguir correr maratonas e duplicar a renda em três anos, será que daqui esse tempo o que quer que você venha a encontrar será tão ruim?

A doença e o colapso físico são inevitáveis, mas podem ser atrasados com um compromisso de longo prazo com a saúde. Quando se estabelecem, são coisas que podem ser graciosamente gerenciadas com sabedoria e presença — se o desenvolvimento dessas qualidades tem sido mantido como uma parte do estilo de vida.

O que alguém que se dedica ao autodesenvolvimento está realmente criando é conforto – conforto no longo prazo. Levar cinco anos para mudar de carreira que não o deixa louco pode ser difícil no curto prazo, e muito, mas muito mais fácil no longo prazo. Fazer exercícios é mais difícil do que matar o compromisso de academia do dia, mas aquela hora que se perde, se fosse efetivamente usada para manter a forma, criaria muito mais conforto em nossa vida.

Aquele que dedica seus anos ao autodesenvolvimento está sempre ajustando a vida de forma que ela venha a render dividendos de alegria e conforto. Se para você é natural passar a vida inteira desenvolvendo habilidade, prosperidade e sabedoria, então os aniversários começam a surgir como um “passar de fase”, e não como momentos de derrota.

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Nota da tradução: esse post foi originalmente publicado no blog Raptitude e traduzido sob autorização do autor.


publicado em 17 de Outubro de 2014, 21:01
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David Cain

David Cain escreve no Raptitude, um blog que oferece um olhar sobre a experiência humana.


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