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A delícia dos exercícios físicos, com dores e dedões machucados

Lembra quando perdíamos a tampa do dedão do pé? Que cena assustadora.

Aquele dedo aberto, recebendo ora uma bronca ora um mertiolate, que naquela época ainda ardia. O curativo não nos impedia de brincar novamente, fosse algum jogo no asfalto ou cimento, um pular de muro, um subir na árvore. De tempos em tempos, aquela recém curada tampa se despedia novamente, um bem renovável, da família das cascas de feridas dos joelhos que mal cicatrizavam e eram expostas recorrentemente às superfícies sólidas. Cicatrizes em cima de muitas outras, acompanhadas daquela coceirinha gostosa da pele rosada.

De curativo no dedão ou no joelho, eu passava minhas tardes em um clube da cidade de Bauru, já de coque no cabelo ia para a escolinha de vôlei, com o penteado intacto, para a aula de Balé, e dali o toucado era desfeito com mil mergulhos na piscina. Eu não tinhas as atuais preocupações com lanchinhos pré e pós treinos, com o uso de meu frequencímetro ou se meus tênis poupavam meus joelhos.

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Me lembro de comer uma fruta que minha mãe colocava na minha mochila, pipoca e balas de iogurte o dia inteiro. Naquela época, assim como o ovo, a pipoca era dita como vilã. Hoje ela é dita como aliada da dieta, o que me faz concluir: vão todas essas pesquisas para aquele lugar, afinal, quantos sacos de pipoca e ovos eu deixei de comer ou pior, comi com culpa? Quem me devolverá essas delícias?

Nunca mais parei quieta, o que, obviamente moldou a escolha de minha profissão.

As atividades físicas me ocasionam um sentimento inexplicável, uma “bala nas costas” de pura alegria, seja no meio de uma partida de tênis, em uma aula de TRX, ou até mesmo em cima da esteira, eu olho para os lados e tenho vontade de gritar "vocês estão sentindo essa delícia que estou sentindo?". Felicidade para mim é expressa com movimentos, geralmente dançáveis e, por isso, é muito natural em um momento feliz eu executar uma descabida sequência de pliés ou Jetés, por exemplo.

Continuo perdendo partes do meu dedão em formaturas, casamentos e afins. Ao chegar em casa, vejo que lá se foi mais uma unha do meu pé ensanguentado. Que sensação poderosa essa que não me fez sentir dor alguma, acho que é a doença da doida varrida, jogada na dança.

Então, quando leio palavras tão bonitas como as da Isabella nos incentivando a assistir a um filme para acordar a criança que existe dentro de nós, dou uma aliviada, me sinto compreendida e parte integrante de um mundo com pessoas de pés no chão, sujos e ensanguentados, e no meu caso, feios.

Os viciados em adrenalina praticam ciclismo, crossfit, corrida, surf, voltas ao mundo, provas de obstáculos, artes marciais, parkour, escaladas em montanhas porque eles simplesmente não sabem ser diferentes, seus corpos pedem essa sensação, como a necessidade de água. O que nada tem a ver com o estético, com a relação cintura quadril, com uma minuciosa prescrição de exercícios. Eles têm uma orientação motivacional orientada para a tarefa, e não para o ego.

A orientação para Tarefa se dá com o sentimento de sucesso na realização de uma atividade quando ela depende de nós próprios, ou seja, avaliamos o sucesso ou insucesso de nossa prática por intermédio da consciência sobre o quanto aprendemos e avançamos, e não a performance em si, mas sim o trajeto; diferente da orientação para o ego, em que essa atividade é uma via de status para pessoas cegamente preocupadas com a derrota e o fracasso que os outros, sempre os outros, podem perceber, e nessa procura por popularidade, a opinião alheia é o que mais importa ao seu desempenho.

Link YouTube | "Não a performance em si, mas sim o trajeto". Veja o vídeo da Kacy, primeira mulher a completar o caminho da competição "American Ninja Warrior"

Por isso, não quero acompanhar um treino de algum famoso pelo Instagram, tenho certeza que seus treinos e treinadores são excelentes, mas quero mesmo é saber o que motiva aquele meu amigo de 72 anos que encontro nas manhãs gélidas do Paraná a pegar sua raquete e jogar tênis, numa leve geada, às 8 da manhã. São essas pessoas que me causam uma curiosidade absurda e que faria várias sequências de jetés em sua homenagem.

Não sou sempre alegre e nem sempre faço exercícios, pois como forma de compensar essa felicidade hormonal, uma semana do mês, meus hormônios dizem não! Estamos cansados, vamos te deprimir, te arrastar pela casa, sugar sua autoestima, apreço, e zelo por você mesma. Vamos te deixar ácida, azeda, e afastaremos as pessoas de você. Minha TPM é um clichê.

E eu não poderia achar tal equilíbrio mais justo.

Mas o que me consola de verdade, é saber que você também dança, no banho, em momentos felizes, na intimidade, sem ninguém, ou poucos sortudos, vendo. É isso que quero, quero ver o seu dedão aberto, seu avesso, sua hipófise, hipotálamo, tireóide trabalhando a mil, seu coração bombando e te deixando sem ar.

Sei que dentre todas as suas experiências em atividades físicas, desde a infância, você teve uma que o fez colocar a mão na cabeça e dizer, socorro, eu estou explodindo de felicidade, e quero saber qual foi, me conta?

Podemos pelo desabafo e discussão, pensarmos num plano de ação para você retomar essa alegria toda, ou até mesmo encontrar pessoas que estão com o dedinho para cima pensando “me escolha, me chama, eu estou doido para jogar”.


publicado em 01 de Agosto de 2014, 08:44
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Débora Navarro Rocha

Educadora Física, mestre em Exercício Físico e Saúde para Populações Especiais. Atualmente é Docente do Instituto Federal do Paraná.


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