Quando chega a hora de se desconstruir

Quando você passa por momentos de auto-questionamento, a moda pode ser sua parceira

Muitos de nós seguimos um certo roteiro na vida. Viemos ao mundo como bebês e fomos as coisas mais fofas da família. Depois, crescemos mais um pouquinho, quebramos alguns dos objetos mais preciosos dos nossos pais, percebemos que há garotas (ou garotos) que nos fazem perder a razão e sentir uma súbita vontade de sermos aceitos, compreendidos, coisa que parece mais difícil, afinal, estamos ficando mais e mais complexos a cada dia que passa. 

Se antes tínhamos disponível a simplicidade de viver um dia após o outro, sem qualquer preocupação que não a de satisfazer nossos impulsos inocentes, agora, estamos com um trem inteiro atrás de nós, que chamamos de passado. 

Ele vem carregado de lembranças, referências, ideias e conceitos que nos guiam e balizam nossas decisões. Sentimos desejo, apego, gostamos ou desgostamos e, acima de tudo, temos pressa. À medida que o tempo passa, o impulso que sentimos é de nos agarrarmos a esses referenciais como um grande manual de conduta que nos trouxe até o ponto onde estamos. Se chegamos até aqui, é óbvio que tudo isso que descobrimos e pensávamos estava certo.

Conscientemente ou não, trazemos essas concepções conosco e as convertemos em estímulos visuais. Seja lá como nos sintamos, temos uma noção intuitiva de que um terno vai nos fazer mais respeitáveis ou que uma bermuda vai mostrar como estamos fora do ambiente de trabalho e, portanto, em um merecido momento de folga e descontração.

Mas, por mais que nossas certezas tenham passado (assim espero) por um longo processo de lapidação e refinamento, de repente, qualquer um de nós está sujeito a se ver estacionado. É como se tudo o que você tivesse acreditado até aquele momento simplesmente não fosse mais suficiente. E, nesse momento, nada mais sobra a não ser a reinvenção.

Há, claro, a opção de deixar essa correnteza de transformação agir sem que isso impacte a sua casca, mas em geral, não há processo interno que não gere impactos no exterior. Seja um olhar, uma postura diferente ou simplesmente a opção por uma nova paleta de cores, o que você sente no seu interior tende a modificar o exterior. 

A necessidade de coerência

"Eu sou apenas a pessoa que a maioria das pessoas pensa que eu sou." - David Bowie

Não que não haja mérito em ser coerente e permanecer firme em suas visões e ideais. Sim, existem momentos em que vale ser um pouco mais rígido (mas com bom-senso, por favor).

Mas, quando a necessidade de coerência vira apenas teimosia, temos aí algo com o que trabalhar. 

Ninguém precisa ser o mesmo o tempo inteiro. Você não vai agir com o seu chefe da mesma forma que com a sua mãe. Você não vai sair tratando as madrinhas do casamento da sua prima como trata os seus amigos meio folgados do colégio. Da mesma forma, não é nada saudável achar que pode sair falando em voz alta os impropérios que diz naqueles seus grupos de Whatsapp.

Para tudo há um timing, um ritmo apropriado, a hora certa de entrar e agir.

O mesmo vale para a vida como um todo e, sim, para a sua personalidade.

Compromisso cego, mesmo que com a própria forma de operar no mundo, é algo perigoso.

Quando chega a hora de se desconstruir

Perder o compromisso consigo próprio de forma consciente não é algo que está no nosso DNA. Em geral, nos construímos e nos apegamos a cada micro-expressão dos nossos gostos, aos quais vamos nos agarrando como se fossem nós mesmos.

Assim, quando surge o ímpeto de trocar de casca, nos achamos incoerentes, é como se um grande pecado estivesse sendo cometido. Mas a verdade é que não tem nada de errado nisso.

A gente não precisa ter tanta certeza de tudo o tempo inteiro e é perfeitamente possível e desejável mudar.

Portanto, se você era aquele típico metaleiro cabeça-dura no colégio, tudo bem, pode revelar as músicas pop que você gosta sem problema e também pode se vestir com outras cores que não o preto. Esportista, ator, economista, advogado, engenheiro, comediante, amigão da galera, seja qual for o rótulo que aplique a si mesmo, você não precisa ser esse cara o tempo inteiro. 

Grandes artistas sabiam disso e se desconstruiam o tempo inteiro, brincando com a nossa rigidez e incessante tentativa de definir e empacotar tudo o que vemos na nossa frente. É o caso do David Bowie, por exemplo. Para cada disco, uma nova faceta aflorava, um novo processo criativo era criado e, claro, novas formas de se vestir e se apresentar surgiam. 

Bowie não teve medo de matar nem mesmo seu personagem mais famoso e relevante, Ziggy Stardust, pois sabia que estava além dele, que não precisava se repetir e se apegar, com medo de perder a sua essência.

Mesmo personagens mais tradicionais como James Bond também passam por transformações e renovações. Basta comparar Pierce Brosnan Vs Daniel Craig e você vai ver como é possível amadurecer adicionando novas camadas e sutilezas, mesmo naquilo que consideramos "clássico" e até "intocável".

Vai haver lugares, situações e pessoas com quem você vai precisar interagir e que simplesmente não comungam dos seus gostos ou da linguagem estética que você adota. E tudo bem.

Nesses momentos, você pode se vestir de maneiras diferentes, de forma a comunicar os valores necessários para que a interação se facilite. E, claro, isso também pode ser feito sem sacrificar por completo o que você considera importante em si mesmo.

Se você se considera uma pessoa criativa, pode quebrar a formalidade de um terno com alguma peça fora de contexto, uma pulseira, um relógio diferente ou outro acessório. O mesmo pode ser feito na via inversa, você pode adicionar toques de formalidade em visuais mais casuais, como a bermuda, usando um sapato que transmita essa mensagem.

Caso você seja o tipo de cara que só usa variações das mesmas roupas, pode ser esse o momento de repensar seu papel e usar o estilo para questionar a si próprio.

Você pode ser uma espécie de David Bowie da vida cotidiana, sempre se transformando, se reinventando e, na tentativa de não se vincular aos seus personagens, acabar encontrando o que existe de imutável na própria natureza.

Mecenas: Malbec Absoluto

O estilo e a coerência estão nos pequenos detalhes, eles são parte do repertório que separa homens comuns de homens marcantes.

Conheça o Repertório Absoluto e descubra o que do seu repertório te faz um homem marcante. 




publicado em 02 de Abril de 2015, 00:00
Avatar01

Luciano Ribeiro

Cantor, guitarrista, compositor e editor do PapodeHomem nas horas vagas. Você pode ouvir no Spotify. Também escreve no Medium e em seu blog pessoal. Quer ser seu amigo no Instagram.


Puxe uma cadeira e comente, a casa é sua. Cultivamos diálogos não-violentos, significativos e bem humorados há mais de dez anos. Para saber como fazemos, leianossa política de comentários.

Sugestões de leitura