A estupidez do Padre Aderli

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O Padre Aderli de Cerli, de 41 anos, está desaparecido desde 21 de Abril. Para quem vive na lua, vou resumir esta "tragicomédia" de um dos homens mais ridicularizados do Brasil atualmente:

O Padre levantou vôo Domingo (20) amarrado a mais de mil balões na esperança de chegar a Dourados (MS). O tempo não era bom. Pairava no ar do céu nublado aquela brisa que, em muitos, inspirava o inevitável pensamento "vai dar merda".

padre-voador-lost
Cadê?

Atingido por uma corrente imprevista de ar, a rota planejada foi totalmente desvirtuada. O Padre seguia para o mar, cruzando o estado de Santa Catarina, quando estabeleceu contato via telefone para perguntar como se operava o aparelho de GPS. O Padre sumiu. Algum tempo em seguida, seus balões foram avistados no mar e as buscas começaram.

Aderli tinha experiência nesse tipo de vôo "suicida". Era a quarta vez que o Padre voava dessa maneira. Em um de seus vôos, o padre foi parar na Argentina, bem longe de onde pretendia cair. Para descer, ele furava os balões aos poucos, um a um.

O propósito desse artigo não é, de forma alguma, entrar nos méritos da sanidade do padre, do seu conhecimento técnico nesse tipo de prática desportiva e, principalmente, no risco da empreitada. Aliás, gostaria de falar um pouco de mim.

Os patins e o começo...

Ainda quando criança, tão novo que nem sequer lembro a idade que possuia, resolvi pedir para meus pais um par de patins in-line. Meus rollers eram infantis, para crianças. Eles possuiam freios, aquelas cintas verde limão, pouca maleabilidade e jamais serviriam como aparato de radicais práticas suicidas.

patins
Ai meu cóccix!

Depois de certo tempo aqueles patins não representavam mais um desafio e passei a customizá-los. Inicialmente removi os freios e mais tarde troquei rodas e rolamentos. Paguei caríssimo no rolamento mais rápido que existia a contra gosto de alguns amigos entendidos. Eles diziam que aqueles rolamentos eram destinados à alta velocidades e que eu não teria nem sequer um mínimo de manobrabilidade com aquele tipo de equipamento.

Achei o máximo! Me diverti como nunca por uns dois dias! Aquilo era simplesmente demais! Comecei a tentar pegar o máximo de velocidade que conseguia em grandes declives e, posso assegurar, que aquilo era muito rápido. Dava um frio na barriga e depois que o risco passava as pernas continuavam tremendo por um tempinho. Aquilo sim era sentir-se vivo!

No terceiro dia eu caí em uma velocidade exagerada e queimei com seriedade minhas costas no asfalto. Fui para o hospital e levei algum tempo para me recuperar. Meus pais me proibiram de chegar perto daquele instrumento de morte outra vez na vida e assim os obedeci. Na verdade, durante muitos anos, toda vez que via alguém andando num daqueles patins eu sentia medo.

O Bicicross

Cresci um pouco mais e estava entrando na adolescência. Ganhei uma bicicleta de cross confeccionada em um alumínio muito leve. Conseguia fazer acrobacias e arriscados malabarismos incríveis com a minha companheira de insanidades. Um dia, um amigo sugeriu que eu deveria usar toda aquela habilidade em campeonatos de bicicross. Fui à uma prova meio descrente e mesmo sem treino, não dei chance para os adversários.

bicicross
Bando de guris criados a leite ninho, não são de nada!

Cheguei à conclusão que meus oponentes em geral temiam os riscos do esporte e eram demasiadamente cautelosos, postura essa que os roubava preciosos segundos a cada volta. Comecei a treinar, competir cada vez mais e colecionar troféus. Estava achando tudo o máximo.

Fui convidado para uma prova intermunicipal com competidores de toda a região e prontamente aceitei o convite. Como em todas as outras provas fui calmo, com a crista alta, sem temer adversário algum. Primeira volta e quase todos estavam ficando para trás, menos um.

Na segunda volta já não via mais o terceiro colocado, mas o segundo ainda estava na cola. Na terceira ele estava aproximando-se rápido e, pela primeira vez, senti preocupação. A cada volta que passava o nosso rally estava ficando mais agressivo e minha agonia crescia proporcionalmente.

Eu estava sob tanto nervosismos que minha concentração praticamente deixou de existir. Até hoje lembro: subi em um obstáculo muito alto e, como sempre, peguei muito embalo para atingir o topo antes daquele irritante competidor. Quando cheguei no alto da elevação com cerca de quatro ou cinco metros estávamos lado a lado.

Perdi o emocional e não consegui mais raciocinar com técnica alguma para atingir o chão. A roda da frente tocou o chão e logo em seguida o peso da biclicleta e do meu corpo tornam-se uma coisa só. Ambulância.

O Rapel...

Por sorte, não quebrei nada mas nunca mais tive coragem de praticar aquilo denovo. Foi minha primeira e última derrota naquele esporte. Poucos anos depois meus colegas do ensino médio me convidaram para fazer um rapel e acabei aceitando.

rapel
Pode pular, a água tá boa!

O detalhe, é que eles esqueceram de me contar que desceríamos o elevado de um viaduto, sobre a pista de uma rodovia, durante as pequenas janelas de tempo em que nenhum carro passava. Eram loucos!

Mas eu já estava lá e sabia que se desistisse o colégio inteiro saberia na manhã seguinte. Preocupações de adolescentes. Respirei fundo e desci. Nada aconteceu e relembrei aquela agoniante/deliciosa sensação de cutucar o perigo. Me viciei!

Durante alguns anos mergulhei em uma saga de procurar as montanhas mais dificeis de serem escaladas na região e de tentar práticas de rapel cada vez mais arriscadas. Em determinado momento o medo havia deixado de existir quase que por completo, pois criei uma infinita confiança no meu equipamento. Sabia que um freio com capacidade para suportar uma força de mais de 15000 Newtons não me deixaria na mão.

Certa vez apostei uma corrida com um colega para descer uma parede de 20 metros de frente! Isso mesmo, correndo como se estivéssemos em uma pista de atletismo com esse inexpressivo diferencial de estarmos em uma parede vertical.

Lá fomos nós e em poucos segundos já havia atingido uma velocidade de queda muito grande. As minhas luvas de couro adaptadas com dezenas de voltas de fita termotape ao seu redor cedeu ao atrito. A temperatura subiu tanto que nem o termotape e nem o couro resistiram e exatamente no meio do percurso, com velocidade ainda crescente, minhas mãos começaram a ferver. Em um impulso instintivo apertei a corda ainda mais no intuito de frear a decida até que em determinado ponto a dor tornou-se insuportável. Pensei em "seja o que Deus quiser" e soltei a corda a cerca de 7 metros de altura.

De alguma maneira o freio ainda estava atritando mesmo sem minha intervenção e o impacto foi amortecido. Contudo o pânico era tanto que tive certeza de ter quebrado as duas pernas. Senti muita dor e todos os meus amigos correram para me ajudar sabendo que algo sério havia dado errado.

"Olha as suas mãos" um deles disse.

Quando vi pedaços de termotape, pele, carne, couro, dedo e coisas indescritíveis misturadas saindo dos buracos abertos na luva dei um rápido pulo comprovando que minhas pernas estavam mais que 100% - só percebi esse fato algumas horas depois.

Após tirar a luva percebíamos a pele ressecando-se rápido e a idéia natural foi mergulhar a mão em água. Minha pele absorvia em poucos minutos toda a água das garrafas que colocávamos em uma vasilha. Acabei no hospital com um ferimento que levou mais de um semestre para cicatrizar. Isso me impediu de realizar tarefas básicas por algum tempo como, por exemplo, cortar a carne da janta. Ainda carrego essa cicatriz feia entre os dedos.

O carro...

Decidi parar com minhas maluquices talvez por conta da idade, já que estava completando 18 anos. Em seguida comprei um carro com o qual algumas vezes ia para a faculdade. Em algumas dessas idas saía de casa atrasado e, mesmo inexperiente no volante, acelerava um pouquinho. Quando mais eu me atrasava, mais acelerava. Depois de um tempo acelerava sem estar atrasado para em seguida nunca mais andar devagar.

Avenidas largas se tornaram pistas de arrancada, curvas de serra eram provas de subida da montanha e estradas de terra eram o Paris-Dakar brasileiro. Foram no mínimo dois anos passando por quase acidentes que certamente me tirariam a vida até começar a amadurecer. Vi amigos batendo forte e até sofrendo acidentes fatais. Aquilo não ia acabar bem.

O Kart

Consegui aprender a andar dentro do limite de velocidade, mas aquilo estava me matando. Foi quando descobri o Kart que, até hoje, é uma grande paixão. Cada volta era uma experiência de traçado e de comportamento do chassis. Depois de um ano tirava segundos extras que nem meus amigos, nem eu mesmo, sabíamos de onde vinham.

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O kart é como uma mulher, basta ter pulso firme e manter o controle.

Em uma prova dessas, um colega rodou na saída da curva e eu vinha rápido em minha missão pessoal de bater o recorde da pista. Estava abusando do limite do carrinho e a cada curva esparramava até o último milímetro da zebra.

Nesse ponto, cada saída de tangência é calculada na sua experiência, pois depois que você cruza o limite dos pneus o volante não responde mais. Vi meu colega aproximando-se na minha tangência e sabia que não havia como tirar da rota de colisão. Se tocasse no freio o Kart iria rodar e eu o acertaria de lado, o que seria ainda pior. Bandeira amarela, acidente na curva 4.

Não decolei do kart porque minhas pernas trancaram no volante me deixando sem andar direito por quase uma semana. Meu colega machucou bastante a lateral das duas pernas. O kart ainda estava funcionando e voltei para pista à uns 50 Km/h. Estava tremendo de pânico e não tinha coragem para voltar a andar rápido. Depois de duas voltas me senti o Tom Cruise em Dias de Trovão ao vislumbrar, pela segunda vez, uma cena idêntica à que antecedeu um acidente que quase lhe tirou a vida.

Depois de duas voltas andando muito lento e quase ter caído para a última posição, respirei fundo e acelerei até o fim. Um a um, fui passando os adversários e retomando o tempo perdido. Terminei em segundo e também não consegui o recorde da pista, mas não desisti. Senti medo, consegui superá-lo, me expus ao risco novamente, e fui até o fim. Essa sensação é simplesmente indescritível!

E o Padre, como fica?

Estou lendo por toda a internet comentários maldosos à respeito da estupidez to Padre. Essas pessoas não entenderiam o que se passa na cabeça dele. Eu aceito que vocês não concordem com a atitude de levantar vôo, amarrado em balões e durante condições climáticas nada propícias. Entretanto, registro aqui meu apelo para que apesar de não concordarem, respeitem.

Esse é um apelo de um cara que já se machucou algumas vezes fazendo essas coisas que ninguém mais entende, mas pretende comprar uma Puma GT para competir em provas de subida da montanha, fórmula classic, endurance e uma Puma GTB para competir em provas de arrancada.

Também quero saltar de para-quedas logo mais, ando pensando em tentar subir o Aconcágua, dirigir até a terra do fogo, comprar patins in-line novamente e aprender a tocar violão. Desisti sim do bicicross, mas ando pensando seriamente em comprar uma moto de trilha e investir em ações de risco na bolsa.

Para os que falaram em prender o padre antes do início de sua aventura sob pretexto de poupar sua vida, tenho algo a dizer: espero não estar vivo no dia em que nos proíbam de escolhermos as experiências que de vida que realmente nos dão prazer.


publicado em 30 de Abril de 2008, 09:11
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Rodrigo Almeida

Engenheiro, apaixonado pela vida e por qualquer coisa com um motor potente, nostálgico entusiasta de muitas daquelas boas coisas que já não mais se fazem como antigamente.


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