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A eterna senha da sala de espera | Cotidiano #9

Era um 704 impresso naqueles papéis que sujam a mão. Eu deveria me sentar e aguardar que o mesmo número aparecesse na tela em vermelho, indicando o guichê ao qual eu deveria me encaminhar para, enfim, documentar o meu pedido.

Que martírio. No cinema ou na tevê, esse seria o momento de um time-lapse, aquela passagem rápida de tempo em que a personagem está sentada e as pessoas se movimentam rapidamente e a luz serpenteia o ambiente trocando de lugar. Tudo muda, até meu humor, só eu mesmo que fico no mesmo lugar. E as senhas aparecendo. 107, 108, 912, 483, 486. Nada que começasse com 7 para eu descobrir o quão fodido eu estava.

O drama da vida em informes sonoros. A tela apitava e todos depositavam seus anseios. Era como se o monitor pregado no teto fosse uma cabra de ouro, um ídolo profano o qual todos daríamos a vida em sacrifício por uma graça alcançada. Cada mudança de sequência numérica era secretamente comemorada por quem se levantava enquanto a massa, mais uma vez, aferrecia de ombros caídos na sensação amarga do recomeço.

O resumo da vida em uma sala de espera.

(Foto: 13th Witness)
(Foto: 13th Witness)

A ânsia batendo de frente com a realidade. A fila do pão, entrevistas de emprego, o trânsito na Av. Rebouças. Cada movimentação é um lampejo de esperança. Aquele "oi" que a garota do escritório que trabalha  no andar de baixo te dá quando vocês se cruzam na escada. Todos os dias em que ela passa reto é uma tristeza, frustração atrás de frustração, até que ela -- no meio da pressa -- encontra tempo para sorrir mais um sorrisinho pra você.

701! Minha senha existe! Tá chegando nela!

Pavlov teria orgulho e aplaudiria de pé por minutos a fio. "Plim", e todos olham. Cabisbaixos. "Plim"! Todos olham. Cabisbaixos. Mas a saliva ainda escorre. 702! Meu deus, nunca me senti tão próximo da vitória!

Pessoas se levantam, nova gente se senta. "Pim"! Todos olham. Não é nem uma situação de esperar a derrota iminente. Você já entra vencido no recinto, passivo em seu insucesso. A fome bate e estamos desprevenidos, levanto para jogar uma água no rosto e o som mostra o 703! Sou o próximo!

Começo a compadecer pelos que estão lá comigo, na árdua tarefa de aguardar. Fracassado após fracassado a sala vai enchendo ainda mais e eu queria que todos pudessem ser os próximos feito eu, que todo o sofrimento naquela sala se dissipasse por completo, que, juntos, pudéssemos superar mais essa adversidade e... 704!

Chupa, seus otários! Eu vou é resolver a minha vida.


publicado em 05 de Dezembro de 2014, 07:00
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Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


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