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A evolução do cafajeste (1): a sobrevivência do mais forte é furada

Um dos ingredientes mais importantes da evolução é a seleção sexual, afinal nenhum ascendente seu morreu virgem. O que importa não é a sobrevivência do mais forte, e sim do mais conquistador.

E quem se dá bem nessa é o cafajeste.

Grande parte da nossa história é contada por caçadas (nas quais nem sempre somos os caçadores), doenças e várias outras pressões seletivas. Inclusive temos o reflexo dessa história em nossos corpos. Mais recentemente, demos conta de reduzir o impacto de tais fatores com antibióticos, agricultura e outros, mas não nos livramos de uma das maiores forças evolutivas: a seleção sexual. Tão importante quanto chegar à idade adulta é passar seus genes adiante. Na verdade, se você não se reproduz, é como se estivesse morto para a evolução.

A seleção sexual trata das escolhas de ambos, machos e fêmeas, como parceiros reprodutivos, e do sucesso deles nessa empreitada. E já adianto a conclusão deste e dos próximos textos: a evolução favorece os cafajestes.

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Nem todo mundo tem o mesmo sucesso reprodutivo.

Para a evolução acontecer, precisamos de três ingredientes bem conhecidos: (1) a cada geração, nascem mais organismos do que o ambiente ao redor pode comportar; (2) dentre os organismos de uma mesma espécie, existe diversidade e algumas pequenas diferenças podem favorecer a sobrevivência de alguns; (3) algumas dessas características são hereditárias e podem ser passadas adiante.

É neste terceiro ponto que o jogo vira. Ser o mais bem adaptado, o mais forte ou mais saudável, não tem nenhuma serventia se você não consegue ter filhos, ou se outros menos aptos têm a mesma quantidade de filhos que você. Sexo é o que faz a diferença.

Sendo assim, qual a importância de ser um cafajeste?

Vamos começar assumindo algo que vamos discutir com os próximos textos (mais do que isso é spoiler): a monogamia. Imagine que somos uma espécie monógama formada por casais fixos temporários mas de duração longa. O sucesso reprodutivo de cada casal, e com isso a propagação dos genes, vai depender apenas deles. E dos filhos que eles conseguirem ter. Agora que já temos nossa sociedade ideal, imaginemos dois casais diferentes: em um deles a mulher vai ser propensa a trair o marido, e no outro o inverso.

Se cada casal puder ter apenas dois filhos (na média, alguns mais, outros menos, mas nossa população imaginária tem um tamanho fixo), qual o limite do sucesso reprodutivo da nossa mulher infiel (de novo, em média)? Dois filhos. Podem ser filhos mais ou menos saudáveis, que terão chances diferentes de chegar a idade adulta, mas são dois. Agora a parte interessante. Pense no nosso homem infiel. Quantos filhos ele pode ter? Quantos conseguir! Enquanto ele achar mulheres dispostas e conquistá-las, vai ter sucesso.

Ou seja, o sucesso reprodutivo das mulheres depende da capacidade delas terem filhos, e da qualidade dos pais – isso a gente revê no próximo texto. Já no caso dos homens, o sucesso reprodutivo depende do número de mulheres que ele conquistar além da mulher dele (na nossa sociedade monogâmica imaginária). Aliás, quer saber o pior? Se a propensão dele para trair for genética, e não estou dizendo que nenhuma é, ela vai ser passada para os filhos, que também vão trair e talvez ter mais sucesso reprodutivo, passando isso para mais netos... Dá para ver onde isso acaba, né?

As aves e a linda monogamia

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Tudo isso para atrair as fêmeas, e nem sempre o sucesso é garantido...

Agora vamos sair um pouco da nossa sociedade imaginada, e vamos observar a natureza. Embora nosso parentes mais próximos sejam os primatas, como chimpanzés e gorilas, não é muito simples compararmos nossa relação homem-mulher com a deles. As fêmeas dos chimpanzés são bem mais promíscuas e não formam casais fixos, embora tendam a copular mais com o macho dominante do grupo. Os gorilas formam grandes haréns, onde um macho dominante é o único parceiro de várias fêmas. Nossa estrutura de casais fixos, que se revezam no cuidado de um filho que consome muitos recursos de ambos os pais, é muito parecida com a das aves.

As aves sempre foram símbolos da monogamia: casais estáveis se revezam para cuidar dos filhotes e algumas vezes continuam juntos por anos a fio. Acontece que essa monogamia foi vista por observadores, de longe, e de perto as coisas não são bem assim. O famigerado teste de paternidade acabou até com a fama das aves fiéis. Antes dos testes de paternidade, se imaginava que até 90% das espécies fossem fiéis, mas com os exames descobrimos que no máximo 30% o são. Ultimamente, a maior surpresa é descobrir um caso de fidelidade! [1]

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O melro de asa vermelha (nosso amigo aqui em cima) é uma espécie na qual o macho é poligino (poli – várias, gino – fêmeas). Aquela história clássica, um macho alfa domina o território e copula com 2 a 10 fêmeas do harém que conquistou. Fodão, conquistador... e corno! Quando são examinados os ovos, até 50% dos ninhos têm ovos de outro pai que não o macho dominante. Cerca de 20% do sucesso reprodutivo dos machos está nos filhos fora do "casamento". Todo aquele papo de macho mais forte, que domina o território, vai por água abaixo quando descobrimos que os genes que estão sendo passados adiante não são dele. [2]

Em inglês, se fala que evolução trata de survival of the fittest, sobrevivência do mais apto. Nós estamos acostumados a pensar na sobrevivência do mais forte. Mas não é o que acontece se o mais forte não for o pai. Se ele cria filho de outros, é a sobrevivência do mais conquistador! A evolução também se dá às custas dos cornos.

Um dos conquistadores mais bem sucedidos

Uma das formas mais diretas de se estudar a estrutura e o passado de uma população é por meio dos genes. E alguns são mais importantes do que outros. Nós recebemos material genético de nossos pais. São 46 cromossomos (pedaços de DNA, para simplificar), sendo que 23 vêm do pai e 23 vêm da mãe. Mas a maioria deles se mistura quando formamos nossos espermatozóides e óvulos, no processo chamado de recombinação. Na recombinação, nosso maior cromossomo vindo do pai, o cromossomo 1, forma um par com o cromossomo 1 vindo da mãe, e troca pedaços. O mesmo acontece com quase todos os outros cromossomos. A recombinação embaralha os genes e apaga a história que eles poderiam contar.

Uma das alternativas que temos é a nossa mitocôndria. Ela é a estrutura da célula responsável por produzir energia, e tem uma grande peculiaridade. Ela vem de uma linhagem de bactérias que passou a viver nas células e possui DNA próprio. Melhor ainda, nossas mitocôndrias são sempre passadas pela mãe, através do óvulo, nunca pelo espermatozóide. Com isso, ao estudarmos o DNA da mitocôndria, estamos vendo a história da linhagem feminina humana, sem recombinações para atrapalhar.

A outra alternativa conta a história dos homens. Nosso sexo é determinado por um par de cromossomos. Se o par é igual, XX, temos uma mulher. Se for diferente, XY, temos um homem. Portanto, se estudamos o DNA do cromossomo Y, que não tem par para se recombinar e só está presente nos homens, contamos a história masculina.

Pois bem, um estudo dos cromossomos Y na Ásia descobriu algo aberrante. Um alelo em especial chamou a atenção dos pesquisadores (alelos são variantes de um gene, como a variante do receptor de melanina das ruivinhas). Esse alelo estava presente em pelo menos 16 populações diferentes, em uma área que abrange grande parte da Ásia e um tanto do Pacífico. Extrapolando o número encontrado, 8% dos asiáticos contém esse alelo, num total de 16 milhões de homens, mais ou menos 0,5% da população mundial (na época do estudo, 2003). Comparando as diferenças e semelhanças entre as sequências desse alelo, podemos estimar o período em que ele entrou na população, seu ancestral comum mais recente.

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Mapa da Ásia, legenda mais abaixo em itálico. [3]

Uma frequência tão grande de um alelo indica algum evento muito sério relacionado com sua entrada ou o seu valor para os portadores. Seja qual for aquele ancestral comum mais recente, deve ter sido algo importante, dificilmente um alelo seria tão comum por acaso. E foi. O ancestral estimado ocorreu mais ou menos 1000 anos atrás. 1000 anos atrás, um evento que ocorreu na Ásia toda, algo que pode ter dado origem a 8% da população da região... Gengis Khan.

Isso mesmo, Gengis Khan (1167-1227 d.C.) e seus parentes (filhos e irmãos) dominaram a Ásia cerca de 1000 anos atrás, e você pode imaginar o tamanho do harém que eles tiveram por onde passaram. Eles tiveram um sucesso reprodutivo tão grande que deixaram sua marca em 0,5% da população mundial! [3] A política de escravizar e estuprar as mulheres, além de matar os homens conquistados, parece ter funcionado muito bem.

Legenda da imagem: O império de Gengis Khan em rosa. Os gráficos de pizza representam a frequência do alelo do cromossomo Y (em azul) que ele deve ter introduzido (literalmente) na população. Repare como eles se sobrepõe. E os Hazara? Bom, os Hazara têm uma tradição oral passada através das gerações, de que são uma linhagem de homens descendentes diretos de Gengis Khan. Parece que não estão errados.

Claro que algo dessa magnitude não deve ocorrer novamente, mas pequenas diferenças no sucesso reprodutivo de machos que conquistam mais fêmeas e têm mais filhos permitem a eles passar mais genes adiante. Ou não. É o que veremos na continuação da evolução do cafajeste.

ResearchBlogging.orgEste post é completado por outro texto sobre seleção sexual, "Fazendo o gosto dela", no Rainha Vermelha. Lá eu trato de como a preferência das fêmeas pode surgir pela evolução, e aqui tratei de como a evolução pode favorecer homens que tem relações por fora.

Fontes

[1] Westneat, D., & Stewart, I. (2003). Extra-pair Paternity in Birds: Causes, Correlates, and Conflict Annual Review of Ecology, Evolution, and Systematics, 34 (1), 365-396 DOI: 10.1146/annurev.ecolsys.34.011802.132439

[2] Gibbs, H., Weatherhead, P., Boag, P., White, B., Tabak, L., & Hoysak, D. (1990). Realized Reproductive Success of Polygynous Red-Winged Blackbirds Revealed by DNA Markers Science, 250 (4986), 1394-1397 DOI: 10.1126/science.250.4986.1394(pdf)

[3] Zerjal, T. (2003). The Genetic Legacy of the Mongols The American Journal of Human Genetics, 72 (3), 717-721 DOI: 10.1086/367774(pdf)


publicado em 21 de Julho de 2009, 20:32
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Atila Iamarino

Doutorando pela USP, biólogo viciado em informação e ciência. Autor do excelente blog Rainha Vermelha e editor do Science Blogs Brasil, o primeiro condomínio de blogs de ciência brasileiro. Vá lá expandir seus horizontes!


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