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A idade da razão (L'âge de raison) | Livros pra macho #3

Aprendi a gostar de leitura desde muito pequeno. Meu pai, um contador de história habilidosíssimo, sabia – e ainda sabe – muito bem estimular a vontade de ler nas pessoas.

Conto sempre para os amigos mais próximos (e revelo para os fiéis leitores dessa coluna) que li a versão original de O engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha mesmo sem saber ler. Calma, eu explico. Todas as noites, antes de dormir, meu pai lia cerca de dez páginas do calhamaço e, aos poucos, fomos terminando juntos a agradável leitura.

Espera só a reviravolta

Como forma de avaliação, ele apenas perguntava sobre o que havia ocorrido na noite anterior. Se eu não soubesse responder, ele não leria mais. E foi assim que a minha mente registrou o primeiro contato com literatura.

O leitor deve estar se perguntando "por que raios esse cara está falando do pai e do Dom Quixote, se o texto vai falar de um livro do Sartre?".

Eu respondo.

Dizem os especialistas que uma boa história deve começar com uma ótima introdução. E foi essa a maneira que encontrei pra falar sobre uma edição publicada em 1971 de A idade da razão que pertence ao meu querido pai, a qual me foi emprestada quando tinha 18 anos.

Lançada pela Abril Cultural, a obra fazia parte de uma coleção de capa dura e vermelha chamada “Os imortais da literatura universal”, bastante conhecida pelos leitores mais velhos e pelos frequentadores de sebos. E é sobre ela que o texto de hoje tratará.

A idade da razão é considerada a primeira parte da trilogia “Os caminhos da liberdade”, mas não se preocupem, naquela época, os autores não escreviam livros que dependessem de continuações para fazer sentido, embora alguns já manifestassem esse objetivo.

Então, a leitura pode ser feita sem a obrigação de continuar em outras obras.

O livro apresenta ao público alguns dias na vida de Mathieu Delarue, um professor de filosofia em Paris que recebe a notícia de que sua namorada não assumida está grávida. Como ele não quer ser pai, passa a rodar pela cidade procurando uma solução, enquanto outros personagens vão entrando na história.

O que torna A idade da razão um livro de macho? Pensei bastante comigo mesmo e cheguei à conclusão que, como homens, somos responsáveis por nossos atos e, principalmente, por nossas liberdades.

Edicão com a capa ilustrada pela "Guernica" do Picasso. Não é qualquer livro

Mathieu entendia isso. Era intelectual e professor de filosofia. Mesmo assim, manteve uma relação não-oficial. Até aí tudo bem, afinal de contas, muitos casais conseguem se manter unidos das maneiras menos tradicionais possíveis. Porém, ela não percebia a situação tão bem assim. Queria ter Mathieu como seu companheiro, e esse desejo piorou quando soube que estava grávida. Ciente da notícia, ele tomou uma decisão: a gravidez deveria ser interrompida.

Não estou aqui para defender ou atacar o aborto. Essa é uma decisão particular de cada um e deve ser analisada com bastante cuidado, já que é a vida de uma pessoa que está em jogo. Porém, Mathieu, defensor das liberdades filosóficas do sujeito, acredita que não está preparado para ser pai e vai adiando o seu momento de “ser racional”.

Ele poderia ter sido racional antes de ter um relacionamento de estrita satisfação sexual e, até mesmo, antes de engravidar sua parceira, afinal de contas, um sujeito conscientemente livre, é detentor de grande poder e, por isso, tem uma responsabilidade diante de seus semelhantes. Mas não é isso que ele faz. Pelo contrário, pede dinheiro emprestado para os amigos, mas quando encontra dois alunos seus, aceita se embebedar em um caro estabelecimento.

Ah, esqueci de mencionar. Um dos alunos, na verdade é uma aluna. Ela é muito bonita e, adivinhem... Mathieu não vê a hora de levá-la para a cama.

Como homem, vejo que, na maioria das vezes, a irresponsabilidade de manter relações sexuais sem o filtro da responsabilidade gera uma quantidade absurda de “filhos sem pai”, isso sem contar com doenças sexualmente transmissíveis. Ou seja, a falta de vínculo responsável com a própria liberdade vai produzindo uma continuidade descompromissada, que se materializa em dificuldades para diversas mães que precisam cuidar de seus filhos.

Talvez, se tivessem condições, optariam pelo aborto, mas e quando não têm? Os filhos nascem e terão que cuidar de sua própria formação, tanto física quanto educacional.

Para mim, Mathieu é o símbolo do intelectual que conhece todas as grandes teorias filosóficas já construídas pela humanidade, mas que não consegue aplicá-las na sua convivência com os mais próximos. No fundo, permanece preso por uma pseudoliberdade que o aprisiona na ilusão e que o faz embargar a chegada da sua idade da razão.

Sartre em seu ápice estiloso

Jean-Paul Sartre foi um filósofo e escritor francês. Ficou conhecido por construir as bases do existencialismo. Em 1964, se recusou a receber o Prêmio Nobel de Literatura, por acreditar que, com essa distinção social, os leitores receberiam uma pressão externa não desejada.


publicado em 02 de Fevereiro de 2013, 22:00
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Filipe Larêdo

Filipe Larêdo é um amante dos livros e aprendeu a editá-los. Atualmente trabalha na Editora Empíreo, um caminho que decidiu seguir na busca de publicar livros apaixonantes. É formado em Direito e em Produção Editorial.


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