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A lama e a dissolução de identidades | #ExpediçãoRioDoce

Casas podem ser construídas e bens comprados novamente. Mas existem elementos que não se recuperam

Os pescadores

Logo cedo, no dia 10 de dezembro, acompanhamos um grupo de pescadores de Baixo Guandu, Espírito Santo, que está resgatando peixes de espécies típicas da bacia do Rio Doce - já apanharam piau, tucunaré, traíra, mandiaçu, pacumã, dourado, curimba e cascudo ainda vivos. Uma segunda equipe, também formada por pescadores da cidade, limpa o Rio Guandu (leia aqui sobre o rio que foi recuperado para abastecer o município).

Depois que ficaram impedidos de pescar, a coleta de espécies e a limpeza dos rios foi o ofício que sobrou aos pescadores. Um acordo com o Ministério Público garantiu que a Samarco deverá contratar sempre profissionais da região para atuar nas atividades relacionadas ao Rio Doce – é o mínimo que a empresa poderia fazer.

A questão é que, mais do que uma triste mudança na rotina de trabalho, as consequências na identidade destas pessoas são profundas. Cada família de pescadores costuma ter ao menos um filho que segue a mesma ocupação. O que vai acontecer com as próximas gerações? E o seu lugar na sociedade, como fica?

As falas são de dissabor e indignação. “Eu nasci dentro d’água, o que faço agora?!”, disse Reginaldo Ovídio de Souza, pescador “desde sempre”. Na região do Doce em que ele pescava não há mais nada vivo.

Grupo de pescadores reunidos antes de sair para os novos trabalhos. Reginaldo está de camiseta vermelha e colete

Outra dificuldade tem sido vender o pescado que já tinham guardado. Por conta da piracema, época de reprodução dos peixes que começa em novembro em que a pesca fica proibida, é costume ter um estoque da mercadoria. Naor Lopes da Silva, além de pescar, revendia o produto. Ele tem 16 freezers cheios de peixe capturados antes da chegada da lama, um total de 40 mil reais, mas não consegue dar saída – os antigos compradores têm medo de comer peixe contaminado. Até a primeira semana de dezembro, havia sido registrada uma queda de 85% na venda de peixes na feira livre da cidade.

Em audiência, a Samarco ofereceu a cada pescador um salário mínimo e o valor de uma cesta básica, mais 20% de um salário para cada dependente menor de idade. É pouco. De acordo com Cláudio Márcio Pereira, presidente da colônia de pescadores de Baixo Guandu, havia quem “tirasse” até quatro mil reais por mês. A proposta da colônia para a Samarco era de 1.800 reais mais o envolvimento remunerado do pescador nas ações no rio, como já vem sendo feito.

Em Baixo Guandu há 180 pescadores associados à colônia, mas Márcio calcula que aproximadamente 70 não renovaram suas carteirinhas recentemente ou não se regularizaram. Além dos pescadores, existem também as pessoas que serão atingidas pela baixa do turismo de pesca ou de mergulho. Ou seja, a quantidade de famílias afetadas e desassistidas é grande.

Os indígenas

"Meu pai sempre caçava nas madrugadas na beira do rio. Esses dias ele me disse que tinha uma certa hora em que o rio se calava, ficava tudo em silêncio. A água parava, os animais se aquietavam, até o vento parava. Depois de um tempo da mata em silêncio, o rio voltava a correr e todos os sons voltavam. Agora o rio já não faz mais isso. E meu pai não quer sair para caçar"", me contou Wakrewá Krenak, olhando muito fundo nos meus olhos, como se passasse a dor dela pra dentro de mim.

Wakrewá tem 24 anos e está se formando em Biologia.

No começo da conversa eu tinha perguntado: Vocês iam muito no rio? “Sim, quase todo dia”. E faziam o que lá?, interroguei esperando, boba de mim, uma resposta de viés produtivo como lavar roupa, pegar água para usar em casa, pescar... “Tomar banho, nadar”, ela disse com o sorriso da obviedade.

A terra dos Krenak fica na beira do Rio Doce, próxima a Resplendor, Minas Gerais, e a contaminação do rio não foi a primeira violência que sofreram. A reserva é cortada por trilhos em que o minério de ferro da Vale é transportado todos os dias. Alguns anos antes, o território indígena também foi usado para a construção da Usina Hidrelétrica de Aimorés (consórcio entre Vale e Cemig, a Companhia Energética de Minas Gerais).

Se o modo de vida é a identidade de um povo, só nos resta imaginar o quanto as consequências dessas restrições afetam a cultura dos Krenak. Com a quebra da barragem os indígenas têm receio, por exemplo, de que as capivaras que caçavam estejam bebendo a água do rio contaminado. "Vamos ter que comprar carne no mercado, porque já não podemos pescar nem caçar", disse Wakrewá.

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Esse texto faz parte da coleção Expedição Rio Doce, reportagem especial produzida para o Papo de Homem pela repórter Nina Neves e pelo repórter e fotógrafo Ismael dos Anjos – iniciada com um chamado à nossa comunidade para recebermos sugestões de perguntas a serem investigadas.

Nosso enviados percorreram 2.500 km da Barragem de Fundão à foz do Rio Doce para investigar a maior tragédia ambiental da história do Brasil. Tem alguma pergunta? Nosso time vai tentar responder a vocês com reportagens que serão publicadas ao longo da semana.

No futuro pretendemos realizar mais reportagens especiais sobre temas de grande interesse das pessoas, e essa ida a Mariana é uma semente dos  nossos sonhos para o futuro.

Puxe uma cadeira e construa esse especial conosco.


publicado em 21 de Dezembro de 2015, 05:52
Nina perfil

Nina Neves

É jornalista freelancer, fotógrafa amadora por hereditariedade, baiana em SP porque assim é a vida, interessada na cultura em todas as suas formas. E cuida de vinte plantas na varanda.


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