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A maior paixão do mundo

Meio sem sono, foi dormir pedindo em reza por novidades.

Havia meses que não a tirava da cabeça, se sentava na varanda e conjecturava as impossíveis situações que gostaria ver do avesso, já com as esperanças caindo pelas tabelas. Abria o e-mail pelo celular e entrava repetidamente na pasta com as fotos dela em situações íntimas. Respirava fundo, apertava os olhos para detectar novos detalhes que ali já não haviam e fechava o aparelho. Pediu aos santos, antes de se deitar meio sem sono, por boas novas mas não conseguiu ao menos trocar a música que ela botara em seu despertador.

A chuva abundante da madrugada deixou pequenos pontos de brilho no vidro da entrada da padaria. Na fila do pão, a ideia era tirar a barba antes de ir trabalhar. O sobressalto foi tão grande que esqueceu de pedir também dois saquinhos de leite B. Parecia que a garota lhe mandava beijos constantes e olhar para os lados parecia ser a melhor comprovação de que só podia ser para ele.

Três pessoas à frente, lá ia a menina de maçãs salientes, óculos escuros e lábios com um vermelho tão acesso que pareciam distribuir bitocas. Ele parou de sentir as pontas dos dedos e enterrou a cabeça no gorro do moletom preto. Era como se sua presença pudesse manchar a paisagem que deveria servir por completo como moldura para o rosto dela.

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Queria levá-la para a praia, passar o dia vendo a maneira com que ela balançava o chinelinho na ponta dos dedos dos pés enquanto lia um livro sentada embaixo do guarda-sol, de pernas cruzadas. Ao lado dela, seria sempre verão.

Ela pegou seu pedido, virou de costas e foi embora. Ele rapidamente pediu alguns pães, se esqueceu do leite e foi até a saída da padaria, quando a razão travou suas pernas. Não podia dar uma de louco e seguir uma mulher na rua. Não é assim que as coisas funcionavam. Botou na cabeça que a encontraria na manhã seguinte, na mesma fila e se declararia.

Durante a tarde, definiu seis nomes que provavelmente seria o dela. Definiu que ela provavelmente adoraria ir para o samba, rodar a noite toda para ele ver. Pesquisou preços de viagens que poderiam fazer juntos e planejou a roupa que vestiria no dia seguinte para buscar pão.

No dia seguinte, já estava duas horas atrasado quando foi embora da padaria sem ver a garota.

Cabisbaixo e com as mãos enfiadas no bolso do moletom, levava sua carcaça para o metrô sem nem tentar organizar suas frustrações. Era uma sexta-feira e havia a possibilidade de vê-la apenas na segunda-feira, já que todos mudam seus horários nos finais de semana. Seria uma longa espera.

Na plataforma, contava os quadradinhos do piso emborrachado. Perdia a conta antes mesmo das dezenas, por pura ausência de concentração.

Um quadradinho, dois...

Um... dois...

As unhas vermelhas no sapatinho peep toe o fez perder a conta mais uma vez. Subiu os olhos e reparou no terninho de cor vinho, no cabelo escuro feito petróleo que se apinhavam em um rabo de cavalo meticulosamente ajeitado bem para cima, algo que dava um ar superior ou de certa liderança à mulher que se fazia em seu lado.

Ela olhava para o fim do túnel, aguardando o próximo vagão. Ele olhava para ela.

Aceitou, na mesma hora, sua condição de submisso, seria eternamente devotado à ela, seguiria suas ordens, faria suas vontades como o mais leal dos serviçais. O trem chegou e ambos entraram. Ela se sentou e ele ficou em pé ao lado da porta. Estavam de lado e ele pegou um livro de dentro da mochila, mas não leu palavra alguma. Ficou a pensar como seria a voz dela, o jeito como ela ordena as coisas, em como deveria ser a maneira com que ela preferia seu café.

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Ela saiu duas estações depois e ele foi até o ponto final prometendo a si mesmo que, no dia seguinte, arrumaria uma maneira de se declarar pra ela.

Não saiu de casa sexta a noite. Tomou banho e ficou na varanda montando planos. Se sentia vivo. Foi correr cedo na manhã seguinte, se sentia disposto e bem, pronto para aquela mulher. Foi quando a bicicleta tirou sua concentração no parque. Ela passou desacelerando e freou poucos metros depois de ultrapassá-lo. Usava a vestimenta completa da saúde: tênis de corrida, uma saia que, na verdade, era um shorts roxo, regatinha branca e uma faixa na cabeça. Ele nunca vira panturrilhas tão graciosas como aquela. Era um par de batatas simétricas e harmoniosas e ele poderia apostar com qualquer um que as irmãs dela iriam amá-lo.

Queria comprar um cachorro para passearem juntos os três.

Ao visitar os pais no domingo, viu sua vizinha saindo com o carro e não se conformou como nunca pediu para sair com ela. Quando crianças, seus achismos de moleque a viam magra demais, com uma voz grossa demais. Percebeu a besteira de suas concepções infantes e decidiu que faria uma visita ainda nesse mês, retomar contato, lembrar das brincadeiras do passado, ver as incríveis semelhanças de ideias que possuíam nesse futuro. Seria lindo e romântico despertar um amor que estava ali, na cara de todos.

Em casa, domingo a noite, procurou botar a cabeça no lugar. Depois de tanto tempo e de pedir com tamanho afinco, se apaixonara uma boa porção de vezes em alguns poucos dias. Era novidade demais para pouca força no coração. Precisava de parcimônia, ficou feliz de perceber o perigo que corria, as besterias que poderia cometer, estava orgulhoso de si de antever situações das mais embaraçosas mas também gostou bastante de ter recebido tantos ímpetos de amor em um curto espaço de tempo.

Sentou-se na poltrona e botou no canal de filmes. Estava passando uma película francesa e achou graça de novo. Um filme romântico na cidade mais romântica para um homem que estava afogado em paixões.

Na televisão, uma mulher parada em uma ponte sobre o Sena. Cabelos curtos, pescoço á mostra, o sotaque gaulês de delicadeza exacerbada. Tinha os dentes separados, a sobrancelha grossa e também toda a incerteza do mundo nos olhos. Ele queria salvá-la e passear com ela pelos cafés da capital. O nome do filme era La fille sur le pont.

Ele saltou do sofá e, num arroubo, abraçou a tevê e seu coração disparou em acelero. Na cabeça, fazia contas para ver quando conseguiria comprar uma passagem na classe econômica para Paris.

Mecenas: Ford Ka

Todo mundo já viveu uma boa história pra contar. Gostamos de imortalizá-las contando na roda de amigos, para a família. Outros as transformam em contos, escrevem livros.

A Ford vai selecionar as melhores histórias reais de consumidores reais e imortalizá-las em um vídeo como esse aqui:

Link YouTube

O ator Lázaro Ramos irá encenar e ajudar a selecionar os melhores roteiros que destacam grandes conquistas das pessoas.

Para ter sua história representada pelo Lázaro, é só contar sua conquista de vida no site do Novo Ford Ka.


publicado em 29 de Julho de 2014, 07:28
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Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


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