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A menina e o celular | Cotidiano #11

Lili sai do trabalho depois de um dia carregado e ainda tem muito cotidiano a ser enfrentado antes de chegar em casa

Um dia de 72 horas. Era tudo o que a Lili estava desejando no final da tarde de ontem, mas as trovoadas indicavam que ainda teria mais por vir. O enredo foi aquele que sabemos bem. A Lili pegou trânsito, se atrasou para a primeira das três reuniões do dia, ficou com projetos acumulados, almoçou no restaurante lotado, barulho constante, calor demais e água de menos, nenhum aconchego, um céu de urubus de ponta a ponta.

Cansou. A meditação, o sorriso no rosto de fechar ainda mais os olhinhos orientais e a comida balanceada pareceram não ser o suficiente. Justo ontem, que meus pais viriam nos visitar no apartamento que ela acha estar sempre bagunçado.

Coitadinha da Lili. Esforçada, acorda cedo, faz seu café, seca os cabelos enquanto escuta as notícias da manhã, dá comida para o vira-lata. Pega o busão do trabalho, dá uma cochilada merecida, adquiriu a destreza de acordar no ponto exato em que o ônibus entra na reta da avenida onde trabalha. É batata, não falha uma. 

Ontem ela só queria ir embora na hora certa, dar uma varrida na sala, conseguir mandar aquele e-mail confirmando a nova tatuagem que está enrolando desde agosto último. Junta suas coisas, desliga o computador, precisa parar para ouvir um colega de trabalho que queria falar com ela e cortou o assunto logo que percebeu que, em vez de perguntar algo sobre planilhas ou orçamento, veio caetaneando um papo de otário, signo Escorpião, Sagitário, não-sei-que-lá. 

Desceu às pressas e desabou a chover. Pegou o coletivo quase saindo e deu uma bufada de alívio. Acabou. Só precisava me ligar e pedir para que eu deixasse a louça em ordem, secasse direitinho a pia da cozinha. Encontrou meu nome na lista e botou o smartphone no ouvido. Enquanto toca, ela se senta no ônibus e procura o celular no compartimento apropriado para o aparelho dentro da bolsa.

Eu atendo e ela, preocupada:

 Jader, eu não sei onde ficou meu celular, não o encontro dentro da bolsa! Acho que vou ter que voltar e ver se esqueci no trabalho, ver se alguém encontrou!

— Lilian, cê tá falando comigo como?

— Tô indo direto pra casa. Vinte minutos e chego aí.

— Também te amo.

#jesuislili.


publicado em 16 de Janeiro de 2015, 00:00
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Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


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