A onda, a superação e a glória

Se existe um esporte difícil de definir e explicar aos não praticantes, esse é o surf

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Em 1975, depois de observar por anos uma onda gigantesca despejar sua fúria concentrada em toneladas de água escura e congelante, sobre um fundo rochoso de pedras enormes e disformes  — em um pico distante da costa na pacata Half Moon Bay, norte da Califórnia, região que nunca fora conhecida por abrigar ondas grandes —, um jovem surfista local de 17 anos, chamado Jeff Clark, decidiu que chegara a hora de desafiar aquele fenômeno da natureza.

As condições eram perfeitas. Ondas da altura de um prédio de quatro andares marchavam por milhares de quilômetros no oceano até chegarem ao ponto da plataforma continental em que a profundidade diminui abruptamente, fazendo com que montanhas líquidas dobrassem sobre si mesmas. Não bastasse a capacidade de aniquilar qualquer ser humano que ousasse desafiá-las, a água ainda era infestada por tubarões brancos. Em situações como essa, não existe margem para erros.

Sem nenhuma testemunha ao redor, Clark enfrentou a forte correnteza durante a remada até o pico. Chegando lá, a 400 metros da praia, se posicionou além das pedras que saem para fora da água na forma do dorso de um crocodilo, e se preparou para pegar sua primeira onda. Quando ela se aproximou, remou com toda força e comprometimento, cabeça baixa, empurrando a água com as mãos o máximo que podia, remando na prancha o mais rápido possível. Então começou a sentir a aceleração na face da onda. Ficou de pé e, conforme iniciava o drop em direção à base, percebeu a enorme sombra da onda se formando logo atrás dele. Manteve sua linha junto à parede, fugindo do rolo compressor e tentando gerar velocidade para controlar as turbulências e escapar da besta.

Ele conseguiu.

Saiu ileso. E concluiu que não há nada mais prazeroso do que observar algo por tantos anos, estudar aquilo minuciosamente e, finalmente, conseguir realizar um feito que acreditava ser possível, por mais que tudo levasse a crer o contrário.

O detalhe curioso é que ele continuou surfando essa onda, chamada Maverick’s, sozinho durante os quinze anos seguintes, sem que nenhum dos seus amigos tivesse tido coragem e disposição para dividir com ele aquela emoção. Finalmente, em 1990, Clark conseguiu convencer dois amigos de Santa Cruz a surfarem Mav’s com ele. Voltaram para casa com essa lenda sobre uma onda gigante e, no primeiro swell que entrou depois disso, havia doze caras no line-up prontos para encarar a onda. Aquilo mudou o curso da história.

Link Youtube | Jeff Clark, Riding Giants

Tentando explicar o inexplicável

Se existe um esporte difícil de definir e explicar aos não praticantes, diria que é o surf.

Imagino que a maioria das pessoas se encante ao ver a imagem de um surfista e sua prancha fluindo sobre as águas, como se dançasse com a natureza. Mas qualquer um que já tenha experimentado o esporte, independente do quão longe tenha ido, percebeu que não se trata de algo tão simples como jogar uma pelada com os amigos, bater um frescobol na beira da água ou sair de rolê na magrela.

Surfar requer, do surfista, determinação, paciência, estudo e entrega. Da natureza, as variáveis incluem força, tamanho e direção da ondulação, intensidade e direção do vento, o tipo de fundo (areia, pedra ou coral) da praia em questão, direção e força da correnteza, condição da maré, entre outras. Isso sem falar no equipamento. A prancha, terceiro elemento da equação, que deve ser adequada para o surfista, para a condição do mar e o tipo de performance que se pretende atingir.

Nos últimos dois anos, com os títulos mundiais conquistados por Gabriel Medina (primeiro brasileiro da história a vencer a primeira divisão do circuito mundial), em 2014, e Adriano de Souza, o Mineirinho, em 2015, o surf virou assunto em rodas de bar e mesas de jantar, alcançando um patamar de evidência inédito no Brasil. Mas o surf de competição é somente uma das facetas do esporte. Existem muitas outras, como o freesurf e o surf de ondas grandes, perfeitamente exemplificado em sua essência na história de Jeff Clark em Maverick’s.

Então, como explicar esse vício pela adrenalina em flertar com a morte a cada nova sessão? Essa resposta reside no interior de cada um dos homens e mulheres, lucidamente insanos, que optam por esse estilo de vida. Para eles, na realidade, esse é o único jeito de viver.

Um dos principais nomes desse universo é o americano de São Francisco Laird Hamilton. Considerado uma lenda viva do esporte, o ex-modelo (e obcecado por nutrição e condicionamento físico) foi pioneiro e um dos criadores do tow-in, modalidade em que o surfista é rebocado por um jet-ski para dentro de ondas gigantes, tão grandes e velozes que seria impossível remar nelas apenas com a força dos braços. A invenção de Hamilton e seus amigos, no início dos anos 90, quando ainda usavam botes infláveis, revolucionou a maneira como os surfistas encaram a abordagem às ondas grandes.

Com isso, novas ondas começaram a ser exploradas, como Jaws, na ilha havaiana de Maui, uma das mais poderosas, perigosas e intimidantes do mundo, ao lado de Maverick’s. Graças ao tow-in, Hamilton também surfou a que foi classificada como “onda do século”, no ano 2000, no Tahiti. Teahupo’o, ou “praia dos crânios quebrados”, na língua local, é uma das ondas mais temidas do planeta. Isso acontece devido a formação do fundo de coral, raso e afiado, e a velocidade e força da onda. A sucção de água é tão violenta que dá a impressão de estar quebrando abaixo do nível do mar. Quando ondulações muito grandes atingem a bancada, a centenas de metros da praia, forma-se um dos tubos mais largos e impressionantes do planeta.

O pico, num dos poucos momentos da temporada em que os competidores do Tour experimentam o que sentem os surfistas de ondas grandes, faz parte do circuito mundial profissional. A diferença é que, enquanto os primeiros são pagos para isso, os últimos muitas vezes fazem por amor ao esporte, e para satisfazer seu vício em adrenalina.

Ao longo dos anos, surgiu uma horda de surfistas ávidos por essa emoção, um grupo de “lunáticos” que não mede esforços nem consequências para satisfazer seu desejo de superar limites e viver situações extremas.O Brasil se tornou protagonista nesse cenário graças a nomes como Carlos Burle, Eraldo Gueiros, Rodrigo Resende, alguns dos primeiros (a lista é grande e não caberia em poucas linhas) a abandonar as carreiras de competidores para se dedicar ao freesurf — buscando ondas perfeitas pelo mundo para produzir fotos e vídeos . Depois, passaram a buscar ondas cada vez maiores, e não demorou para perceberem o potencial midiático da modalidade.

Considerado um guru do big surf pelas gerações mais novas, Burle, hoje com 48 anos, protagonizou muitos momentos marcantes na história, como uma sessão monumental em Maverick’s ao lado do parceiro Eraldo, em 2001, quando surfou uma das maiores ondas documentadas no local, com 22 metros de altura. O pernambucano viria a se tornar, em 2010, o primeiro campeão mundial de ondas grandes do então recém-inaugurado Circuito Big Wave World Tour. Feitos como esses estimularam o surgimento de novos gladiadores dos mares, e nomes como Rodrigo Koxa, Pedro Scooby, Felipe “Gordo” Cesarano, Lucas Chumbo, Pedro Calado e Maya Gabeira — uma das poucas mulheres a ingressar nesse seleto grupo, conquistaram — e vêm conquistando seu lugar na arena.

Há alguns anos, Burle “adotou” o trio formado por Scooby, Gordo e Maya como seus pupilos. Uma equipe dedicada exclusivamente a estudar o mundo do big surf e perseguir os maiores swells, treinando juntos, trocando experiências e, claro, vivendo situações extremas. Uma delas aconteceu durante uma sessão na praia de Nazaré, em Portugal, em outubro de 2013. Depois de cair em uma onda, fraturar a perna e ser arrastada por vários metros já desacordada, Maya quase morreu afogada. Só escapou porque Burle chegou a tempo de resgatá-la e fazer a ressuscitação cardiorespiratória.

Na mesma sessão que quase acabou em tragédia, Burle e Scooby pegaram as maiores ondas de suas vidas, uma evidência de que, nesta modalidade, limite, medo e glória andam lado a lado. Quando se fala em surfistas de ondas grandes, porém, são poucos os que se destacam em outras modalidades, como é o caso de Pedro Scooby. Além de buscar as maiores ondas, Scooby também é um freesurfer de talento quando o assunto é surf progressivo. Seu arsenal de manobras aéreas em ondas menores, que ele surfa com igual dedicação e alegria, surpreende qualquer um que o vir surfando nas praias do Rio de Janeiro, onde vive, ou nas muitas ondas ao redor do globo.

Link Youtube | Pedro Scooby vs A onda gigante de Nazaré

Para esses indivíduos, a diferença entre viver e morrer está em detalhes, mas isso não os impede de continuar buscando o que os faz feliz. Na ocasião do acidente, Maya foi duramente criticada por ter se colocado naquela situação, já que para muitos, ela ainda não estaria totalmente preparada para as condições que o grupo enfrentou. Mas quem decide isso se não ela mesma? Como dizer o que é certo ou errado quando se tem paixão pelo que se faz, quando isso é seu objetivo na vida?

O surf está cheio de histórias como essas, em que a busca pela superação dos próprios limites é o principal combustível para seguir em frente. Mas para superar limites e dar um passo à frente não é necessário ser um big rider e surfar ondas gigantes e potencialmente assassinas.

Toda pessoa tem um limite a ser quebrado, não importa o nível de experiência nem o tamanho da sua coragem. O que vale mesmo, no fim das contas, é manter a chama acesa, olhar para dentro e viver de acordo com suas próprias expectativas. Como disse o mestre Bruce Lee:

“Eu não estou nesse mundo para viver de acordo com as suas expectativas, e você não está nesse mundo para viver de acordo com as minhas... Exibicionismo é a ideia de glória dos tolos.” (Bruce Lee)

Não é à toa que, por quinze anos, Clark surfou uma das maiores ondas do mundo sem testemunhas ao redor. Ele estava lá, inteiro, sentindo e vivendo. Precisa de mais?


publicado em 13 de Dezembro de 2016, 00:05
Ricardo macario

Ricardo Macario

Paulistano, formado em publicidade e jornalismo, pega onda há 26 anos e por mais de 15 foi editor de site e revista especializados em surf. Já surfou no Hawaii, Indonésia, Austrália, NZ, Chile, Peru, América Central e continua acreditando que a melhor onda é sempre a próxima.


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