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A penúltima batalha

Um cheiro putrefato e fétido pairava pelo ar. Alguns corpos estendidos, uns em decomposição, outros chegando lá. A maioria parecia se encontrar num meio termo, nunca se sabe ao certo. Olhares vagos, pupilas vidradas, cabeças inativas. 

Ninguém parecia perceber um ser esbaforido balbuciando palavras ao vento em um pedestal distante. Um ser alvo, um igual que se achava maior, alguém que falava muito, mas não dizia nada. Ele parecia estar tentando viver.

Ledo engano.

Estava tão irradiante quanto um buraco negro. Talvez seja esse o motivo para seus irmãos caçulas evitarem busca-lo em seus campos de visão. O cenário era degradante, beirando o destino de Édipo. Como se não bastasse, chega o momento do abate. Gemidos paralelos, que antes rasgavam os tímpanos de todos os presentes, se acalentam. É possível se ouvir uma batida ao fundo, quem sabe o esboço de contrações ventriculares esperançosas. O ar fica mais denso. A respiração daqueles que ainda tentam fica mais ofegante.

É possível sentir o enxofre adentrando e deixando as narinas de cada um. O suor corre pelas têmporas. O silêncio é ensurdecedor. Como se uma vidraça quebrasse em uma UTI, a expectativa é findada. O algoz dá a ordem. Alguém deve se sacrificar.

Silêncio...

Silêncio...

Suspiro.

Um bravo se atira do penhasco. Ah se suas pernas fossem do tamanho de seu ego...alcançaria o fundo do buraco sem precisar saltar. A queda foi bruta, ou melhor, livre.

O tempo não anda, pesa. Como Atlas, me sinto carregando o Mundo nas costas. Os segundos engatinham pelos ponteiros do relógio. Bip Bip. Bip Bip.

É o sopro de Deus? Talvez. Se não for, é no mínimo o mais próximo disso. As almas foram perdoadas, os demônios exorcisados.

São 10 da manhã, e minha aula de anatomia médica acabou, só falta mais uma para o fim do semestre. 

"Hora de ir pra casa."

publicado em 14 de Outubro de 2012, 07:00
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Jose Vitor

Considera o cinema seu primeiro amor. Tem um cachorro chamado Stalone. Atualmente é um açougueiro em formação, também conhecido como acadêmico de medicina. É casado com a Corrida, mas tem uma amante chamada Tabaco. Gosta de escrever pra não se esquecer de que é humano.


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