Vamos oferecer um curso de equilíbrio emocional para homens. Começa nesta quinta e ainda há vagas.

A prática do boicote num mundo interligado | WTF #55

Embora não se deva abandonar as pressões sobre os governos, o boicote hoje tem muito mais valor até mesmo do que o voto

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Neste mundo, temos três opções éticas. 

Uma das opções é a aleatoriedade, que pode também ser descaso ou indiferença. Tanto faz que impacto nossas ações tenham, em particular se aparentemente não afetam direta ou imediatamente a nós, ou a quem está perto e reconhecemos como “nosso”. 

A opção pior que essa é acreditar que infringindo dano aos outros, por meio da exploração, por exemplo, seremos mais bem sucedidos – ou acreditar nisso como um tipo de sucesso. 

Isto é, temos, para começar, ações neutras e negativas.

Eu não mato ninguém. Eu só vendo armas.

Chamo essas duas de “opções éticas” porque dizem respeito à ação humana; elas não são éticas num sentido que diga ao florescimento humano, ou a agir de forma realmente esclarecida. 

Nesse contexto, temos apenas a terceira opção, agir positivamente no mundo.

“Agir positivamente” parece, de certo ângulo, algo simples e fácil de dizer, ou, por outro aspecto, extremamente difícil de colocar em prática – ou de entender. Não precisamos entrar nos detalhes que constituem a consciência moral, e em situações reais ou imaginadas onde dilemas morais se apresentam. 

Basta, por ora, entender que cada um de nós tem a opção de: 

1) não se importar, e ser amoral; 

2) acreditar que “é bom ser ruim”; ou 

3) se esforçar para agir de forma mais correta possível no maior número de circunstâncias. 

O que é bom, cada um precisa examinar com cuidado por si, levando em conta o que entende do mundo e os vários feedbacks que recebe – mas que a terceira é a única opção viável para melhorar a vida e possibilitar alguma compreensão e esclarecimento sobre o mundo e sobre si próprio, isso é autoevidente.

Ainda assim, embora a maioria das pessoas se porte boa parte do tempo de acordo com a opção verdadeiramente ética, isso se dá de forma instável e reduzida – mesmo que algumas pessoas desejem agir sempre virtuosamente, elas não conseguem por vários fatores. Em parte isso ocorre porque não raciocinamos direito, ou raciocinamos direito algumas vezes, mas esquecemos dos resultados, e se raciocinamos direito muitas vezes, e chegamos a boas conclusões, mesmo assim, algumas vezes não chegamos a tornar a virtude um hábito. 

Uma vez que o hábito da virtude é gerado, se torna mais fácil ser virtuoso e lembrar-se de ser virtuoso. Portanto, é importante treinar em raciocinar, lembrar-se das conclusões, e agir repetidas vezes de acordo o maior apuro, de forma a gerar esse hábito de virtude.

Neste mundo de sobrecarga de informação e pouco tempo de digestão dessa informação, cada vez se torna mais comum agirmos aleatoriamente. Afinal de contas, não sabemos se ou quando alguma coisa pode prejudicar alguém – então parece que podemos postar qualquer coisa no Facebook, ou que a grande maioria das nossas pequenas ações de compra não faz diferença. 

Também o processo de exploração comercial é tal que há um grande grau de anonimidade entre os produtores e intermediários e o comprador, de forma que já que o agricultor não vê os rostos de quem envenena com agrotóxico, ele segue exagerando no veneno. Ora, os resultados daquilo são “incertos” e ele, afinal de contas, não vai acompanhar essas pessoas na visita a médicos, e assim por diante.

Eu não mato ninguém. Eu só exagero no veneno para me garantir.

Mas o “efeito borboleta” é bem real, em todas as ações. E a proposição mais cética em termos morais é acreditar que, se alguém em algum lugar pode ser prejudicado, o melhor é se abster daquela ação. Ou, entre duas ações daninhas, pelo menos escolher a de menor impacto.

O agente inconsequente, aleatório, niilista, caótico pensa: “ora, o que eu causo no mundo eu não sei no que vai dar, e pouco me importa, porque eu não sei se vai atingir a mim ou quem me é caro”. Ou algumas vezes, não liga mesmo para ninguém, não se importa nem mesmo com si próprio – o que é uma forma de niilismo. Porém isso advém de uma crença e uma aposta muito grande na independência das coisas – e as coisas se mostram cada vez mais interligadas.

Do mesmo modo, algumas pessoas não tão extremas pensam que suas ações positivas ou seu esforço contínuo na direção da virtude “não vai dar em nada” – e desanimam. De fato talvez seja mesmo adequado abandonar a expectativa por resultados, mas sabemos, por experiência, que ser correto funciona melhor na família, no trabalho, e assim por diante. Por que não funcionaria em todos os âmbitos, mesmo naqueles onde a cadeia causal é muito distante ou complexa?

Quando me pediram para que eu escrevesse sobre boicote – por exemplo, não comprar produtos de empresas como a Coca-Cola ou a Nestlé – fiquei mesmo um pouco pasmo. Embora eu saiba que a maioria das pessoas (mesmo quem acredita em voto, imagine) não pratica boicote porque acha que seu ato é estatisticamente irrelevante, ou em alguns casos não reconhece nenhuma empresa (nem a Monsanto!) como vilã, eu atribuía a isso uma questão de “primeira opção”, e então pensava: ora, precisaremos de um tratado de ética para demonstrar por “A+B” que a terceira opção é a única viável. E tenho certeza que vai ter gente comentando a esse texto defendendo a primeira, ou até a segunda, opção. Isso é natural, ainda que desencorajador.

Depois, mesmo quem tem clareza sobre a terceira opção, na maioria dos âmbitos práticos, próximos, não consegue lidar com a ideia de algoritmos, isto é, dos padrões de comportamento dessas entidades abstratas que são as corporações, em termos de seus estatutos, reação a pesquisas entre consumidores e lobby e tensões legislativas. É outro âmbito anônimo, nós, aqui, pequeninos, não temos como fazer frente perante uma Monsanto da vida.

Mas, como no mito judaico, o underdog tem vantagens. 

Num sistema em que um pequeno grupo de agentes pequenos começa a fazer pressões, uma hora alguém acerta a pedra na cabeça do Golias. Uma série de pequenos ativismos pode ganhar momentum, e assim o jogo começa a virar. É só, como o movimento contra as bolhas de vidro e metal que sujam o ar e entopem as vias diz, atingir uma massa crítica.

Uma hora alguém acerta

O outro aspecto é que muitas pessoas focam ainda suas críticas no governo. As empresas são consideradas coisa de gente que está trabalhando para fazer o mundo andar, ir adiante – alguns empresários até podem ser inescrupulosos, mas, sendo gananciosos como são, pelo menos são previsíveis; assim sabemos o que farão, e, portanto, os vemos como menos perigosos. 

Mas as pessoas veem assim porque confundem a ideia de uma empresa familiar com as megacorporações – em que nem mesmo o CEO tem o direito legal de diminuir o lucro dos acionistas – e em que decisões sobre externalidades (impactos negativos sobre o ambiente e outros agentes que não os consumidores ou fornecedores da empresa) não são tomadas por seres humanos, mas por um algoritmo contratual, que é claro, não é capaz de consciência moral. 

É como se alguém ligasse um robô de fazer dinheiro, e daí em diante, as ações da máquina não estão mais sob o controle de ninguém. O CEO é alguém que obedece esse estatuto, sob pena de demissão ou multa – mesmo que as externalidades da empresa envenenem o próprio filho dele. Ele é um mero refém da máquina.

Embora não se deva abandonar as pressões sobre os governos, o boicote hoje tem muito mais valor até mesmo do que o voto – afinal de contas, o patrocínio de campanha, muitas vezes dentro da legalidade, é absolutamente imoral – e vem exatamente desses enormes robôs fora de controle.

E o boicote não significa apenas deixar de comprar, mas fazer bom uso das redes sociais. Se uma empresa pisou na bola – não só em termos de direitos do consumidor, mas em termos éticos mesmo – é preciso tentar criar uma reação em cadeia contra ela. Essa prática de guerrilha da era da informação já se mostrou efetiva em alguns casos – mas ainda se está por ver os verdadeiros gigantes tremerem.

Em particular, cada vez as empresas ganham mais direitos e liberdades, e enquanto alguns brigam contra o governo por direitos individuais, as corporações simplesmente obtém os benefícios. Ora, nos EUA as empresas têm direito de patrocinar candidatos porque a decisão da Suprema Corte diz que onde colocar dinheiro é expressão do pensamento, e a primeira emenda garante liberdade de expressão. Só que esses direitos deveriam valer apenas para pessoas, que detém consciência moral, e não para instituições que deliberadamente evitam, por estatuto, que a consciência humana opere em suas decisões.

O maior ativismo que podemos fazer hoje é contra a pessoalidade corporativa. É preciso mudar essa lei, em termos globais. 

Temos hoje, por exemplo, crise ambiental porque certas ideologias foram codificadas na forma de algoritmos, algo como um “programa de computador” que roda nessas organizações. Parece piada, mas algumas pessoas se preocupam com a singularidade, enquanto de fato ela já aconteceu 200 anos atrás. Por mais grosseiros que sejam os mecanismos contratuais que retiram dos homens (participantes da empresa ou não) o direito sobre tomada de ações, eles não são essencialmente diferentes de programas de computador.

O movimento mecânico de extrair cada vez mais dinheiro, algo absolutamente abstrato, de tudo disponível ao redor (corpos, o planeta, a atenção dos seres), teve como subproduto tornar o planeta mais tenso, quente, sujo e inóspito. Esse movimento também penetrou e interferiu por meio da publicidade em nossas prerrogativas e em nossa visão de mundo, e nossos desejos, invadindo nosso mundo mental e distorcendo nossas prioridades.

E porque entregamos o poder para a máquina, para a engrenagem de produzir dinheiro sem consideração por nada nem ninguém? Foi o último momento em que a ganância humana foi maior do que a de seu Frankenstein: o dinheiro era mais barato com menos responsabilidade moral. Claro, se ninguém corre o risco de ir para a cadeia nem é multado por botar dinheiro no algoritmo, a preferência é o IPO. Sociedade anônima é o esquema Ponzi do capitalismo industrial.

O Esquema Ponzi

Não obstante a grave situação presente, cada compra, cada repique de publicidade, cada marca que ostentamos, impacta um sem número de seres hoje e no futuro. Ainda assim, não é prático simplesmente abandonar tudo, se tornar um neoludita ou um neoneandertal: há um caminho do meio em permanecer em parte ao menos no mundo projetado pela máquina e discriminar, forçar a entrada da consciência (humana, ética) em cada ação, cada compra, cada vínculo que se forma.

Quanto a especificidades, muita gente me pergunta: por que isso, e por que aquilo não. Ora, minhas discriminações dizem respeito a minhas próprias necessidades, e ao meu próprio conhecimento sobre as questões envolvidas. É óbvio que se eu posto essas coisas numa página, pretendo com isso ter certo impacto. Eu gostaria de ser exemplo em várias de minhas opções, mas realmente não acredito que seja necessário apenas acrescentar a essa lista. 

Ora, o Facebook, por exemplo, eu até gostaria de boicotar, mas eu dependo dele, em certa medida, para me promover como escritor, e até para contatos de trabalho. Não se está aqui buscando perfeição moral. Apenas não ser aleatório, ou negativo, já basta. Onde se puder, e como se puder, praticar virtude, está ótimo.

A máquina é indiferente à virtude, mas a valorização do humano – de ter um lugar para respirar ar limpo, ter água limpa, e alimentos não envenenados – é a única aposta possível. 


publicado em 19 de Fevereiro de 2015, 00:00
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Eduardo Pinheiro

Diletante extraordinário, ganha a vida como tradutor e professor de inglês. É, quando possível, músico, programador e praticante budista. Amante do debate, se interessa especialmente por linguística, filosofia da mente, teoria do humor, economia da atenção, linguagem indireta, ficção científica e cripto-anarquia. Parte de sua produção pode ser encontrada em tzal.org.


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